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O futebol, empolgou-me de corpo e alma;
escrevo crônicas de futebol e jogo.
O futebol apaixona e contunde
“.
Monteiro Lobato

O filósofo Sócrates (470-399 a.C.) disse certa vez: “tudo o que sei é que nada sei”.
Entendo a frase de Sócrates como a epígrafe do eterno aprendiz. Acredito que à medida que descobrimos o mundo, mais certeza temos sobre nossas limitações e de quanto não podemos pensar que sabemos o suficiente.
Por meio de reflexões constantes, avalio e reavalio minhas atitudes, meus conhecimentos frente às ações acadêmicas e profissionais que desenvolvo. E dentre minhas inúmeras limitações está a escrita.
Uma máxima pedagógica que encontro na maioria dos livros sobre técnicas de redação, entrevistas de professores especialistas e biografias de escritores consagrados, é a de que para aprender a escrever se faz necessária a combinação de muita leitura com a prática de escrita.
Ou seja, da mesma forma que jogar futebol se aprende estudando e jogando, escrever se aprende lendo e escrevendo. As técnicas são importantes e imprescindíveis, porém devem ser aprendidas dentro de seu contexto, tanto no jogo como na escrita.
Na época de menino, no auge dos desejos e encantamentos pelo futebol, fui enfeitiçado (inspirado) por alguns jogadores como Sócrates (o doutor), Leão, Valdir Perez, Zico, entre outros.
Quando o futebol começou a me mostrar seus outros mistérios, já nos início de minha juventude, despertou-me o interesse por estudá-lo e com isto toda a minha vida escolar e universitária se desenvolveu.
E sempre partindo do princípio de que para saber de futebol em toda a sua complexidade, é preciso aprender cada vez mais sobre tudo o que com ele interage, do humano, ao biológico, passando até pelas ciências exatas, emergiram novos inspiradores.
Nesse ínterim, descobri a literatura e especialmente, redescobri um autor que me acompanhou na infância: Monteiro Lobato. Com Lobato, o menino que vive em mim ainda está sempre sendo chamado a participar de reinações no sítio de Dona Benta, caçando com Pedrinho, aprendendo ciência com o Visconde, brigando com a Emília e se encantando com Narizinho.
Mas, para além das aventuras lúdicas, Monteiro Lobato tem me ajudado sobremaneira na luta constante pela superação de minhas deficiências na escrita, e para isto estou lendo agora sua obra adulta.
Neste agradável estudo, li “O presidente Negro” onde pude aprender a usar o porviroscópio, e agora me aventuro por suas crônicas. E foi exatamente ai que descobri dois textos interessantíssimos do então jovem Lobato.
O livro “Literatura no Minarete”, reúne 29 crônicas e ensaios escritos na época de juventude quando morava na República do Minarete, recolhidos pelo seu primeiro biógrafo, Edgar Cavalheiro, nos jornaizinhos e periódicos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

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Neste livro, estão os dois artigos sobre Futebol, escritos em 1905. Gostaria de compartilhar com a comunidade do futebol pequenos trechos destes instigantes textos. Tomarei o cuidado de não comentá-los ao final, mas como se verá nem preciso seria:
Não se pode dizer que o futebol seja o fator da formidável raça anglo-saxânica, porque ele é um filho dela. Mas não errará quem afirmar ser esse um bom filho um dos conservadores máximos  da energia imensa da sua loira mãe. E na verdade o futebol é o estimulante mais poderoso que entre os fortes estimulantes encontra o sangue anglo-saxão.
É por isso que se tornou ele o esporte nacional da Inglaterra e da terra Ianque. Nos colégios, no Exército, na Marinha, em toda e a toda hora joga-se o futebol, religiosamente, como quem cumpre um dever. É um ritual, quase. Vêm daí em parte, as eminentíssimas superioridades do inglês. Porque o futebol dá em primeiro lugar uma grande força física.
Dá resistência, dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá golpe de vista pronto, seguro e firme.
Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio.
Dá responsabilidade. Os porquês da tantos “dás”? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torso e do pescoço em seguida.
Essa energia cria resistência, é lógico, uma sendo recíproca da outra. Dá tática porque nas múltiplas fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias da luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais necessária e da de mais evidência, a presteza da percepção, a tática. (…) E assim mil outras faculdades morais e qualidades físicas este precioso jogo aprimora. (…) Rimos (o brasileiro reacionário e conservador) alvarmente de quem afirma que um esporte como este é mais fecundo em benefícios para o presente e para o futuro  da nossa raça do que todas as academias de Direito, todos os grupos escolares somados, multiplicados e elevados à décima potência. Mas a resposta-rolha ao nosso boçal risinho está no ianque e no inglês, esses modernos Alexandres , conquistadores de tudo, ante os quais os povos se curvam. (…) Um ditador que tomasse conta desta República (o Brasil) e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado”.     
Em 1905, Monteiro Lobato, tinha apenas 23 anos e o futebol (entendido enquanto jogo/esporte) no Brasil somente 11. Na época, dois jovens promissores que hoje continuam a nos ensinar, de diferentes maneiras, mas com o mesmo propósito: contribuindo com a nossa formação, de modo que, mais inteligentes, possamos enfrentar os desafios que a vida e o jogo nos impõem.
PS: necessário destacar o relato de o biógrafo Edgar Cavalheiro, na apresentação dos textos supra citados, sobre a sequência da relação de Lobato com o Futebol: “‘O futebol’, escreve Monteiro Lobato a Godofredo Rangel, ’empolgou-me de corpo e alma; escrevo crônicas de futebol e jogo. O futebol apaixona e contunde.’ Em dois longos artigos Lobato extravasa seu entusiasmo pelo novo esporte, estimulante poderoso, dá resistência, tática, agilidade (…) E dá também, acrescentamos nós, contusões. O que leva Monteiro Lobato a abandoná-lo às primeiras caneladas. Nunca mais jogou e quando adulto manifestou sempre o maior desprezo pelo jogo. Pode afirmar que o futebol em Lobato não passou de um ligeiro ‘sarampo da mocidade'”.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br
Leia mais:
Todas as colunas de Alcides Scaglia na Universidade do Futebol

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