Universidade do Futebol

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03/03/2018

O ambiente criativo de ensino no futebol: o treinador libertador

O treinador deve libertar os jogadores e libertar-se dos estereótipos de outros treinadores

Continuando a série de textos sobre criatividade, será mostrada uma abordagem sobre o ambiente de ensino, começando pelo papel do treinador/professor. Para conseguir um ambiente criativo, o treinador deve seguir uma conduta moral, a de educar para libertar. Logo, pergunte-se: “Estou educando para libertar meus jogadores daquilo que eles são agora e transforma-los um pouco mais naquilo que eles querem ser?”. Leiam bem: “aquilo que eles querem ser”!

Imagino que os treinadores tenham ideias do que querem para seus jogadores. Os que possuem um olhar sensível para o ser humano, provavelmente tem. Entretanto, através do ensino, leva-los constantemente ao que eles precisam ser é uma maneira equivocada de contribuir para a formação deles. Sendo assim, devemos, analogamente, entender que somos, ou devemos construir, andaimes para permitir que os alunos subam sozinhos, encontrem formas de solucionar os problemas nesse processo (escolhas de caminhos e formas de agir).

Não entenda esta pergunta (ou provocação) de início como algo filosófico, distante e intangível. Essa é a própria pedagogia brasileira de ser. Ou uma parte dela, ajustada às ideias de Paulo Freire, de cocriação, ou seja, criar em conjunto o próprio ambiente de aprendizagem. Paulo Freire escreveu: “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. Na tua maneira dialética de pensar o ensino, pondera que: “é preciso ser livre para ser natural”. Desse modo, quando estamos em um estado natural, somos mais criadores, damos mais oportunidades de aflorar nossos pensamentos mais criativos.

Para Paulo Freire, ao final de cada ciclo de aprendizagem, o conhecimento adquirido é a fusão de algo novo, quando as pessoas apropriam-se da teoria descritiva, analítica e discursiva, para analogamente gerar interpretações. No futebol, pensemos na criatividade como soluções, decisões frente as percepções do contexto e a interpretação que o corpo oferece para o momento. E sem a liberdade, ainda haveria jogo de futebol, mas não haveria tantas formas de comunicação e de extrapolar nas habilidades de jogo as ideias criativas. O jogo até poderia ser mais eficaz, mas menos belo. Porque criatividade tem a ver, muitas vezes, com não buscar a solução mais eficaz, tem a ver com o risco, com a interpretação e julgamento de uma experiência e tem a ver com responder de forma intencional, com beleza, correndo o risco de não ser eficaz. Por essa razão que a criatividade está relacionada à arte. E dessa relação (criatividade x arte), Scott Adams escreveu: “criatividade é permitir a si mesmo cometer erros. Arte é saber quais erros manter”.

Contudo, em um ambiente criativo de ensino, a liberdade não serve somente para ser proporcionada aos jogadores. O treinador deve também sentir-se livre para criar seu estilo de ser professor. O treinador desenvolve também sua criatividade, foge dos estereótipos de falas, gestos, jeitos e desenvolve sua marca, seus canais de comunicação e diferentes formas de passar informação. É feliz o treinador que, durante o caminho da experiência profissional, consegue perceber o surgimento em si de uma forma de educar própria. É sufocante o caminho profissional dos treinadores que se apegam as biografias de outros treinadores, perpetuam seu jeitos e trejeitos com base na imagem destas pessoas já renomadas. Não é esse o sentido da vocação, a busca é vazia, não existe perspectiva, só existe foco em um modelo já pronto. Portanto, assim como o ambiente de ensino criativo não se caracteriza por estereótipos, o professor não deve incorporar estereótipo nenhum, a não ser o seu.

Por fim, o treinador libertador é uma característica de um profissional que pretende educar seus jogadores para a liberdade e estimular neles a criatividade. Alguns treinadores já estão nesse patamar, outros ainda no processo, precisando de uma revolução da mente, à caminho de um pleno despertar, buscando a liberdade perante todos os aprisionamentos culturais e psicológicos. Então encerro com a seguinte pergunta: “Treinador, você está educando-se para libertar-se daquilo que você é agora e transformar-se naquilo que você quer ser (ao natural)?

Comentários

  1. ROBERTO GUTIERREZ disse:

    Excelente publicação Bruno ! A criatividade expande o panorama do gestor , e a capacidade de raciocínio do atleta ! Parabéns !

  2. Thaís disse:

    Ótima texto!!! Parabéns!

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