Universidade do Futebol

Entrevistas

23/12/2011

Norton Cassol, preparador físico da LDA (Costa Rica)

Eram seis anos sem títulos nacionais. Em campo e nas dependências de um dos maiores clubes da Costa Rica, o sentimento de desconfiança e derrotismo. Mas quando a direção da Liga Deportiva Alajuelense (LDA) decidiu apostar em uma comissão técnica capitaneada por um treinador brasileiro, a retomada ocorreu.

Marco Octávio Cerqueira, que estava trabalhando no país e acumulava passagem em seu país natal pela Internacional de Limeira, foi contratado pela “La Liga”. No clube interiorano paulista, ele havia atuado ao lado de Norton Cassol, preparador físico formado academicamente no Paraná. E fez o convite ao compatriota.

“Comecei a trabalhar a cabeça de todos, não só atletas, mas todas as pessoas envolvidas com a instituição. Argumentei que eles tinham que mudar a energia e a atitude própria, e ter uma postura ganhadora e de vencedores. E se tivéssemos que lutar e morrer no campo para conseguir uma vitória, iríamos fazer”, revelou Cassol, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Ciente da relevância de aspectos próprios da psicologia do esporte aplicados ao treinamento, o profissional natural de São João do Ouro, no Rio Grande do Sul, e que abandonou a carreira como atleta de base e de futsal para se dedicar aos estudos da Educação Física, deu seus primeiros passos no país caribenho com um trabalho de mentalização.

“Também reafirmei que ninguém é e deve ser mais importante que o grupo, porque nossa fortaleza está na equipe e não em pessoas. E neste ponto, sem falsa modéstia, sei que tive um papel muito importante”, comentou.

Amável com os demais profissionais da LDA, Cassol não enfrentou problemas de ordem cultural. Além de Marco Octávio, ele trabalhou com outros dois treinadores antes de iniciar a parceria com Óscar Ramírez. Neste ano, o time principal levantou o terceiro troféu seguido do Campeonato Costarriquenho.

“O clube tem uma torcida impressionante e o estádio está sempre cheio. Falta um centro de treinamento, mas isso é algo em que estou convencendo os diretores a investir”, salientou Cassol, que está diretamente relacionado ao projeto conduzido de modo integrado e positivo.

Com alguns argentinos e brasileiros no grupo de jogadores, além de muitos jovens locais, frutos da base formada no próprio clube, a expectativa é valorizar cada vez mais as categorias de base e melhorar a estrutura física do departamento de futebol, com a construção de um centro de treinamento moderno.
 


 

Universidade do Futebol – Norton, em primeiro lugar, fale um pouco sobre sua formação acadêmica, bem como seu ingresso e a trajetória no futebol profissional.

Norton Cassol – Joguei futsal até os 18 anos, e um pouco de futebol de campo em categorias de base. Por opção, resolvi seguir meus estudos, entrei na faculdade e já não conseguia encaixar os horários de treinamento e vida acadêmica – optei pelo segundo e segui meu sonho que era ser preparador físico e não jogador.

Depois de seis meses de faculdade já estava trabalhando na categoria juvenil do Coritiba. E isso foi muito importante para meu aprendizado acadêmico, porque juntava a parte teórica com a prática.

Trabalhar nas categorias menores dá uma excelente base para desenvolver a metodologia de um preparador físico. E, lógico, fiz muitos cursos de aperfeiçoamento durante minha vida.

Minha graduação em Educação Física é na PUC-PR, e a pós em Treinamento Desportivo é na Universidade Federal do Paraná. Além disso, participei de muitos cursos de aperfeiçoamento, mas o principal aprendizado foi a prática: no futebol é muito importante o dia-a-dia.

Formado no Brasil, Norton Cassol recebeu um convite para atuar com antigo companheiro e deu início a uma série de três títulos nacionais conquistados

 

Universidade do Futebol – Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Costa Rica? Já era algo planejado, ou apareceu realmente como outra possibilidade qualquer?

Norton Cassol – Antes de ir para a Costa Rica, eu estava trabalhando no Metropolitano, de Blumenau-SC. E já estava esperando uma possibilidade para sair do Brasil.

No caso da Costa Rica, a Liga Deportiva Alajuelense tinha o meu nome como um dos candidatos ao posto. Como contrataram um treinador brasileiro, Marco Octávio, que estava trabalhando no país, e eu já tinha atuado com ele na Internacional de Limeira, fui chamado para retomar a parceria.

