Universidade do Futebol

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05/07/2018

Neymar, o (anti) herói e o choro de um atleta

Lembro-me que uma das primeiras referências que tive acesso em meus estudos sobre psicologia do esporte foi o livro intitulado “O atleta e o mito de herói”. Ressalto, no entanto, que, apesar da nítida influência deste e de outros estudos em minhas considerações, e da importância de compreendermos o que baliza a associação de um atleta à imagem de herói e como esse imaginário é construído em nossa sociedade, minha ideia neste texto será, a partir das análises realizadas em minha tese de doutorado (O futebol profissional e o processo de formação de grupo), posicionar-me frente à conduta daquele que é tido frequentemente como o principal jogador da seleção brasileira de futebol e, sobretudo, diante dos comentários acerca dos comportamentos, esportivos ou não, desse atleta.

Ao menos na última década, não me recordo de outro atleta da seleção brasileira de futebol ao qual a sociedade brasileira atribuiu, em curto espaço de tempo, os papéis de herói e anti-herói. Tal episódio se torna mais corriqueiro ao nos apropriarmos da cotidianidade dos clubes profissionais, mas, de fato, em nível de seleção brasileira, foi o Neymar que assumiu, ou ao menos lhe atribuímos, o papel de herói e anti-herói tantas vezes.

Herói, porque é um jogador de capacidade técnica indiscutível e qualidade futebolística que o gabarita a “decidir partidas” e conquistar campeonatos. Com Neymar, a seleção brasileira é frequentemente tida como mais forte. Mais difícil de ser batida. Trata-se de um dos principais jogadores do mundo, posicionado entre os melhores e detentor da marca dos maiores contratos e salários da história do futebol mundial. Anti-herói pelos seus atos moralmente e eticamente questionáveis, seja em campo ou fora dele, por sua malandragem, mas também pelo seu carisma.

Atualmente, a maior crítica que nosso camisa 10 recebe refere-se ao fato de, aparentemente, querer enganar a arbitragem simulando/encenando faltas e contusões em demasia ou dando a elas dimensão desproporcional. Aficionados pelo futebol e comentaristas esportistas do mundo todo tem destinado a ele duras críticas atribuídas a esse comportamento, questionando, além da sua capacidade técnica, física, tática e psicológica, sua índole e seu caráter.

Em certos momentos o chamam de genial, brilhante, craque, “menino do bem”; em outros, de metido, prepotente, mimado, egoísta, fingido e cai-cai. Não irei me deter nem aos elogios, muito menos às críticas. Cabe a ele, Neymar, fazer a autocrítica, corrigir seus erros (que todos nós, de uma forma ou de outra, em um grau ou outro, temos). Mas justamente por tudo o que representa, no futebol e na sociedade como um todo, é fundamental que procure ajuda para lidar com essas questões. Já o vi, em entrevistas, negligenciar a importância e o papel da psicologia e do psicólogo esportivo, mas se posso sugerir-lhe algo, é que seu amadurecimento e conhecimentos adquiridos, ou aqueles que o assessoram, o façam mudar de ideia.

Após a vitória da seleção brasileira sobre a costariquenha, com gol de Neymar, o jogador cai no choro. Normal? Sim, se não fosse o Neymar. Se tratando dele, o episódio ganha repercussão mundial ao passo de concorrer com os gols e com a partida em si, finalizada com a vitória brasileira. Se tratando dele, a indiscutível agressão sofrida, toma menor importância em relação à sua reação. Mas por quê com Neymar a repercussão é diferente? O que está por trás daquele choro?

A resposta à primeira pergunta está justamente na ambiguidade entre os dois papéis atribuídos a ele: o de herói e anti-herói. Já a resposta à segunda pergunta é mais complexa e somente ele poderia nos dizer aquilo o que, consciente ou inconscientemente, o fez chorar. Uns disseram: “é fingimento”, outros “é alegria”. Uns disseram “é alívio”, outros “está encenando”. Uns disseram “nosso líder nos levou a mais uma vitória”, outros “é muito frágil e desequilibrado para ser líder”. Uns disseram “é desonesto”, outros “só está se protegendo”. Uns disseram “é marketing”, outros “ é sincero”. Diante da repercussão, o atleta se utilizou das redes sociais e justificou: “Nem todos sabem o que passei para chegar até aqui […] o choro é de alegria, de superação, de garra e vontade de vencer”.

