Modelo de Jogo, estreitamento do campo e plataformas de jogo: o que uma equipe juvenil tem a nos ensinar sobre futebol

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Hoje comentarei sobre um jogo muito interessante e didático. Diferente de outras vezes não vou falar sobre o Chelsea, Barcelona, Milan ou qualquer grande equipe de futebol profissional da Europa ou do Brasil.
Tamanha riqueza de possibilidades e estratégias oferecidas pelo jogo, comentarei hoje sobre uma “partida” entre duas equipes de futebol sub-17 do estado de São Paulo, em jogo válido pelo Campeonato Paulista de Futebol da categoria.
Se isso leitor, o desinteressou, pedir-lhe-ei um exercício de “boa fé”; leia até o final (porque não é só dos jogos do Milan e outras equipes profissionais que podemos tirar lições – e aí vou tirando as minhas).
Chamemos as equipes de equipe “A” e equipe “B”.
A equipe “A” (visitante) precisava da vitória no jogo. A equipe “B” (já classificada para a próxima fase da competição) com uma vitória seria a 1ª colocada do grupo (o que lhe traria algum benefício na fase seguinte).
Clima quente e muito úmido; sem vento. O campo de jogo não muito comprido (~92m) possuía uma largura proporcionalmente avantajada (~68m) . Em outras palavras, campo “pequeno e largo”.
A equipe “B” (a mandante), tinha como modelo de jogo:
Na organização ofensiva:
·         Progressão vertical (por vezes horizontal) ao campo de ataque (independente da região do campo de jogo).
Na organização defensiva:
·         Recuperação da posse da bola, com “ataques” e pressão (e não pressing) ao portador da mesma (alternando estratégias de marcação individual e mista) a partir da linha 1.
Na transição ofensiva:
·         Ações rápidas em progressão ao campo de ataque, sem retirar a bola da zona de pressão (alternando passes longos e curtos – e com estrutura de balanço ofensivo fixa).
Na transição defensiva:
·         Ações imediatas de ataque a bola (com estrutura de balanço defensivo fixa, alternando momentos de jogo com “sobra” e “sem sobra”).
A equipe “A” (visitante), tinha como modelo de jogo:
Na organização ofensiva:
·         Progressão ao alvo, com jogo vertical de passes curtos (independente da região do campo de jogo).
Na organização defensiva:
·         Pressing zonal (com predomínio da variável espaço em relação a variável tempo), alternando horizontalmente linhas 1 e linha 3 (predominando a linha 3), impedindo progressão ao alvo até a linha vertical “b” e buscando a recuperação da posse da bola após essa linha.
Na transição ofensiva:
·         Rápida ação de retirar a bola da zona de pressão (horizontalmente) e busca posterior imediata de progressão ao alvo.
Na transição defensiva:
·         Alternando no jogo ações de recomposição da estrutura defensiva com ações de “ataque” a bola.
Em resumo, as equipes tinham nos seus sistemas organizacionais, propostas distintas. Analisemos um pouco mais a fundo a organização da equipe “A”.
Precisando vencer (e dadas as dimensões do espaço de jogo), a equipe “A” definiu como organização espacial inicial (quando se defendia) os estreitamento do campo de jogo. Então deixava a equipe “B” jogar pelas faixas laterais até a linha “b”, permitindo-lhe chegar até a linha de fundo (e dificultando-lhe os cruzamentos).

Como o pressing foi orientado para o domínio do espaço, a equipe “A” induzia a equipe “B” às regiões do campo que lhe fossem vantajosas para roubar a bola (mais especificamente forçando erros de passes).
Para a torcida “da casa” na arquibancada, a impressão de que os jogadores de sua equipe estavam “lentos” (o que na verdade estava acontecendo é que a equipe “A”, com seu pressing e estreitamento do campo, dava mais tempo do que o normal [para um pressing] para o jogador adversário permanecer com a bola, mas restringia-lhe opções espaciais para o desenvolvimento ofensivo do jogo [para depois roubar-lhe a bola]).
Como o pressing da equipe “A” era zonal, quando recuperava a posse da bola tinha melhor distribuição espacial no campo de jogo. Isso facilitava a retirada da bola da zona de pressão e a posterior progr
essão ao alvo.
A alternância de linhas horizontais de marcação (3 e 1) e dos princípios operacionais de defesa para essas linhas (equipe “A”) fizeram com que a equipe “B” não conseguisse encontrar equilíbrio ofensivo no jogo.
No 2º tempo da partida (o jogo já estava 3 a 1 para a equipe “A”) a equipe “A” teve um jogador expulso aos 10 e outro aos 30 minutos. Alterou sua plataforma de jogo mas não seu modelo.

Controlou sem bola o jogo e ainda teve chances de ampliar o resultado.
Apesar de ter a bola por mais tempo na 2ª etapa da partida, a equipe “B” não teve o domínio das ações do jogo (tinha uma falsa sensação!).
Final da partida, e o placar inabalável: Equipe “B” (mandante) 1 vs Equipe “A” (visitante) 3.
Foi um jogo de “gente grande”. Não dos vícios, maus exemplos ou velhos paradigmas dessa gente grande. Foi um jogo de jovens concentrados, determinados e versáteis, mas acima de tudo inteligentes e capazes de resolver “inusitadas” (inusitadas?) situações-problema do jogo.
Também oscilaram, tiveram seus momentos de desequilíbrio (não está aí um “fractal” da juventude?). Mas me “encheram” os olhos e por isso hoje, ao invés de discutir uma grande equipe européia resolvi discutir uma “adolescente equipe paulista”.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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