Universidade do Futebol

Entrevistas

29/11/2013

Mirella Domenich, gerente geral da Streetfootballworld

Foi do assassinato do zagueiro colombiano Escobar, após marcar um gol contra na Copa do Mundo de 1994, que surgiu a ideia para a criação de uma das maiores organizações que promovem o desenvolvimento social por meio do futebol no mundo atual.

De lá para cá, a Streetfootballworld transformou uma metodologia conhecida como “Futebol 3” em política pública e hoje em dia tem presença em 60 países.

No entanto, dentro do Brasil, onde existe desde 2010, a ONG enfrenta as mesmas dificuldades que qualquer outra entidade para desenvolver um trabalho social com crianças e jovens.

"Acredito também que falta as empresas pensarem além das leis de incentivo. Falta um entendimento destas potenciais empresas apoiadoras destes projetos em relação ao trabalho desenvolvido pelas organizações. Por que sempre há muita sinergia com as empresas quando se quebra essa barreira do desconhecimento", afirma Mirella Domenich, gerente geral da Streetfootballworld, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Além da falta de uma legislação específica para a promoção do desenvolvimento social no Brasil, a especialista ainda aponta que os clubes também deveriam ser cobrados pela responsabilidade social no futebol nacional.

Para ela, os dirigentes teriam de pensar no jovem em formação como um ser humano completo e não somente como um jogador de futebol.

"Há muitos trabalhos de formação de jovens atletas sem essa preocupação pessoal, social e profissional de forma conjunta. Afinal, é um ser humano que está entrando no clube. É um cidadão. E o clube não pensa nessa responsabilidade. Isso ajudaria no desenvolvimento até do próprio país", completa.

Nesta entrevista, Mirella ainda falou sobre como a Streetfootballworld se tornou consultora da Fifa no projeto Football for Hope e quais as características que o futebol possui que são mais benéficas para um projeto social. Confira:

 

Universidade do Futebol – Por favor, nos descreva como é desenvolvido o trabalho da Streetfootballworld?

Mirella Domenich – A Streetfootballworld é uma ONG internacional, fundada na Alemanha em 2002. Mas, foi em 1994, quando houve aquela morte do zagueiro Escobar após marcar um gol contra na Copa do Mundo que um dos fundadores, que morava na Colômbia, se sensibilizou com aquele fato e começou a desenvolver um projeto chamado Futebol para a Paz, que fazia uso deste esporte para combater a violência nas ruas daquele país.

Esse trabalho tinha como base uma metodologia conhecida como Futebol de Rua ou Futebol 3, que possibilita que o jogo seja desenvolvido em três tempos. Na primeira parte, é um período de diálogo no pré-jogo, no qual os participantes se reúnem para debater e discutir quais serão as regras que eles aplicarão para jogar na segunda etapa da partida.

E o segundo tempo é o jogo em si, em que a ideia geral é que os acordos sejam cumpridos. E o terceiro tempo é quando os jovens fazem uma avaliação sobre as regras que foram construídas na etapa inicial, analisam se foram, de fato, executadas pelas duas equipes e discutem que melhorias poderiam ser aplicadas.

Detalhe: nestas partidas, os times ou grupos são mistos, com homens e mulheres misturados na mesma atividade. Na época, notou-se até que, com a inclusão das mulheres no jogo de futebol, a tendência da violência era menor.

E as regras podem ser as mais diversas possíveis, regras como o gol só tem validade se todos participarem da jogada, por exemplo. E esses jogos sempre têm um mediador, que tem um papel que vai além de um juiz ou árbitro.

E essa metodologia virou política pública lá na Colômbia, tamanho foi o sucesso que ela teve na resolução dos problemas locais. E baseado nesta iniciativa bem-sucedida, a Streetfootballworld foi fundada na Alemanha em abril de 2002.

E, desde então, somos uma grande rede global que une organizações por meio de um objetivo comum, que é o desenvolvimento social por meio do futebol. Reunimos organizações ao redor do mundo que usam o futebol como ferramenta para capacitar os jovens.