Para mim, ainda que não desconsidere sua mensagem como resposta às críticas pelo choro, a resposta a essa pergunta pode ser melhor compreendida por uma palavra que não atua no campo das aparências: PRESSÃO. É sobre ela, a pressão que os jogadores profissionais de futebol enfrentam, sobretudo aqueles que possuem maior destaque e geram mais expectativas, que me deterei.

Neymar, como qualquer outro atleta é, antes de ser um jogador, um ser humano. E por mais que no futebol, os jogadores sejam o tempo todo tratados, equivocadamente no meu entendimento, como máquinas, peças, coisas, produtos, são, de fato, pessoas, como qualquer um de nós, com necessidades, sentimentos, medos, angústias, ansiedade etc. Mas, por outro lado, há sim diferenças. Desconheço, dentre todas as profissões atuais de destaque, uma na qual o trabalhador está, em tanta frequência e tamanha intensidade, lidando com a pressão que os jogadores profissionais de futebol passam. Nem mesmo os altos salários e a fama que uma pequena parcela deles possuem, os isentam destes sentimentos e, muito menos, os fortalecem e os preparam para lidar com eles.

Tal pressão por vitórias, conquistas, boas performances e resultados (esportivos e financeiros), é intensa (apesar de variar conforme o clube, o momento, e o atleta em questão), recebida diariamente e vem de todos os agentes que dele, futebol, fazem parte: diretoria, comissão técnica, empresários, torcida, mídia e familiares. Não nos esqueçamos da pressão que cada um de nós jogamos ainda em nós mesmos, não é? A fim de exemplificar, gostaria de explicitar dois pequenos trechos das 11 horas de entrevistas realizadas no decorrer de minha pesquisa que, apesar de não dar conta da dimensão que estou tentando apresentar, retratam um pouco o que passa pela cabeça do atleta:

Eu acho que a cobrança é interna primeiramente. Muito pesada pelos resultados, pelos objetivos do clube. Se o time não está conseguindo os resultados, sem dúvida nenhuma, a diretoria vai cobrar o jogador, a comissão técnica também no dia a dia vai cobrar demais e depois tem essa carga psicológica externa que é de imprensa e torcida que você sente mais no jogo, a impaciência da torcida, principalmente no jogo.

Pressão do resultado. Pressão de torcida, pressão de imprensa, pressão de empresário, pressão da família. Pressão para vencer, vencer toda hora. Essa é a pressão…Vem de todos os lados. Você tem que vencer. O cara tem que vencer, tem que jogar bem toda hora.

 

Façamos então uma reflexão: Se os atletas profissionais de futebol têm de lidar constantemente com essa pressão, imaginemos então aquela sofrida pelo Neymar, nosso (anti)herói, atleta brasileiro de maior salário no futebol mundial, aquele em que mais se deposita expectativas, de maior destaque midiático, aquele para quem mais atribuímos responsabilidades em nossa seleção de futebol… Aquele, também, que ainda criança já era objeto (sim, objeto!) de cobiça de patrocinadores, empresários e clubes; que há anos vem tendo sua vida (profissional e social) espetacularizada pela mídia, como uma eficaz criação midiática; aquele que desde muito cedo era a esperança de ascensão social de toda uma família; aquele que ainda criança deveria assumir o papel de ser, no futuro próximo, nosso ídolo esportivo; aquele que ainda adolescente já lidava com cifras jamais imaginadas por qualquer um de seu círculo social; Imaginem…

Sim, é nesse contexto e sem que nos esqueçamos, no cenário do futebol enquanto instituição conservadora, machista, excludente, de privação e intenso controle que o homem que não pode chorar, chorou! E, na minha opinião, não havia nada melhor que pudesse fazer naquele momento, do que chorar. No meio do campo, no vestiário, na frente das câmeras, longe delas, não importa! Afinal, para mim, e para concluir, aquele choro representa uma descarga, um alívio, uma resposta emocional à toda pressão que esse jovem brilhante (sim, afinal poucos já conquistaram profissionalmente o que ele já conquistou e poucos assumem, ainda que com falhas, tamanhas responsabilidades desde muito jovem), vem sofrendo. Uma reação que todos aqueles que cotidianamente possuem sua subjetividade negada/negligenciada, tem total direito, e necessidade, de assumir.

 

*É Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP)

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