Universidade do Futebol – A sua adaptação ao idioma local aconteceu com facilidade?

Norton Cassol – Minha adaptação foi fácil, principalmente porque era algo que eu queria. Quanto ao idioma, muita gente pensa que o espanhol é parecido com o português, mas não é bem assim. As palavras e os verbos têm significados diferentes e a pronúncia, também.

Mas fui muito bem recebido e todos tiveram paciência no início. Hoje falo perfeitamente, e tem que ser assim, porque sempre estou em rádios, TV e conferências de imprensa, e seria deselegante não falar bem o idioma local.

Bem recebido, Cassol procurou se integrar à cultura local, superando barreiras idiomáticas

 

Universidade do Futebol – Como você foi bem recebido, pelo que se pôde entender, a adaptação foi facilitada. Mas na maioria dos casos, isso não ocorre. Qual a sua sugestão para os profissionais que pretendem ir trabalhar no exterior?

Norton Cassol – Fui bem recebido, porque fiz questão de aprender a cultura e me adaptar ao local.

Vejo que é importante a quem chega tentar seguir a cultura local e procurar conhecer as pessoas e os companheiros de trabalho, sem nunca comparar determinadas características de uma com a outra. E ser amável com todos.

Universidade do Futebol – Como você classificaria a estrutura de trabalho (centro de treinamento, departamentos médico e de fisiologia, integração com profissionais ligados às Ciências do Esporte, etc.) na Liga Deportiva Alajuelense? Pode-se dizer que o clube é uma das grandes forças nacionais e um emergente em termos continentais?

Norton Cassol – Para se ter uma ideia do último informe da Fifa, a LDA está em primeiro entre os clubes da América Central. O clube tem uma torcida impressionante e o estádio está sempre cheio. Falta um centro de treinamento, mas isso é algo em que estou convencendo os diretores a investir.

Sempre digo que é a única maneira de profissionalizar e “fabricar” nossa própria matéria prima, que são os jogadores formados em casa.

Temos uma excelente equipe de trabalho, e gostamos de trabalhar de forma integrada e multidisciplinar, o que facilita o cotidiano de trabalho e promove mais facilidade para seguir o planejamento e a metodologia de treinamento.


 

Universidade do Futebol – Sem o CT, qual é a estrutura de trabalho atual?

Norton Cassol – Como temos um estádio com grama sintética, e mais duas “canchas” pequenas atrás deste local, treinamos exatamente no espaço anexo onde jogamos. Mas quando quero sair para outro campo, apenas faço uma solicitação.

Consegui fazer uma sala de musculação de excelente nível com máquinas apropriadas para o trabalho, ótimos vestiários e departamento médico, material de treinamento, etc. Temos tudo o que é necessário e sempre somos atendidos quando falta algo. Há ainda um ótimo hotel para concentração.

A comissão técnica é composta por um diretor técnico, um preparador físico, dois assistentes técnicos, um assistente de preparação física, um treinador de goleiros, um médico, um fisioterapeuta, dois massagistas, três roupeiros, dois assistentes de campo, mais todo o pessoal de apoio.

Meu papel também é o de ajudar a melhorar a estrutura do clube, e na comissão técnica sou o único estrangeiro.
 


 

Universidade do Futebol – Vários profissionais brasileiros vão para o exterior, não têm sucesso e retornam para o país natal. Como foi a receptividade e como você fez para contornar a resistência até que as pessoas conhecessem o seu trabalho?

Norton Cassol – Eu quero voltar ao Brasil, mas não por não ter tido sucesso, e sim com a cabeça levantada por ter conquistado muitos êxitos aqui.

Acabamos de nos sagrar tricampeões nacionais, disputamos a Copa Concacaf, que seria como a Libertadores da América para os sul-americanos, e fomos muito bem.

Já tive algumas propostas para regressar e também para trabalhar em outros países, mas penso que ainda não é o momento. Desde o primeiro dia que cheguei aqui sempre fui muito bem tratado e tive meu trabalho respeitado. Não sofri nenhum tipo de resistência – ao contrário, muito carinho, admiração e respeito.

Tenho uma página oficial no Facebook, inclusive, onde mantenho uma interação direta com os torcedores da LDA.

