Universidade do Futebol

Entrevistas

02/12/2011

Nelson Caldeira, treinador adjunto do SC Braga

O Sporting Club Braga vive um momento muito especial em sua história. Neste século, o clube da região do Minho, em Portugal, teve mudanças em seu modelo de gestão, a partir da eleição de António Salvador, e deu o pontapé inicial a uma era de resultados que o projetaram em termos nacionais e internacionais.

Estruturalmente falando, a agremiação passou a utilizar o Estádio Municipal de Braga, construído para a Euro 2004, e desde aquela temporada participa ininterruptamente das competições continentais – conquistou a Taça Intertoto em 2008-2009 e atingiu as oitavas de final da antiga Taça Uefa em 2006-2007 e 2008-2009. Mas o ano passado é que reservou um capítulo especial e que merece a referência mais profunda.

Após se sagrar vice campeão nacional, sob o comando técnico de Domingos Paciência, o Braga obteve o direito de participar pela primeira vez desde sua fundação da fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa. Nas eliminatórias do principal torneio entre clubes do mundo, bateu os tradicionais Celtic e Sevilla antes de encarar na chave o poderoso Arsenal, além do emergente Shakhtar Donetsk e do Partizan, a quem venceu duas vezes.

Como terminou em terceiro no grupo, migrou para a fase eliminatória da Liga Europa, na qual viria a eliminar Lech Poznan, Liverpool, Dínamo de Kiev e Benfica. Apenas não levantou o trofeu, pois parou diante do compatriota Porto – derrota por 1 a 0, em jogo único realizado em Dublin. O sonho europeu pode ter sido adiado. Mas o trabalho de campo seguiu.

O treinador principal Paciência recebeu o convite para integrar o staff técnico do Sporting, Liboa, e a direção bracarense contratou o treinador madeirense Leonardo Jardim. Depois de ter conduzido o Beira-Mar à primeira divisão na temporada de 2009/2010, e por ter feito idêntico a serviço do Chaves (promoção à Liga de Honra) na temporada anterior, Jardim aceitou o desafio e foi acompanhado por Carlos Pires, António Vieira, Rui Correia, Miguel Moita e Nélson Caldeira. Este último explica, nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, como se dá a relação entre todos.

“O treinador define o rumo, e a partir daí todos colaboram na estruturação do “plano de jogo” e nas propostas para as tarefas de treino (exercícios), que depois de revistos e harmonizados pelo Jardim serão levados à prática”, disse Caldeira.

Formado em Ciências do Desporto pela Universidade da Madeira, com mestrado pela Universidade do Porto defendendo a tese em análise do jogo de futebol, com o título “Relevância contextual das situações de 1×1 no Futebol. Um estudo com recurso à análise sequencial”, Caldeira esteve durante 12 temporadas desportivas no Marítimo da Madeira, iniciando como treinador adjunto da equipe B de futebol profissional e saindo na mesma função, só que na equipe principal, que disputa a primeira divisão portuguesa.

Em sua trajetória, também teve a responsabilidade de ser o treinador principal da equipe B, ao longo de três anos, na disputa dos campeonatos nacionais da segunda divisão. Entre outras funções desempenhadas, destaque ainda para a intervenção enquanto Coordenador do Centro de Excelência e Coordenador Geral de todo o futebol do clube.

Entre outras temáticas, Caldeira fala sobre a formação acadêmica em Portugal, a representatividade de José Mourinho para os jovens gestores de campo, o papel do futebol de rua na formação dos jogadores locais e porque propõe a “sequenciação e manipulação ecológica do treino do futebol” no lugar da periodização tática.

Caldeira (esquerda) e Jardim (centro) juntamente com a equipe técnica do SC Braga, apresentada no início da temporada: trabalho já rendeu qualificação à próxima fase da Liga Europa

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?

