Universidade do Futebol

Geffut

26/10/2012

Musculação e especificidade: duas moedas sem taxa alguma de câmbio

“As ideias estão no chão, você tropeça e acha a solução” (Titãs)

Defendemos nossos conceitos e nossas ideias de que maneira? Argumentamos com sabedoria? O que a musculação representa para nós como uma equipe específica?

Os defensores da prática da musculação alegam que há uma certa “proteção ao corpo”, no sentido, é claro, de se evitar lesões, para haver um equilíbrio entre músculo agonista, antagonista e sinergista, e desenvolver a famigerada força, explosão, impulso, enfim, sempre os mesmos argumentos levianos.

Claro, quem defende irá sempre justificar com argumentos científicos, e há a necessidade de se respeitar, pois ciência será sempre ciência, e não é à toa que fazemos o uso da mesma para justificar os nossos argumentos. Entretanto, a ciência não é lei. E o futebol é muito mais do que ciência, muito mais do que artigos, teses e etc.

Em conversa com amigo, mencionamos que alguns treinadores e preparadores físicos utilizam como treinamento regenerativo o uso da musculação (onde não deveria se chamar regenerativo, mas sim degenerativo, como um câncer linfático, matando aos poucos, uma metástase). Utilizam-se de agachamento, legpress, mesa extensora, mesa flexora e etc.

Evidentemente, todos os adeptos ferrenhos da Periodização Tática já conhecem os motivos da abolição da musculação, assim como faz determinada equipe da Espanha, líder do campeonato local, que tem um ratio de lesões totalmente inferior ao seu rival, e obviamente inferior a outras equipes europeias, quem dirá então comparando com as equipes brasileiras.

Primeiramente, a atividade de musculação preconiza cadeias musculares diferentes, com contrações diferentes, velocidade de movimento e tensões diferentes do que realmente um jogo de futebol exige, e ponto final, não se discute mais isso. Além disso, a evidência ridícula da tal transferência da força adquirida com máquinas para os gramados já foi derrubada, ponto final novamente.

Segundo, a propriocepção para o futebol é literalmente destruída pela atividade muscular, pois se fosse auxiliar, não haveriam tantas lesões de quadríceps, isquiotibiais, gastrocnêmio, sóleo, adutores e abdutores, púbis e demais. O fuso muscular é prejudicado, bem como os órgãos tendinosos de Golgi e demais receptores.

Um músculo forte jamais significará músculo adaptado para troca de direções, frenagens, sprints com ou sem bola, fintas rápidas, dribles, ultrapassagens, saltos potentes e etc. Aliás, cabe aqui lembrar que o termo “potência” deveria substituir o termo velocidade, pois não existe velocidade. Todo corpo se desloca carregando alguma carga (o próprio peso, onde necessariamente a força estará presente), portanto sempre alguém que é dito como veloz, na realidade será demasiado potente, não existe velocidade pura no ser humano.

Em recente entrevista ao nosso amigo Luis Esteves, nosso também amigo Jorge Maciel abordou algumas questões interessantes sobre o fazer musculação no futebol.

Para Maciel, “quem faz não percebe as implicações que isso tem a nível biomecânico, e muito menos pondera a história do corpo. Parte do pressuposto, errado, que o músculo é exclusivamente um órgão efetor de movimento, mas não, o músculo (e tudo o que lhe dá vida) tem inteligência, sensibilidade e como tal ao sofrer alterações no sentido de haver mais músculo, haverá ali uma parte nova que é estranha que como tal necessita de ser educada. Há perda de proprioceptividade, sobretudo, no que se refere à manifestação de uma atividade específica (o futebol), já que essas mudanças se fizeram tendo por base uma estimulação que em nada se assemelha ao que depois será exigido. Por tudo isto, pelo desfaçamento na forma de adquirir, pelo desfaçamento entre o corpo e o cérebro (corpo não tomou consciência das alterações) a propensão para lesões e descoordenação é muito maior. É comum jogadores que em poucos meses verificaram incrementos significativos, manifestarem perda de fluidez de movimentos, maior descoordenação com a bola, e em alguns casos aumentaram significativamente o número de lesões”.

Na musculação, a despolarização, repolarização e hiperpolarização acontecem de forma diferente quando comparado com a especificidade exclusiva da Periodização Tática, bem como a ativação de canais de cálcio, potássio, sódio, a quantidade de unidades motoras envolvidas, e a coordenação intermuscular e intramuscular, que por consequência lógica também será diferente. No futebol, em definitivo, a atividade de musculação não tem mais espaço, com exceção da recuperação de lesão, onde a fisioterapia exige, e que servirá para uma recuperação funcional, nada tendo relação com o jogo.

No Brasil, os jogadores se lesionam facilmente nos treinos mais do que em jogos. Sentem dores e acabam jogando um jogo e ficam de fora de três, são poupados de treinamentos e etc. E isso não se dá apenas pelo número de jogos acumulados, mas sim pela metodologia de treinamento equivocada. Se o treinamento fosse eficaz, se a musculação fosse eficaz, certamente isso não aconteceria, isso é de fácil dedução.

Voltando à potência, é necessário um ganho de potência específica que o jogo exige, o que não tem nada de relação com o que os livros de treinamento esportivo objetivam. E essa potência é totalmente treinável através da Periodização Tática, basta ler e estudar para se ver que é apenas uma questão de especificidade de treinamento. Está na cara, somente ignorantes não enxergam.

Jamais tal potência será possível de ser medida, pois a validade ecológica dos testes não permite isso; quem estudou metodologia de pesquisa sabe disso, quem não estudou, que leia o livro Research Methods in Physical Activity do Thomas, Nelson e Silverman.

Não queremos aqui que todos utilizem a Periodização Tática, até porque a mesma é para quem quer transcender. Quem tem a capacidade de enxergar a longo alcance algum dia entenderá o que aqui estamos explicando. Não impomos nada para ninguém, o Brasil é um país livre, os treinadores e preparadores físicos possuem seus “livres arbítrios para o bem ou mal treinar”. Cada um crê no que quer, (lembrando que a Periodização Tática não é religião e nem um Cristo), mas nem sempre essa crença irá beneficiar de forma eficaz para o que se pretende atingir.

Aliás, para que aqui não fique algo ambíguo, a metodologia de treinamento do futebol aqui defendida possui conhecimento científico pleno para ser aplicada, tudo por processo indutivo e dedutivo, o que alguns cientistas são incapazes de entender, quem dirá alguns treinadores. Vão ficar criando pesquisas para comprovar algo que é quase uma metafísica. Não vão conseguir, pois a gama de variáveis independentes, dependentes, intervenientes, covariantes e covariadas, são tão amplas que é impossível um controle com qualidade interna e externa aceita em periódicos, seja o qual for.

Fato este sim comprovado, é que a tática condiciona todas as outras dimensões do jogo, e isso é fácil de se encontrar, basta procurar, achar, ler, modificar, reconstruir e aceitar.

Então a musculação vai acabar? Não, não se pretende isso. Na verdade, ela nunca começou na Periodização Tática. Agora nos outros modelos de treinamento…

Comentários

Deixe uma resposta