Universidade do Futebol – Nos seus cursos de graduação e pós-graduação no Brasil, você conseguiu as ferramentas necessárias para a parte prática das suas funções, ou precisou adequar-se a algumas situações e aprender outras na Costa Rica?

Norton Cassol – Sempre se aprende na faculdade, principalmente a parte teórica de fisiologia, anatomia, ciência do esporte, mas as grandes ferramentas estão na parte prática, no dia a dia, na percepção do que está ao seu redor e na experiência – no meu caso – acumulada em 20 anos como preparador físico.

Eu tenho uma metodologia de trabalho e aplico na LDA e vejo que funciona bem. Todos gostam e respondem às orientações de acordo com que está planejado e organizado. Sei que vim somar neste país, e sinto que estou ajudando a mudar a maneira de jogar.

Falo isso porque temos um futebol mais dinâmico e de muita movimentação, e quando junto com esse trabalho de apoio, conquistam-se campeonatos, todos começam a querer saber quais os motivos para tantos resultados positivos e de uma maneira geral tudo vai se transformando e melhorando.

Também aprendo aqui que a vida é uma eterna troca de conhecimentos e aprendizado. Só assim evoluímos e crescemos como pessoa e como profissional.

“A vida é uma eterna troca de conhecimentos e aprendizado. Só assim evoluímos e crescemos como pessoa e como profissional”, filosofa

 

Universidade do Futebol – Há muitas diferenças em relação à cultura na preparação desportiva dos jogadores de futebol na Costa Rica? E em relação às avaliações físicas, como isso é trabalhado?

Norton Cassol – Como expliquei na pergunta anterior, tenho uma metodologia de treinamento e avaliação física e aqui no clube aplicamos bem e todos se adaptaram, mas é lógico que há diferenças em relação à cultura esportiva. O importante é ter uma boa visão do seu entorno e encontrar o meio certo para unir todas as partes.

Universidade do Futebol – De que maneira você definiria sua metodologia de treinamento e como se dá a integração com os outros profissionais da comissão técnica principal?

Norton Cassol – Uma metodologia muito bem planejada e com metas bem claras e estabelecidas, aliada ao trabalho forte, profissionalismo e à vontade de vencer.

Creio que todos são importantes e têm seu valor e suas responsabilidades. Para ter êxitos em sua profissão é necessário união, trabalho, competência e bom relacionamento entre os profissionais que trabalham juntos. Formamos mais que uma equipe de trabalho, uma grande família.

Nossos treinos estão integrados à realidade do jogo, trabalhamos sempre com bola, dou muita ênfase aos fundamentos básicos do futebol, e temos no mínimo oito sessões de treino por semana.

Aplico muito espaço reduzido, velocidade de reação, força estática e parte tática. O esquema mais usado por nosso time é o 4-4-2, variando para o 4-1-4-1.

 

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Universidade do Futebol – Tem profissionais da Costa Rica na comissão técnica? Como se dá a integração e a troca de experiências com eles?

Norton Cassol – Eu sou o único que é estrangeiro dentre todos. Nosso responsável pela área médica é cubano, mas já está nacionalizado e vive no país há mais de 15 anos.

Universidade do Futebol – E a sua relação de estruturação de trabalho com o treinador Óscar Ramírez?

Norton Cassol – É excelente e formamos uma boa dupla. Óscar é o terceiro treinador que trabalho por aqui. Com todos sempre tive boa relação profissional e de amizade, com muito respeito.

Monto o macrociclo e os microciclos, apresento para o Óscar, ele dá suas ideias, e assim vamos conduzindo o processo.

Trabalhamos muito jogos de campo reduzido e de posse de bola, especialmente com o objetivo de dar dinâmica e agilidade aos atletas. Usamos bola em todos os treinamentos. Ela é nossa principal ferramenta de trabalho, e por isso deve estar presente em todos os momentos.

Treinos comandados por Cassol estão integrados à realidade do jogo, com presença obrigatória de bola e ênfase aos fundamentos básicos do futebol

 

Universidade do Futebol – Nesse período, com a troca de treinadores, a filosofia de trabalho foi mantida ou alterada? Fale um pouco a respeito.

Norton Cassol – Os treinadores saíram por fatores internos do clube. Mantivemos a filosofia e a metodologia porque eu permaneci e tive o apoio da diretoria para conduzir a mesma base de trabalho. Entendo que, por isso, chegamos ao tricampeonato da Costa Rica.

