Universidade do Futebol

Entrevistas

28/02/2015

Mauro Viana, Árbitro Assistente da FPF

“Planejamento”. A palavra-chave quando o assunto é administração dos clubes de futebol também se encaixa para a arbitragem. Alvo de diversas críticas de imprensa e torcida, os apitadores brasileiros passam por um processo de atualização constante. Mais do que isso, algumas entidades, como a Federação Paulista de Futebol (FPF), realizam um plano de trabalho.

Quem está inserido neste processo é Mauro Viana. Árbitro Assistente da FPF, ele explica que a equipe de arbitragem expõe como conduzirá a partida, para que todos tenham o mesmo critério.

Segundo Viana, na categoria A1 do Campeonato Paulista, há um estudo mais aprofundado das equipes participantes, que seria o ideal para todas as séries. “Hoje, o plano de trabalho antes do jogo é fundamental para uma boa condução de uma partida. Esses estudos mais aprofundados das equipes acontecem também em outras categorias, conforme as demandas de jogos”, revela.

Graduado em Gestão Desportiva e Máster em Gestão de Futebol, Viana explica que o seu desempenho e dos companheiros de função é avaliado pelos analistas de arbitragem, no campo de jogo, duas horas antes da partida até o seu final, através de uma “Ficha de Avaliação de Arbitragem”. Controle no campo e técnica de arbitragem, posicionamento e aptidão física; e trabalho em equipe são os pontos observados.

Após o resultado dentro das Normas de Classificação, a Relação Anual de Árbitros (RAA) classifica os mesmos em seis categorias, de acordo com os critérios estabelecidos pela Comissão Estadual de Arbitragem – um plano de carreira aos árbitros e assistentes, a partir daí, é determinado.

“O sistema de gestão de carreiras implantada pelo Coronel Marcos Marinho, que é a meritocracia, visa que o árbitro deva se empenhar para conquistar o topo, ou seja, o trabalho do árbitro dentro de campo e também fora de campo, como o estudo e a preparação física é conquistada por mérito”, completa Viana.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, o especialista em arbitragem fala ainda sobre a inserção de mulheres neste mercado e qual é a relevância da tecnologia para este processo.

Universidade do Futebol – Qual a sua opinião sobre a lei sancionada pela presidente Dilma Roussef que transforma a arbitragem em profissão no país. Essa regulamentação atendeu a todos os gargalos que a categoria precisava?

Mauro Viana – A Lei Nº 12.867, de 10 de outubro de 2013, que regula a profissão dos árbitros de futebol sancionada a mais de um ano é uma linha divisória na carreira dos árbitros de futebol, portanto ainda temos um caminho longo para que todas as entidades de arbitragem de futebol se adeque, seja federações ou empresas particulares.

No estado de São Paulo, o presidente da entidade de classe, Sr. Arthur Alves Júnior, vem trabalhando para que todas as empresas e entidades regularizem seus quadros de árbitros e que todos os profissionais tenham a Chancela do Sindicato dos Árbitros do Estado de São Paulo, com cursos uniformizados, com instrutores capacitados. O presidente Arthur vem realizando simpósios regionais de arbitragens, esclarecendo a referida Lei, que este ano já foram realizados dezenove (19) desses simpósios em diversas cidades do estado de São Paulo.

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o processo de formação de novos árbitros e a capacitação continuada para os árbitros da ativa?

Mauro Viana – É fundamental para a formação do árbitro, pois a regra não é clara, a regra é interpretativa. Hoje a Federação Paulista de Futebol realiza durante todo o ano a prática orientada, onde todas as categorias são analisadas na mecânica e técnica de arbitragem em campo, seja árbitro central ou árbitro assistente, acompanhada pelos instrutores da Escola de Arbitragem Flávio Iazzetti.

Universidade do Futebol – O senhor acredita que a formação de árbitros ligados às ciências humanas possa minimizar o número de problemas e, consequentemente, a resolução destes durante uma partida de futebol?