Então, a Streetfootballworld faz um trabalho em rede, o qual proporciona a troca de experiências e conhecimentos entre as organizações, profissionais de futebol, empresas, governos, fundações e membros que fazem parte desta mesma rede. Fazemos com que iniciativas locais se tornem globais.

Durante a Copa do Mundo 2006 na Alemanha, a Streetfootballworld organizou um festival com o Futebol 3, que foi marcante para nós. Isso porque, logo depois desta ação, a organização foi convidada pela Fifa para ser a principal consultora do projeto Football For Hope.

Já no Brasil, a ONG existe desde 2010 sempre com o objetivo de utilizar o futebol como ferramenta para o desenvolvimento social, capacitando pessoas envolvidas com o futebol, trazendo apoiadores para fortalecer o setor, promovendo o protagonismo juvenil, entre outras ações.

Além disso, fizemos um mapeamento aqui no Brasil das organizações que têm este mesmo objetivo e estamos promovendo a troca de informações entre elas. Porém, para um país do tamanho do Brasil, estas ONGs não são muitas.

O trabalho da Streetfootballworld é reunir organizações no Brasil e ao redor do mundo que usam o futebol como ferramenta para capacitar os jovens, conta Mirella

Universidade do Futebol – Quais as principais barreiras que um projeto como o da Streetfootballworld enfrenta para obter parceiros e financiamento para suas ações?

Mirella Domenich – Os desafios são os mesmos do que qualquer ONG enfrenta no Brasil. É sempre muito difícil o acesso ao setor que pode financiar ações como essas.

E esse setor não é grande no Brasil. Cresceu muito, mas ainda não é grande o suficiente. Então, sempre há muita dificuldade de se conseguir apoio. Falta também uma legislação que contribua mais com este cenário.

Acredito também que falta as empresas pensarem além das leis de incentivo. Falta um entendimento destas potenciais empresas apoiadoras destes projetos em relação ao trabalho desenvolvido pelas organizações. Por que sempre há muita sinergia com as empresas quando se quebra essa barreira do desconhecimento.

Capacitamos pessoas envolvidas com o futebol, trazemos apoiadores para fortalecer o setor, promovemos o protagonismo juvenil, entre outras ações, revela a gerente geral da ONG

Universidade do Futebol – Por favor, poderia nos contar quais os objetivos da Comunidade de Aprendizagem que a SFW está coordenando?

Mirella Domenich – A Comunidade de Aprendizagem surgiu em outubro de 2011 e, desde então, o nosso objetivo é reunir algumas organizações do Brasil que têm interesses em comum.

A ideia é de se criar essa comunidade para reunir pensamentos e propostas que tenham afinidades e na qual estes conhecimentos possam ser compartilhados.

Atualmente, são 30 organizações que participam dessa comunidade. São entidades de diferentes estruturas e que o futebol é o elo entre elas. E, com isso, pretendemos ampliar as interações entre estas organizações com as outras, já que a Streetfootballworld está presente em 60 países.

Com o futebol, você consegue trabalhar mais o sentido do coletivo, do grupo. Gera um senso de equipe nas crianças, aponta Mirella Domenich

Universidade do Futebol – Quais as características que um esporte como o futebol possui que são mais benéficas para um projeto social?

Mirella Domenich – Com o futebol, você consegue trabalhar mais o sentido do coletivo, do grupo. O senso de equipe. Com isso, a criança já começa a lidar com uma relação de interdependência com o time, o que mais tarde vai acontecer em relação à sociedade.

Além disso, o futebol pode desenvolver habilidades com coisas lúdicas, vários projetos sociais utilizam o futebol para ensinar gramática, por exemplo.

Então, essa paixão pelo futebol pode canalizar o jovem para outras áreas da vida.

É muito complicado para as ONGs pequenas se beneficiarem da Lei de Incentivo ao Esporte. São muitas exigências, o que faz boa parte destas entidades não se enquadrarem no perfil solicitado pelo governo federal. Então, acaba não sendo favorável, analisa

 

Universidade do Futebol – A Lei de Incentivo ao Esporte é favorável ou não para a utilização do futebol como promoção de desenvolvimento social no Brasil? Por que?