Universidade do Futebol – Como você lida com a presença de jogadores de diversas nacionalidades dentro da sua equipe? A forma de enxergar o futebol é diferente?

Norton Cassol – Gosto dessa diversidade, e isso ajuda a ampliar a maneira das pessoas verem o futebol, porque cada um tem seu conceito.

Hoje temos argentinos e brasileiros no grupo de jogadores, além de muitos jovens locais com uma base formada no próprio clube. Como estou aqui há três anos, já deu para criar uma safra boa e a tendência é ter a base de jogadores desenvolvida em casa.

Sempre há diferenças, mas a regra número um aqui é o respeito e que ninguém é mais importante que o grupo.

Universidade do Futebol – Qual é a ideia que os costarriquenhos têm sobre os brasileiros como profissionais (jogadores e demais profissionais ligados ao futebol)?

Norton Cassol – Quando cheguei aqui não tinham muitos brasileiros no país. Eles, de modo geral, pensam que somos muitos alegres e do Carnaval (risos). Mas quando vão conhecendo como cada um se comporta e trabalha, passam a ter uma imagem mais profissional.

Não sei ao certo quantos, mas são poucos os brasileiros que atuam no futebol profissional da Costa Rica.

Universidade do Futebol – Ao longo desta temporada, a Liga Deportiva teve alguns problemas recorrentes de lesões em seus atletas do departamento de futebol. Como ocorre a integração com a equipe médica no trabalho de recuperação de um atleta até a volta aos treinamentos?

Norton Cassol – A LDA teve alguns problemas com lesão, mas todas recorrentes de traumas ou golpes. Para se ter uma ideia, em três anos que estou aqui, quase não tivemos lesões musculares, porque usamos uma metodologia de prevenção junto com o departamento médico e fisioterápico.

Em minha opinião, é muito melhor prevenir com uma boa ciência de treinamento a ter um departamento médico cheio de lesionados.

Nossa integração é muito boa. Temos reuniões periódicas para definir o planejamento estratégico ou que tipos de ajustes serão feitos. Usamos nesse processo os exercícios de prevenção do 11+, que é um protocolo de força estática da Fifa, o qual privilegia muito alongamento e flexibilidade, além da crioterapia.
 


 

Universidade do Futebol – O que seria esse protocolo?

Norton Cassol – São 11 exercícios específicos que englobam força estática, pliometria e equilíbrio, movimentos básicos, mas que vejo como muito importantes.
 

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Universidade do Futebol – Qual a fronteira entre a participação do preparador físico no amparo psicológico aos atletas, e o trabalho propriamente dito de um profissional específico da área?

Norton Cassol – Vou falar por mim: eu gosto desta área e uso muito. Sei da importância do lado mental para um atleta e tenho muitos exemplos ao longo de minha carreira.

Às vezes, por falta de um especialista neste tema, acaba o preparador físico atribuindo ao seu trabalho esta função. Apenas treinar muito não garante sucesso: tem que se acreditar e confiar no que está fazendo para conquistar as metas.

Universidade do Futebol – Como você estabelece essa relação de confiança com os atletas? O clube pensa em ter um psicólogo no médio prazo?

Norton Cassol – O clube tem uma psicóloga nas categorias de base, que faz um atendimento pessoal, quando algum atleta tem algum problema, mas eu vejo a psicologia do esporte muito mais que isso.

É algo de relacionamento, de confiança, de conhecer cada atleta acerca dos seus pontos fortes e fracos, etc.

Tenho uma excelente relação com os atletas e faço muitas dinâmicas de grupo. Quando cheguei, percebi que o clube estava com a auto estima muita baixa, porque fazia mais de seis anos que não chegava em uma final.

Comecei a trabalhar a cabeça de todos, não só atletas, mas todas as pessoas envolvidas com a instituição. Argumentei que eles tinham que mudar a energia e a atitude própria, e ter uma postura ganhadora e de vencedores. E se tivéssemos que lutar e morrer no campo para conseguir uma vitória, iríamos fazer.

Também reafirmei que ninguém é e deve ser mais importante que o grupo, porque nossa fortaleza está na equipe e não em pessoas. E neste ponto, sem falsa modéstia, sei que tive um papel muito importante.

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