Nelson Caldeira – Tirei a licenciatura em Ciências do Desporto, com opção, ao nível da metodologia do treino, pelo futebol. Na altura, a Universidade da Madeira, onde me formei, tinha um protocolo com alguns clubes de forma a realizarmos um “estágio” com a duração de um ano, o que me permitiu iniciar no Nacional da Madeira, como treinador de iniciados (sub-15), isto na temporada de 1993-94, apenas com 20 anos de idade. Como a experiência acabou sendo positiva, o clube me convidou a prosseguir e estive mais um ano nessas funções.

Esse trabalho foi fundamental porque me “abriu as portas” do futebol profissional, como “treinador adjunto” logo na temporada 1995-96, na Associação Desportiva de Machico, na segunda divisão portuguesa. Daí passei para outro clube da mesma divisão, a Associação Desportiva da Camacha e, posteriormente, em 1999-2000 acabei por ingressar no Marítimo da Madeira.

No principal clube da Região Autónoma da Madeira, aqui em Portugal, acabei por ficar 12 temporadas, iniciando como “treinador adjunto” da “equipe profissional B” e terminando na temporada passada como “treinador adjunto” da equipe principal, tendo oportunidade de ajudar na qualificação e na disputa das competições europeias (Uefa).

Tive oportunidade de trabalhar com diversos treinadores de grande qualidade, como Nelo Vingada (atualmente na China e antigo treinador de diversos países), Anatoly Byshovets (antigo treinador da União Soviética), Manuel Cajuda (atualmente técnico do Leiria, em Portugal) Mariano Barreto (antigo treinador de Gana), Sebastião Lazaroni (antigo treinador do Brasil), Carlos Carvalhal (atual treinador do Besiktas, da Turquia) e Pedro Martins (atual treinador do Marítimo). Neste último clube, tive oportunidade ainda de desenvolver outras funções, como a montagem do “laboratório de controle do treino”, a coordenação do departamento de prospecção (“scouting”) e também a assessoria da administração.

Também no Marítimo, nas temporadas de 2003-2004, 2007-2008 e 2008-2009, tive a oportunidade de liderar enquanto “treinador-principal” a “equipe profissional B”, que disputava o “Campeonato Nacional da 2ª Divisão”, o que me permitiu desenvolver a minha própria metodologia de treino, sob influência natural de todos os treinadores com quem tive oportunidade de trabalhar, mas também com base na formação acadêmica “contínua”, proporcionada pelas minhas funções paralelas de professor na Universidade da Madeira, ao nível das cadeiras de “metodologia do treino” e “futebol”.

No início desta temporada, tive o convite para ingressar no Sporting de Braga, onde estou atualmente como “treinador adjunto” do treinador Leonardo Jardim.

Entretanto, em termos acadêmicos, tive oportunidade de concluir o meu mestrado em 2001, ao nível das Ciências do Desporto, no ramo de “Treino de Alto Rendimento Desportivo”, na Faculdade do Porto, com uma tese sobre a “Análise do Jogo, com recurso à metodologia observacional”.

Claro que, em conformidade com o plano de certificação de treinadores em vigor na Uefa, tive também de concluir os níveis da formação específica de treinadores. Assim, em 1998, obtive a certificação Uefa Advanced e em 2005 a Uefa PRO, cuja licença foi validada em junho deste ano, através do Curso de Reciclagem Uefa PRO.

 Até se firmar como treinador adjunto da equipe principal do SC Braga, Caldeira estudou bastante e passou por diversas etapas em outros clubes de seu país natal; na foto, em ação como treinador principal da equipe B do Marítimo da Madeira

 

Universidade do Futebol – Atualmente, você é um dos treinadores adjuntos no SC Braga. Poderia explicar um pouco mais sobre essa função e o dia-a-dia de trabalho no clube?

Nelson Caldeira – O Sporting de Braga, como outros grandes clubes em Portugal, tem uma estrutura técnica relativamente vasta. Como um dos “treinadores adjuntos”, procuro colaborar o melhor possível para o desenvolvimento da concepção de jogo e metodologia de treino defendida pelo treinador Leonardo Jardim.