Mauro Viana – O aspectos do ser humano como indivíduo e como ser social não só na arbitragem, mais também em qualquer profissão está falível a equívocos. O árbitro é um ser humano como os outros, que deve realizar atos corretos, mas está propenso a equívocos, como qualquer outro.

A ajuda da psicologia esportiva na arbitragem é de suma importância, pois lidamos com pessoas de diferentes personalidades e temos que ser imparcial, fazendo sempre cumprir as regras do jogo, e isso em frações de segundos. Mas mesmos os que não estão diretamente ligamos as ciências humanas, poderão ser excelentes árbitros, visto que nosso aprimoramento é contínuo e mesmos os árbitros mais cartesianos podem conduzir um jogo sem erros.

Universidade do Futebol – Já há artigos que mostram quem os árbitros tomam quase 200 decisões por jogo. Como condicionar um profissional a esta profissão nitidamente estressante? E, em relação aos erros, como o senhor vê essa questão diante deste cenário de pressão e acúmulo de funções?

Mauro Viana – As decisões existem e devem ser tomadas conforme a regra do jogo, por isso a importância da aprendizagem continuada, tanto na literatura do jogo, como na prática, pois o estudo nada valerá se o árbitro não tiver controle emocional diante das pressões dos jogadores, comissão técnica e torcida. E quanto ao acumulo de funções, hoje, infelizmente, os árbitros têm que ter um adicional em sua renda, que esperamos com a profissionalização, esta dependência diminua significamente.

Universidade do Futebol – Na Europa, alguns árbitros chegam a estudar até os esquemas táticos das equipes para poder se atentar alguns comportamentos que poderão influenciar no seu trabalho dentro de campo. No Brasil, como é a preparação de um árbitro para um jogo?

Mauro Viana – No Brasil, antes dos jogos há o plano de trabalho, no qual a equipe de arbitragem expõe como conduzirá a partida, para que todos tenham omesmo critério. Na categoria A1 do Campeonato Paulista, há um estudo mais aprofundado das equipes participantes, que seria o ideal para todas as categorias, isso não quer dizer que o árbitro que atua na Série A1 seja mais preparado, pois todos passam pelos treinamentos teóricos é práticos durante o ano. Hoje o plano de trabalho antes do jogo é fundamental para uma boa condução de uma partida. Esses estudos mais aprofundados das equipes, acontece também em outras categorias, conforme as demandas de jogos.

Universidade do Futebol – Existe um modelo de treinamento específico realizado para os árbitros de futebol? Como se dá a integração entre CBF e demais federações de futebol mundo afora?

Mauro Viana – Como eu faço parte apenas do quadro da Federação Paulista de Futebol, seria temerário de minha parte fazer comentários do quadro da CBF sem propriedades, mas a Federação Paulista de Futebol tem instrutores que são também da Fifa, então temos uma universalização dos treinamentos hoje realizados sempre em busca da excelência.

Universidade do Futebol – Como é feita a análise do desempenho dos árbitros e a interação com ele, após a atuação em uma partida oficial?

Mauro Viana – Hoje, o nosso desempenho é avaliado pelos analistas de arbitragem, no campo de jogo, duas horas antes da partida até o seu final, através da Ficha de Avaliação de Arbitragem. O quadro de analistas é formado em sua maioria por ex-árbitros que estão atuando fora do campo de jogo com suas experiências na regra do jogo e vivencias no campo.

Em uma visão macro, esta análise é feita com a seguinte ótica:

1. Controle no campo e técnica de arbitragem;
2. Posicionamento e aptidão física; e
3. Trabalho em equipe.

Portanto estes tópicos são subdivididos em vários sub tópicos, no qual o árbitro, árbitros assistentes e quarto árbitro são analisados individualmente com méritos e deméritos, conforme o caso, posteriormente enviada a comissão de arbitragem que no início de cada temporada após o resultado das avaliações e dos conceitos de desempenho constantes das Normas de Classificação, os árbitros da Relação Anual de Árbitros (RAA) são classificados em seis categorias, de acordo com os critérios estabelecidos pela Comissão Estadual de Arbitragem, determinando, desta forma, um plano de carreira aos árbitros e assistentes.

