Universidade do Futebol

Entrevistas

09/02/2007

Neide Sanches, professora de Yoga

Ainda hoje, a despeito de toda a evolução do mundo moderno, alguns profissionais do futebol têm resistência quanto à inserção de novas técnicas no esporte. Áreas como a fisiologia e a biomecânica, que há tempos fazem parte do cotidiano da atividade física e contam com vários trabalhos publicados, não são utilizadas em larga escala por conta da resistência que encontram o meio. Se é assim com ciências mais exatas agora, é praticamente impossível imaginar a experiência vivida por Neide Sanches.
 
Formada pelo Instituto de Educação Cardoso de Almeida, Neide é professora de Yoga – atualmente, conta com 140 alunos em Sorocaba. Em 1983, ela foi convidada a fazer um trabalho ligado à comissão técnica do Palmeiras para inserir a técnica no cotidiano dos jogadores alviverdes.
 
O contato de Neide Sanches com o Palmeiras, contudo, durou apenas alguns meses. A professora, que na época dava aula na PUC-SP, aceitou trabalhar na equipe paulista sem receber nada. O ideal dela era apenas conseguir pesquisar e vivenciar a aplicação do yoga num ambiente de um clube esportivo.
 
Já naquela época, porém, Neide encontrou o grande entrave que ela enxerga até hoje para a ligação do yoga com o esporte: o preconceito. Além de não ter conseguido estender o trabalho a todo o elenco do Palmeiras – o goleiro Emerson Leão não quis participar das aulas, ela deixou o clube assim que a comissão técnica liderada pelo treinador Rubens Minelli se transferiu para a Arábia.
 
Desde então, Neide chegou a tentar emplacar o yoga no São Paulo (por iniciativa do zagueiro Oscar, que havia se curado de uma insônia a partir do tratamento com ela) e trabalhou com o vôlei do Leite Nestlé.
 
Essas experiências foram suficientes para que Neide comprovasse a eficácia da prática de yoga para o esporte. “O yoga trabalha com posições psicofísicas. Portanto, tem efeitos mentais e trabalha mente, corpo e espírito. Muitas coisas podem ser auxiliadas com o uso do yoga. Isso é uma ciência”, lembrou a professora, nesta entrevista exclusiva à Cidade do Futebol.
 
Cidade do Futebol – Como foi a tentativa de colocar o yoga na rotina dos jogadores do Palmeiras?
Neide Sanches – Foi uma experiência maravilhosa. Eu dava aula na PUC-SP e fui procurada para fazer um projeto no Palmeiras em 1983. A idéia inicial era fazer uma aula com todos os atletas, mas eu dei a sugestão de fazermos uma palestra. Naquela época, o Palmeiras tinha uma hora semanal de descanso para os jogadores. Eu aproveitei esse tempo para conversar com eles e não falei só sobre yoga, mas sobre fisiologia, anatomia e muitas outras coisas. Quando eu acabei, a sala foi um silêncio enorme. Ninguém falou nada.
 
Cidade do Futebol – E como foi a reação dos jogadores?
Neide Sanches – O Palmeiras tinha um jogador chamado Rocha, que se levantou depois daquele silêncio e disse que gostaria de fazer aulas de yoga. Mas como foi uma manifestação isolada, não tinha como eu fazer isso no Palmeiras. Convidei o Rocha para fazer parte das minhas aulas na PUC-SP e ele passou a freqüentar, sempre com a viatura do Palmeiras. Ele gostou e levou mais um, e depois mais outro. Depois de um tempo, o pessoal da comissão técnica me falou que o Rocha tinha se tornado um líder espiritual do time em campo.
 
Cidade do Futebol – As aulas seguiram acontecendo com a turma da PUC-SP?
Neide Sanches – Chegou um momento em que não podíamos continuar lá. As aulas faziam parte do programa de educação física, mas eram pagas. Eu estava colocando muitos jogadores e fiquei com medo que isso prejudicasse a atenção aos outros. Quando o grupo ficou muito grande, passamos a fazer a aula no Palmeiras.
 