Neste âmbito, existe um conjunto de tarefas que são distribuídas por todos os elementos da equipe técnica, desde a análise dos adversários, à elaboração dos “planos de jogo” e o “projeto estratégico” para cada confronto. Temos ainda aspectos como o desenvolvimento de “projetos individuais de treino”, de âmbito técnico, táctico e condicional, bem como tarefas ao nível do “registro e controle do treino”.

Caldeira foi treinador principal “interino” da equipe principal do Marítimo da Madeira, na 1ª Liga Portuguesa; na foto, em duelo contra o Braga, dá instruções ao atleta Antoine Van Der Linden
 

 

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre os diversos profissionais que atuam no staff técnico e o Leonardo Jardim? Há um acompanhamento conjunto com o departamento de formação de atletas (categorias de base)?

Nelson Caldeira – Porque já tive a oportunidade de liderar durante algumas temporadas uma equipe técnica, considero que todo o grupo de trabalho deve reforçar a “personificação” da liderança, apontando-a na pessoa do seu “treinador principal” (head coach). Tenho a convicção, portanto, que um “treinador adjunto” tem uma missão que deverá ser marcada pela descrição, sendo exigido um forte “low profile”. Considero que o nosso papel nestas funções, deverá ser o de procurar colaborar no desenvolvimento das “ideias e concepções do treinador principal”, pelo que as nossas próprias ideias e filosofia de treino e jogo devem passar para um plano completamente secundário.

É por isso que considero natural o fato de aqui no Sporting de Braga todo o “staff” ter na linha de pensamento e metodologia do “treinador” o seu fator aglutinador. Ao contrário do que acontece em outras estruturas, a concepção mais comum do treino desportivo em Portugal é altamente integrada e integradora. Nesta perspectiva, em que se enquadra o nosso “treinador principal”, o processo de treino desportivo é visto na sua totalidade, pelo que não existe a especialização profunda dos membros do “staff”, como em outros países. Todos somos “treinadores” que trabalham na globalidade do processo de treino, quer seja, mais em termos técnicos, ou táticos ou físicos, sempre sob a linha orientadora definida pelo treinador.

No que respeita à segunda parte da questão, o Sporting de Braga tem um departamento de formação, superiormente coordenado pelo prof. Agostinho Oliveira, ex-treinador da seleção portuguesa e com uma vastíssima experiência nas equipes de base do país.

A presença dele no topo da hierarquia do futebol “base” do clube espelha a forte aposta neste setor, que aqui, como em muitos outros clubes no nosso país, é visto com grande carinho e empenho. Por tudo isto, existe desde o futebol profissional um acompanhamento do trabalho que se vem desenvolvendo autonomamente na formação, mas o apertado calendário competitivo da nossa equipe não deixa muita margem temporal para um maior envolvimento.

Agostinho Oliveira, ex-treinador da seleção portuguesa e com uma vastíssima experiência nas equipes de base do país, hoje coordena o departamento de formação do SC Braga

 

Universidade do Futebol – Como é a sua relação de estruturação de trabalho com o treinador? Você participa diretamente da preparação da equipe para os jogos oficiais?

Nelson Caldeira – Como deixei transparecer na resposta à questão anterior, não só trabalho eu na preparação da equipe para a competição, como todos os outros membros da comissão técnica. O treinador define o rumo, e a partir daí todos colaboram na estruturação do “plano de jogo” e nas propostas para as tarefas de treino (exercícios), que depois de revistos e harmonizados pelo Jardim serão levados à prática.

Universidade do Futebol – A inserção de aparatos tecnológicos para auxílio da comissão técnica já é vista de forma consolidada pelos principais clubes europeus? Se sim, a relação entre custo e benefício é válida?

Nelson Caldeira – Claro que existe o recurso a alguma tecnologia, sobretudo ao nível da análise do jogo e ao processo de controle fisiológico do treino, isto para além de todos os recursos disponíveis ao nível do departamento médico do clube. Contudo, pela complexidade do processo de construção do rendimento desportivo numa realidade como a que temos no futebol de alta competição, nem sempre é linear o contributo de cada recurso tecnológico. Isso porque normalmente a tecnologia centra-se sobre “um fator” apenas, permitindo uma análise “microscópica” desse mesmo fator, mas não elucidando muitas vezes o contributo desse aspecto para a globalidade do potencial de rendimento.