Mirella Domenich – Eu acho que a Lei de Incentivo ao Esporte dá brechas para isso, mas não é o forte dela. E acredito que, mesmo assim, ela não deveria ser utilizada só para o alto rendimento.

Então, ela acaba sendo uma lei para poucos. No entanto, o futebol como desenvolvimento social deve ser direcionado para muitos.

Além disso, as organizações precisam de um expert no assunto para se inscreverem na Lei de Incentivo ao Esporte. É muito complicado para as ONGs pequenas se beneficiarem dessa lei.

São muitas exigências, o que faz boa parte destas entidades não se enquadrarem no perfil solicitado pelo governo federal. E o próprio processo depois que a ONG é aprovada também é complexo. Então, acaba não sendo favorável.

Durante a Copa do Mundo 2006 na Alemanha, a Streetfootballworld organizou um festival com o Futebol 3 e, logo depois desta ação, a organização foi convidada pela Fifa para ser a principal consultora do projeto Football For Hope

Universidade do Futebol – No esporte, de que modo pode-se trabalhar a questão social sem decair no mero assistencialismo?

Mirella Domenich – Eu sempre digo que o trabalho voltado para o desenvolvimento social deva ser sempre em longo prazo. E o assistencialismo é em curto prazo.

A própria área de desenvolvimento social não é a favor de assistencialismo. Em casos extremos, como fome, por exemplo, até acaba se recorrendo a esta forma.

Mas, o objetivo do desenvolvimento social é desenvolver capacidades nas crianças e nos jovens para que eles sejam capazes do próprio desenvolvimento. São projetos de transformação em longo prazo.

A questão social tem sempre a ideia de continuidade. E como você consegue isso? Capacitando as pessoas para que elas mesmas se tornem agentes do próprio desenvolvimento. Que atinjam o patamar de protagonismo na própria família e na vida.

Universidade do Futebol – Como o SFW enxerga o papel dos clubes sobre a responsabilidade social do futebol?

Mirella Domenich – Eu acho que é um cenário de muitas oportunidades e que deve ser ainda muito melhorado. A responsabilidade social no futebol deve pensar no jovem como um ser humano completo e não somente como um jogador de futebol.

O jovem atleta não é preparado para a vida. Prepara-se o jovem apenas para uma carreira que é curta. Então, é preciso dar a devida formação a estes futuros cidadãos brasileiros.

E, outra coisa, os clubes precisam pensar na responsabilidade social desde as primeiras categorias de base. E não somente depois que ele chega ao profissional.

A questão social tem sempre a ideia de continuidade. E como você consegue isso? Capacitando as pessoas para que elas mesmas se tornem agentes do próprio desenvolvimento. Que atinjam o patamar de protagonismo na própria família e na vida, diz

Universidade do Futebol – Você acredita que é possível pensar a formação de jovens jogadores de futebol sem a criação de um programa que gerencie o crescimento pessoal, social e profissional de modo interdisciplinar?

Mirella Domenich – Eu acho que não deveria ser possível essa possibilidade, mas não é o que vemos por aí. Há muitos trabalhos de formação de jovens atletas sem essa preocupação pessoal, social e profissional de forma conjunta.

Afinal, é um ser humano que está entrando no clube. É um cidadão. E o clube não pensa nessa responsabilidade. Isso ajudaria no desenvolvimento até do próprio país.

No futebol, o jovem atleta não é preparado para a vida. Prepara-se o jovem apenas para uma carreira que é curta, analisa Mirella

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como liberar o potencial de jovens, para que estes fortaleçam suas comunidades, alavanquem o desenvolvimento e promovam mudanças?

Mirella Domenich – Eu acho que por meio da Educação. Acredito que ela é fundamental neste processo. É a linha de base para tudo na vida. Por que, se houvesse isso, o projeto social seria como um complemento.

Vemos alguns projetos pilotos realizado por jovens que poderiam virar políticas públicas. Mas, para isso, é preciso mais interação governamental, o que ainda estamos muito longe de ser realizado.

 

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