Cidade do Futebol – E todos os jogadores foram receptivos com as suas aulas?
Neide Sanches – Todo o elenco gostou. A única exceção foi o [Emerson] Leão [que ainda era goleiro da equipe alviverde e atualmente é treinador do Corinthians]. Ele mostrou um pouco de preconceito e preferiu não fazer parte do processo.
 
Cidade do Futebol – Quais foram os resultados mais expressivos do yoga no Palmeiras?
Neide Sanches – Eu lembro do Carlos Alberto Borges, por exemplo. Era um jogador que tinha uma lesão nos nervos e que tinha uma dificuldade muito grande quanto à elasticidade. Ele estava demorando para voltar aos gramados, mas se recuperou e estava jogando em uma semana depois do tratamento. Além disso, nunca mais teve nenhum problema.
 
Cidade do Futebol – O yoga tem efeitos apenas para curar lesões no futebol ou existem outras implicações?
Neide Sanches – Trata-se de uma coisa muito mais ampla. O yoga trabalha com posições psicofísicas. Portanto, tem efeitos mentais e trabalha mente, corpo e espírito. Muitas coisas podem ser auxiliadas com o uso do yoga. Isso é uma ciência e pode ter uma função importante para o desempenho dos atletas.
 
Cidade do Futebol – Como, então, o yoga pode ajudar os jogadores?
Neide Sanches – Se for bem aplicado, com noções importantes de anatomia e fisiologia, o yoga pode ter um efeito inacreditável. A respiração pode melhorar, por exemplo. Isso ajuda o preparo físico e o desempenho em campo. No Palmeiras daquela época, o time começou a crescer no segundo tempo das partidas e ganhar os jogos quando os rivais ficavam mais cansados. A longevidade também se estende e as pessoas que praticam yoga conservam um bom desempenho por mais tempo. Além disso, o risco de lesões diminui. Os jogadores do Palmeiras não tiveram problemas de lesões enquanto praticaram yoga. Todas as contusões aconteceram em lances de choque.
 
Cidade do Futebol – Com tantos efeitos positivos, por que você não continuou no Palmeiras?
Neide Sanches – A comissão técnica que estava no clube quando eu fui contratada [Rubens Minelli era o treinador] foi contratada para trabalhar na Arábia. Mas eu não podia acompanhar. O trabalho com yoga já é complicado; imagine para uma mulher e entre os árabes! Além disso, eu fiquei no Brasil porque tinha alguns compromissos profissionais aqui. Depois, a comissão técnica que chegou me jogou de lá para fora. Eles não concordavam com o meu trabalho, e eu não cobrava um tostão!
 
Cidade do Futebol – Além do Palmeiras, você teve alguma experiência com o mundo do futebol?
Neide Sanches – Eu tinha uma aluna que me chamou e disse que conhecia alguém que precisava de mim. Ela era filha do Marcelo Martinez, que era diretor do São Paulo, e me contou a história do [zagueiro] Oscar. Ele estava com insônia e isso estava prejudicando o desempenho. Eu passei o meu telefone e ele me ligou no mesmo dia. Descobrimos que morávamos muito perto e ele foi à minha casa. Eu falei que ele estava com um problema no sistema nervoso central e começamos a fazer um trabalho voltado para isso. Além de ter voltado a dormir, ele aumentou a elasticidade e começou a correr mais. Depois disso, ele até me levou para trabalhar no São Paulo, mas a comissão técnica de lá era contra e eu não consegui dar seqüência.
 
Cidade do Futebol – Esse preconceito que você enfrentou no São Paulo daquela época é o principal entrave para o yoga se firmar no futebol?

Neide Sanches – Sem dúvida alguma. Os problemas são o preconceito que as pessoas têm com uma coisa nova e que não faz parte da rotina delas, e a vaidade dos profissionais que trabalham no futebol atual. O yoga não é benéfico apenas para o futebol, mas para qualquer pessoa. O problema é que muitos ainda não entendem a complexidade dessa técnica e o quanto isso é eficaz.

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