Assim, acredito que nada substitui o olhar transversal do fenômeno futebolístico, ainda mais quando devido ao custo de muitos dos equipamentos não se justifica pormenorizar a análise de um determinado fator.

Dou como exemplo as avaliações de um aspecto fisiológico como os níveis de lactato, algo muito interessante no que respeita ao “pormenor” dos contributos dos diferentes sistemas energéticos num dado ponto do esforço, mas com muito pouca relevância para o entendimento das capacidades globais de prestação, mesmo no âmbito mais reduzido das capacidades condicionais. Para mais, o seu carácter “invasivo” afasta-o ainda mais da necessidade que julgo premente em manter a realidade “ecológica” do treino, relativamente ao contexto do jogo, da competição.

Por outro lado, a implementação de um sistema de seguimento do esforço em treino, por exemplo, através da frequência cardíaca (utilizamos o Team System2, da Polar), permite-nos, sem qualquer invasão e respeitando a globalidade do processo de treino, seguir a dinâmica do esforço individual e coletivo. Este equipamento tem ainda mais relevância quando a “densidade” competitiva é tão elevada, com jogos na quinta-feira referentes às competições europeias, e aqueles realizados no fim de semana para a Liga Portuguesa, pois permite-nos seguir alguns parâmetros que elucidam o grau de recuperação dos jogadores. Num plano idêntico, mas com valências técnicas distintas, insere-se o controle do treino por GPS, com acelerômetros.

Contudo, tal como deixei transparecer anteriormente, face à leitura global que realizamos constantemente ao efetuado em competição e pela necessidade de preparar minuciosamente a “próxima competição”, o principal investimento tecnológico está centrado na “análise do jogo”, no tratamento das imagens em vídeo, o que fazemos com recurso aos sistemas Amisco e Sports Code.


 

Universidade do Futebol – Qual o diferencial da formação acadêmica de Portugal em relação à pedagogia adaptada às práticas esportivas?

Nelson Caldeira – Esta é uma pergunta interessante, mas que acarreta uma elevada complexidade na sua resposta. Isto porque a formação acadêmica em Portugal (tal como noutros países da Europa) não está totalmente articulada com o sistema desportivo.

Existe, em primeiro lugar, uma enorme diversidade de “cursos” ao nível das “Ciências do Desporto”, traduzindo uma elevada variabilidade nas competências dos formandos. Por outro lado, no caso do futebol em particular, essa formação acadêmica não se traduz em qualquer reconhecimento ao nível da carreira de treinador, já que esta encontra-se estruturada segundo as diretrizes da Uefa e do seu modelo de formação (com os diversos níveis, incluindo o “Advanced” e o “Pro”).

Neste momento, existe ainda uma “névoa” acrescida pelas necessidades inerentes a um novo processo do próprio “Instituto do Desporto de Portugal”, no que respeita à emissão da “Carteira de Treinador”.

Assim, neste enquadramento “legal”, algo difuso da carreira de “Treinador de Futebol”, o papel das universidades não tem sido, em minha opinião, tão marcante quanto poderia. Contudo, considero fundamental dizer que a “formação acadêmica” tem tido em Portugal um duplo papel inquestionável.

Em primeiro lugar a “formação inicial” de possíveis “treinadores” para um mercado de trabalho aberto, onde todos têm a possibilidade de concorrer, mas onde em longo prazo só os mais aptos (com maior entendimento do futebol e do treino desportivo) têm mais probabilidades de obter sucesso.

Em segundo lugar, a “investigação” dos fatores de rendimento, num entendimento do fenômeno na sua globalidade, salvaguardando a complexidade da modalidade.

Para Caldeira, existe ainda uma “névoa” acrescida pelas necessidades inerentes a um novo processo na emissão da “Carteira de Treinador” em Portugal

 

Universidade do Futebol – Portugal possui uma cultura própria de futebol, e em especial, de formação de treinadores?