O Plano de Carreira estabelecido pela Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol está dividido em 6 categorias:

Categoria Especial
Categoria 1
Categoria 2
Categoria 3
Categoria 4
Categoria 5

O sistema de gestão de carreiras implantada pelo presidente da comissão de arbitragem da Federação Paulista de Futebol, Coronel Marcos Marinho, que é a meritocracia, visa que o árbitro deve se empenhar para conquistar o topo, ou seja, o trabalho do árbitro dentro de campo e também fora de campo, como o estudo e a preparação física é conquistada por mérito.

Universidade do Futebol – Os jogadores criaram o movimento Bom Senso FC para pleitear, entre outras coisas, melhorias no calendário nacional. Para os árbitros, qual seria o calendário ideal?

Mauro Viana – O art. 32, da Lei No 10.671, de 15 de maio de 2003, ou seja, o Estatuto de Defesa do Torcedor, determina que as federações e confederação escale os árbitros da partida mediante sorteio, agora vamos analisar a situação.

Os jogadores criaram este movimento por que acham que o calendário tem uma quantidade exaustiva de jogos, mas para a arbitragem, esta quantidade pode ser subjetiva, visto que pelo sorteio os árbitros podem fazer um, dois ou nenhum jogo durante um mês.

Vamos colocar uma pergunta para os leitores, dirigentes e torcedores: Seria justo sortear os jogadores? Uma equipe com 22 jogadores, vamos sortear os 11 que irão jogar a partida “X”, com 48 horas antes, como estabelece o inciso 1º, do art. 32, da lei supracitada. Acho que não seria justo e tão pouco aceitável, então por que sortear os árbitros, e não usar a meritocracia?

Então, o calendário ideal, nos moldes que a Lei determina hoje, na minha opinião é indiferente para a arbitragem, pois nós precisamos de ritmo de jogo, de uma constância para aprimorar as técnicas aprendidas nos aprimoramentos.

Universidade do Futebol – Qual a sua opinião em relação à introdução da tecnologia nas diversas regras do futebol. Quais medidas o senhor é a favor e quais considera impraticável ou pouco eficaz? Por que?

Mauro Viana – A tecnologia sempre será bem vinda, mas com certa cautela, pois o futebol é o esporte das massas, das emoções, por que os equívocos sempre existiram, mas hoje temos as câmeras de TV captam tudo, mas tem lances que mesmo olhando diversas vezes não tem um consenso, imagine em frações de segundos, e o árbitro não é uma máquina, é um ser humano normal. Mas qualquer mudança nas regras do jogo, inclusive o uso de tecnologias deve ser discutida na reunião anual que a International Football Association Board (IFAB) realiza, normalmente em fevereiro ou março. A Board, como é comumente chamada é formada pela Fédération Internationale de Football Association (FIFA) e as quatro federações do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) que podem propor temas a serem discutidos e ratificados na Assembleia Geral Anual (AGA).

Eu sou a favor de medidas que tragam a transparência nas tomadas de decisão da equipe de arbitragem, mas que não tire a emoção do jogo.

Universidade do Futebol – Como o senhor vê o papel da mulher dentro do mundo da arbitragem? Quais são as diferenças em relação à situação masculina?

Mauro Viana – A mulher pode ser uma excelente árbitra ou árbitra assistente, como temos muitas, quanto os homens, só vejo que a dedicação delas deve ser muito maior, pois há o preconceito masculino e a própria formação física. Estudos mostram que a mulher possui uma visão periférica muito mais abrangente que a do homem e uma excelente percepção de objetos em curta distância, o cérebro masculino é configurado para uma visão a longa distância.

Mas a cada dia a mulher ocupa mais o seu espaço na arbitragem, mas é um caminho árduo para o sexo feminino devida as diferenças naturais entre ambos.
 

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