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09/04/2018

Mimimi paulista

A história que vai reverberar por mais tempo entre tudo que aconteceu no futebol brasileiro no último domingo (08) é a de Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza, 45, árbitro que trabalhou em Palmeiras x Corinthians, decisão do Campeonato Paulista. O condutor do clássico viu um pênalti do alvinegro Ralf em Dudu aos 26min do segundo tempo, em lance na linha de fundo, quando os donos da casa perdiam por 1 a 0 no Allianz Parque – o resultado levaria às penalidades a disputa da taça, enquanto o empate daria o título aos mandantes. Depois, ouviu do quarto árbitro que o volante havia batido na bola e atingido o capitão alviverde apenas na sequência do lance. Esperou quase oito minutos, conversou com atletas e com mais gente que estava na área externa e por fim reviu a decisão.

O pênalti que não foi pênalti mudou a história do Campeonato Paulista e teve repercussão muito além das quatro linhas. Mauricio Galiotte, presidente do Palmeiras, deu uma entrevista verborrágica após a partida. Disse, entre outras coisas, que a competição estava manchada pelo lance. Além disso, vetou jogadores de sua equipe na entrega de medalhas, ainda no Allianz Parque, e também optou por um boicote à festa de premiação do certame estadual. Um grupo de conselheiros ainda espera que o time alviverde organize uma represália e boicote o torneio a partir do ano que vem.

A questão toda em torno do lance é se houve interferência externa na decisão de Ribeiro de Souza, o que é proibido pelas regras. Há imagens que mostram movimentos não usuais do quinto árbitro e de outras pessoas que estavam no entorno do gramado. Há conversas suspeitas, ações suspeitas e uma série de cenas questionáveis nos oito minutos entre a marcação do pênalti e a revisão. O Palmeiras tem razão para questionar a liturgia e a origem das informações que chegaram ao árbitro – na transmissão em rede aberta, profissionais da TV Globo foram imediatamente unânimes ao questionar a falta. O Palmeiras pode achar que o árbitro mudou um posicionamento com base em uma percepção que não era definitiva – o lance é questionável mesmo após replays. O Palmeiras pode questionar até o impacto que a paralisação teve em seu time, que precisava de um gol para evitar as penalidades. O Palmeiras pode até achar que o roteiro do clássico abalou emocionalmente seus atletas – Dudu e Lucas Lima erraram suas cobranças, e o Corinthians ficou com o título.

O que o Palmeiras não pode é transformar o episódio em ferramenta discursiva de conflito. Quando disse que o campeonato estava manchado e questionou a relevância do Paulista, Galiotte colocou em dúvida o próprio esforço que seu clube havia feito nos meses anteriores. Se tivesse sido campeão, o mandatário alviverde adotaria um tom de desdém tão escancarado?

Do jeito que foi colocado, o discurso do dirigente pareceu mais uma resposta a seus pares do que uma análise fria. Pareceu um choro de mau perdedor. Ainda que a interferência externa tenha acontecido, o fato é que o Palmeiras reclama de um lance em que a marcação de um pênalti teria sido um erro.

Se o Palmeiras tivesse sido campeão graças a um pênalti equivocadamente assinalado, Galiotte teria adotado um discurso semelhante? E se a interferência externa não oficial é um problema tão grande para o time alviverde, por que a diretoria nunca se pronunciou para criar mecanismos que impedissem essas ações?

Em 2017, depois de um jogo em que o Corinthians venceu o Vasco no Campeonato Brasileiro com um gol irregular anotado por Jô, Marco Polo Del Nero, então presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) disse que urgia a adoção do árbitro de vídeo e que essa medida era irreversível para a principal competição nacional. Depois, apresentou aos clubes uma conta de R$ 20 milhões por ano e entregou o custo a eles. O orçamento foi reprovado, importante dizer, sem que houvesse questionamentos sobre a natureza desse valor.

A única tentativa recente de minimizar polêmicas no futebol brasileiro, portanto, esvaiu-se numa simples discussão sobre custo. Não houve parecer técnico ou debate sobre a necessidade de evolução. Não houve preocupação com o todo, o que também resume o posicionamento de Galiotte após a decisão do Campeonato Paulista.

Se houve interferência externa na decisão do árbitro, trata-se de um erro inaceitável. Galiotte, contudo, não pode fazer acusações e julgamentos sem apresentar provas. Ainda que os indícios levem a uma conclusão assim, não pode levantar dúvidas sobre pessoas e instituições sem se responsabilizar por isso.

E aqui uma adição importante: também não deve, se achar que foi lesado, fingir que não aconteceu nada. Não pode aceitar qualquer explicação da FPF (Federação Paulista de Futebol) e não deve deixar o tema morrer, ainda que isso abale relações políticas.

O desfecho do Campeonato Paulista de 2018 tem muito do que o Brasil tem vivenciado no campo político: acusações sem provas, pessoas tomando partido e análises enviesadas. O Palmeiras tem chance de dar um passo além e efetivamente transformar o choro em investigação ou plano de ação. Caso contrário, para usar uma expressão que tem sido comum nas redes sociais, a reclamação do clube não vai passar de mimimi.

Comentários

  1. Felipe disse:

    Só esqueceu de citar que o Palmeiras foi um dos poucos times que votou a favor do VAR.

  2. Diego disse:

    No final, parece que seu texto Guilherme não foi para criar uma provocação benéfica para achar soluções. Onde necessariamente teriam informações mais específicas sobre o todo, os detalhes que fizeram a diferença na decisão, não apenas falar sobre mimimi, ou reclamações de um presidente que tem por direito e dever defender suas cores, principalmente com vários erros ao longo dos últimos anos com um favorecimento claro para somente um dos lados.
    Sinceramente seu texto, apesar do cunho profissional, parece um torcedor, comentando sobre um time que não lhe é do seu agrado.

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