Nelson Caldeira – Pelos contatos que vou mantendo regularmente com colegas oriundos de outros países, julgo claramente que sim. Só assim se explica que Portugal, um pequeno país com cerca de 10 milhões de habitantes, ocupe um dos primeiros lugares do ranking da Fifa e que os seus clubes, com orçamentos muito reduzidos face a outros grandes clubes europeus, sejam crônicos candidatos às fases mais adiantadas das competições de clubes (Liga dos Campeões e Liga Europa). Isto permitiu que hoje Portugal ocupe o 5º lugar do Ranking da Uefa para o posicionamento dos seus clubes nas competições do continente.

E isto é tão mais importante quando juntamos a constatação de que todos os clubes profissionais de Portugal têm atualmente treinadores portugueses ao seu serviço. Para mais, são às dezenas os treinadores portugueses que hoje dão mostras da sua competência no estrangeiro.

E o que marca esta reconhecida competência?

Acho, em primeiro lugar, que temos uma tradição muito ligada à concepção de que o “Futebol de Rua” pode ter um papel preponderante na formação dos jogadores. Muitos dos jogadores de topo têm origem neste “jogo da bola”, “livre e espontâneo”. E por consequência a grande maioria dos nossos treinadores também guarda na sua essência essas raízes.

Assim, tal como a cultura futebolística portuguesa, os nossos treinadores são “altamente adaptáveis”, flexíveis, e ao mesmo tempo profundamente conhecedores do jogo e dos fatores chave para alcançar o sucesso.

Depois, existiram nos últimos 20 a 30 anos alguns aspectos os quais reputo verdadeiramente decisivos para a atual projeção do futebol português e dos seus treinadores.

Refiro-me, por exemplo, à demonstração da qualidade dos nossos jogadores jovens, expressa nos Mundiais sub-20 (em 1989 e 1991), que culminou também o primeiro avanço da estruturação do programa de formação de treinadores, liderado pelo prof. Carlos Queiroz e iniciado em 1984. Esse primeiro processo estruturado de formação trouxe as bases para algo que faltava ao caráter espontâneo do “futebol de rua”: a sistematização dos exercícios de treino e, fundamentalmente, a organização tática.

Este processo teve continuidade com a “mudança de paradigma” ao nível dos processos de treino anteriormente vigentes e que não tivemos medo de assumir. Quer ao nível dos cursos de treinadores da Federação Portuguesa de Futebol, com o prof. Jorge Castelo e a sua taxonomia de exercícios que trouxe uma nova terminologia diferenciadora a todos os formandos, quer ao nível da formação universitária em “Ciências do Desporto”, nomeadamente com o desenvolvimento das bases da “Periodização Tática”, na Faculdade do Porto, pelos professores Vítor Frade, Júlio Garganta e seus colegas.

É por isso que, em minha opinião, hoje os treinadores portugueses dominam tanto o lado aleatório e caótico do jogo ao manterem uma profunda “intuição”, preservando o caráter mais genuíno do jogo, com os fundamentos tácticos para o trabalho de “organização coletiva” no terreno.

Confira a primeira parte da entrevista inédita e exclusiva concedida por Júlio Garganta à Universidade do Futebol

 

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o trabalho de José Mourinho? O que ele representa em termos simbólicos para o país?

Nelson Caldeira – Além de ser hoje um símbolo de Portugal (tal como, no futebol, o são também Eusébio, Figo ou Cristiano Ronaldo), o efeito que José Mourinho teve sobre a imagem dos treinadores portugueses é verdadeiramente fantástico.

Em primeiro lugar, porque ele conseguiu êxitos internacionais que catapultam o nome do nosso país para uma escala global, que nunca antes tínhamos atingido. Depois, porque ele personificou a mensagem de “é possível”, mesmo nascendo num país periférico da Europa, e sem ter uma carreira brilhante como praticante, atingir os maiores sucessos. Desde que se conheça o jogo, e como moldar as nossas equipes para enfrentarem a competição com maiores probabilidades de êxito.

