Universidade do Futebol

Geraldo Campestrini

28/10/2015

Novamente, as cotas de TV – Parte 02

Eu retomo o assunto das cotas de TV, após a proposta de aplicar as métricas utilizadas no Campeonato Inglês, Francês e Italiano para aquilo que poderia ser adotado no Campeonato Brasileiro, com a respectiva distribuição mais igualitária destes recursos.

Nesta coluna, proponho um desenho híbrido de alguns critérios de distribuição das cotas de TV para o futebol brasileiro. É natural que os clubes de maior expressão ganhem mais! Mas, quanto mais estreita for esta diferença, mais atrativo será o campeonato pela busca e alcance de equilíbrio competitivo mais consistente entre todos os participantes.

Assim, tentei chegar em uma base de cálculo para aquilo que poderia ser a distribuição dos valores recebidos pelos direitos de transmissão para o Campeonato Brasileiro da Série A de 2016. A intenção era alcançar um valor em que a razão entre o clube que mais recebe sobre o que menos recebe fosse o mais próximo de dois possível (ou seja, o dobro) e que o desvio padrão rondasse a casa dos R$ 15 milhões.

O melhor modelo para atender a essa métrica foi:

– Divisão de 50% do montante total dos direitos de transmissão igual para todos os clubes participantes.
Referência: Campeonato Francês (49%) e Inglês (50%).

– Divisão de 20% do montante total dos direitos de transmissão sobre o critério “performance nas últimas quatro temporadas”, incluindo a performance ajustada dos clubes que participaram da Série B neste período, tendo pesos diferentes (40% sobre a temporada anterior, 30%, 20% e 10% sobre as temporadas subsequentes).
Referência: A Bundesliga adota este critério como único fator para a distribuição das verbas oriundas dos direitos de transmissão.

– Divisão de 15% do montante total dos direitos de transmissão sobre o critério de ranking de clubes da CBF, que é atualizado anualmente e leva em conta a performance dos clubes nos últimos cinco anos.
Referência: Campeonato Italiano (15%) e Campeonato Francês (5%).

– Divisão de 10% do montante total dos direitos de transmissão sobre o critério “torcedores e ingressos”, em que se levou em conta a quantidade de sócio torcedor de cada clube (de acordo com o Movimento por um Futebol Melhor) e os ingressos vendidos na temporada anterior.
Referência: Campeonato Italiano, que leva em conta pesquisas sobre torcidas pelo país.

– Divisão em 5% do montante total dos direitos de transmissão sobre o critério “cidade”, que leva em conta o tamanho de cada cidade em termos populacionais. O critério foi ajustado conforme o número de clubes em cada cidade.
Referência: Campeonato Italiano.

O critério de divisão do montante total dos direitos de transmissão ficaria como o expresso no gráfico abaixo:

Adotando-se este critério, teríamos a seguinte distribuição do montante total dos direitos de transmissão aos clubes que disputariam o Campeonato Brasileiro da Série A de 2016:

* Todos os valores da tabela estão expressos em R$.
** Levou-se em consideração os clubes que estariam na Série A do Campeonato Brasileiro de 2016 a partir da classificação das Séries A e B de 2015 registrada em 19 de outubro de 2015.

Por este critério, a razão entre o maior valor e o menor valor ficou em 2,2 pontos, o que é um ótimo indicador. O desvio padrão seria de R$ 15,1 milhões, muito abaixo a adoção de critérios de outros países, conforme cálculo da semana passada, em que se registrou o menor desvio padrão em R$ 19 milhões, de acordo com o critério adotado pelo Campeonato Francês.

Uma medida como esta para a distribuição dos recursos oriundos dos direitos de transmissão não só equilibra as finanças e eleva o potencial de disputa de uma competição, como também oferece indicadores que são dependentes da performance da gestão dos clubes, como, por exemplo, é o caso das relações com torcedores e com a venda de ingressos, o que deverá impactar também o resultado global de faturamento dos clubes com melhores práticas neste sentido.

Para finalizar, não podemos nos esquecer de algo importantíssimo: o debate sobre esse tema, talvez, já comece antigo (ou antiquado)! Especialmente em um momento em que a NFL fez transmissão de um jogo exclusivamente via Streaming pelo Yahoo Sports e obteve média de audiência superior às alcançadas em alguns dos seus principais horários na TV; e o Barcelona anuncia jogos a serem transmitidos pelo YouTube. Ou seja, vamos debater a nossa realidade presente mas já pensando naquilo que se é possível construir daqui a poucos anos…

 

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