É claro que já existiam grandes treinadores portugueses antes de Mourinho. Começando por José Maria Pedroto, com quem o FC Porto iniciou a sua ascensão internacional, passando por Artur Jorge, que foi campeão europeu, em 1987, também pelo FC Porto, e chegando a outros nomes como Carlos Queiroz, Nelo Vingada, Manuel José, entre outros. Mas a partir de Mourinho, os jovens treinadores portugueses preparam-se para uma dimensão europeia e não apenas para a escala nacional.

É por isso que hoje vemos, por exemplo, a ascensão do André Vilas-Boas (Chelsea), do Carlos Carvalhal (Besiktas), do Domingos Paciência (Sporting), ou do Leonardo Jardim (Braga), não como “clones” do José Mourinho, mas como treinadores que partilham a tal raiz comum em termos conceituais de que falava há pouco.

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Universidade do Futebol – O Mourinho defende um modelo de treino integrado, em que não há separação entre o que é físico, técnico, tático e psicológico. O que você pensa a respeito disso? Tal filosofia de trabalho já era aplicada no futebol português por outros treinadores?

Nelson Caldeira – No primeiro processo estruturado de formação de treinadores em Portugal a que me referi, o prof. Carlos Queiroz incluiu uma disciplina que se denominava “Integração de Fatores”. Isto em 1984, numa altura em que José Mourinho era aluno na atual Faculdade de Motricidade Humana, tendo como professores Jesualdo Ferreira, Carlos Queiroz e Nelo Vingada.

Pessoalmente, considero que a nossa preocupação em “não dividir” analiticamente o processo de treino tem origem neste movimento que compreendia a necessidade de entender o fenômeno na sua “globalidade”.

Assim, enquanto outros países dividiam e especializavam cada vez mais os seus treinadores, em Portugal foram sendo formados “especialistas da generalidade”, também inspirados por pensadores das Ciências do Desporto, como Manuel Sérgio (em Lisboa) ou Júlio Garganta, Vítor Frade e João Paulo Cunha e Silva (no Porto), entre outros. Estes foram demonstrando que não fazia sentido o “micro” sem o “macro”, que não fazia sentido particularizar o treino de qualquer capacidade, desde que a mesma não fosse ligada à globalidade do jogo e à complexidade do mesmo.
 

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Universidade do Futebol – Como você definiria o que é a Periodização Tática, e quais os benefícios de usá-la como metodologia de treino?

Nelson Caldeira – Pelo contato que mantive com a Universidade do Porto, na altura do mestrado, e por contato com treinadores que aplicam na prática este “conceito global”, posso transmitir a minha opinião pessoal sobre o mesmo. Contudo, a minha leitura sobre o conceito não transmitirá toda a sua riqueza, o que pode ser conseguido através de uma conversa com o professor Vítor Frade, que poderemos considerar como o seu “mentor”.

Na minha ótica, devo começar por referir que o conceito base da “periodização tática”, nasceu por “oposição” às lógicas de periodização “convencional” que existiam (e existem) na metodologia geral do treino desportivo e que se aplicavam (e ainda se aplicam) de forma “cega”, em muitas equipes e contextos, ao treino do futebol.

Repare que o termo “periodização” sempre pretendeu destacar a necessidade de se dividir um determinado espaço temporal (por exemplo, a temporada desportiva) em “períodos”, com diferentes objetivos de treino, de forma a alcançar patamares de rendimento superiores aos que se conseguiriam se o treino fosse abordado sempre da mesma forma.

Na medida em que Matveiv, Platonov, Verkhoshank, Bondarchuk e Tudor Bompa, entre outros, teorizaram sobre a necessidade de “periodizar”, muitos treinadores e “preparadores físicos” importaram esta lógica para o futebol, apesar de ser um “jogo desportivo coletivo” que, na sua essência, está muito distante das modalidades individuais que serviram de base à estruturação das “leis” da “periodização convencional”.

E, portanto, é neste ponto que nasce a “periodização tática”, dizendo que se algo haveríamos de “periodizar”, ou seja, dividir em períodos temporais, não seriam, por exemplo, as curvas gerais de volume e intensidade, mas sim a aquisição de um jogar.

Assim, se desde o meu ponto de vista tivesse que destacar um conceito que melhor explicasse o ponto fundamental da “periodização tática”, escolheria o de “especificidade”, ou seja, a necessidade de treinar de forma “específica”, respeitando as lógicas do jogo na sua globalidade e, ainda mais “especificamente”, o “jogar” que pretende o seu treinador.

Ora, os defensores da “periodização tática” acreditam que todas as adaptações que os jogadores necessitam, de um ponto de vista individual e coletivo, advêm de um treino específico, subordinados ao fator que se considera mais importante, ou seja, o tático. Assim, os conteúdos de todos os outros aspectos (por exemplo, físicos) não devem ter uma lógica de “alternância vertical” (por exemplo, um bloco de algumas semanas destinado a uma capacidade e logo depois a outra), mas sim uma “alternância horizontal”.

Este princípio da “alternância horizontal” pretende transmitir a ideia de que em todos os microciclos (semanas), se deve trabalhar a potência, a velocidade e a resistência. Sendo que as características desses tipos de contração muscular devem estar em coerência com os aspectos táticos que o treinador pretende implementar, ao nível do seu modelo de jogo.

Quanto aos benefícios desta abordagem, devo dizer que, como em tudo na vida, podemos ter algumas vantagens, mas também teremos algumas desvantagens, o que depende enormemente da interpretação que cada treinador faz dos próprios conceitos da “periodização tática” e dos ajustamentos que realiza ao próprio cenário que encontra em cada clube, a cada momento.

É por isso, que, pessoalmente, defendo uma abordagem algo distinta da “periodização tática”.

 

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De fato, comparo frequentemente o trabalho de “modelagem” de uma equipe e a sua preparação para a competição desportiva, com a própria evolução das espécies, pela necessidade de adaptação que está presente em ambos os processos. É por isso que mais do que dividir em “períodos” o tempo disponível para treinar (seja no horizonte temporal de uma semana, ou de um mesociclo), o que considero fundamental no trabalho dos treinadores é a “sequenciação” e “manipulação” das aprendizagens que pretende promover.

E este aspecto tanto mais importante se torna quando o processo de aprendizagem não é linear. Ele evolui de forma relativamente caótica, aproximando-se de um “atrator”, seja ele um “modelo biomecânico” do gesto técnico, ou um qualquer princípio do “modelo de jogo” do treinador.

Considero assim que, mesmo na alta competição, estamos sempre procurando promover um conjunto de adaptações que torne a nossa equipe mais apta a enfrentar com sucesso o próximo adversário, não só daquilo que é previsível que ele realize (capaz de ser suportado por uma eficaz organização), mas mais do que isso que prepare a nossa equipe para se auto-organizar eficazmente num momento altamente “estressante” como o da competição.

É por isso que, pessoalmente, acabo por divergir um pouco dos fundamentos da “periodização tática” e prefiro inspirar-me na abordagem “ecológica” ao treino desportivo. Devo dizer, neste particular, que muito influenciado pelo prof. João Mateus, e que apresentou em 2004 no congresso mundial “Ciência e Futebol” os fundamentos para esta abordagem, creio que faz todo o sentido procurar as adaptações necessárias através de um processo que decidi chamar de “sequenciação e manipulação ecológica do treino do futebol”.

Não sendo aqui o espaço para aprofundar o tema, concluo que a “periodização tática” constitui um claro avanço face às abordagens “convencionais”, mas que temos de ser ainda mais audazes!

É por isso que proponho a “sequenciação e manipulação ecológica”, cujo conceito estou a procurar expor num livro que está em fase final de preparação e que conflui a minha reflexão sobre a experiência prática, mas também com o suporte teórico que advém da “Análise Ecológica das Tarefas”, de Walter Davis, e na percepção – ação, de Gibson.

Isto porque temos de procurar uma aproximação ao processo de treino que respeite não só a necessidade dos jogadores se “adaptarem” às ideias do treinador na formatação de um jogar, mas também na resolução dos problemas que ultrapas

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