Universidade do Futebol

Ceaf

13/07/2009

O ato motor e as estruturas motrizes – diferenças significativas na aprendizagem do futebol

Um grande desafio para quem trabalha com o processo de ensino-aprendizagem (treinamento) do futebol é organizar um processo pedagógico que garanta a aprendizagem (treinamento) de nossos alunos (atletas).

Uma maneira de simplificar o ensino é se basear em premissas mais tradicionais de ensino (como o tecnicismo), por essa visão de ensino facilitar em muito ao professor enxergar o ‘de onde começar’ e o ‘para onde deve ir’ em seu processo tradicional de ensino.

O ensino tradicional, porém, de tanto simplificar, acaba por esquecer que futebol é antes de tudo um jogo, e, por isso, a simplificação das etapas de ensino (treinamento) acabam descontextualizando a ação de jogar de seu contexto (o jogo).

Ou seja, apesar de o tecnicismo facilitar que o professor crie uma linha aparentemente coerente de ensino, ao analisarmos os frutos advindos desse processo, verificam-se lacunas muito grandes no que diz respeito à capacidade do aluno em resolver os problemas inerentes ao jogo.

Logo, como superar essa forma de ensino (treinamento) dando ao profissional certeza de que ele conseguirá garantir a aprendizagem de seus alunos (atletas)?  Para isso, destaca-se uma ferramenta importantíssima nesse processo: o jogo.

Jogos, sim! Pois jogando, mantemos intacto algo primordial: a unidade complexa do jogo.

Ao repartir o jogo em pedaços, fragmenta-se essa unidade complexa, de forma que se aprende a passar, depois a driblar, depois a finalizar, depois a marcar e assim por diante. Sempre um depois do outro, sem se preocupar com a unidade complexa que forma o jogo de futebol.

Nesse processo, onde está a intenção em agir? Onde está a necessidade de o aluno (atleta) realizar cada um desses atos?

Ao jogar, porém, garante-se que todos os elementos inerentes ao jogo de futebol sejam manifestados de maneira sistêmica, dentro de sua unidade complexa – o jogo.

Passar será uma necessidade, e não uma tarefa. Driblar será uma forma de resolver um problema no jogo, e não um mero ‘ato de um repertório motor’ adquirido pelo aluno (atleta) de maneira fragmentada.

Aqui, entramos numa discussão muito importante para entender como o jogo torna capaz a aprendizagem de nossos alunos (atletas).

Enquanto o modelo de ensino tecnicista prima pelo ensino da técnica como um ‘ato motor’, jogando criamos ‘estruturas motrizes’.

‘Ato motor’ e ‘estrutura motriz’: parecem a mesma coisa, mas não são!


A estrutura motriz e a motricidade humana

O ato motor é algo impregnado de uma realidade que há algum tempo a educação física critica e busca deixar para trás. O ato motor nos remete ao pensamento dicotômico ‘corpo/mente’ ou seja, ‘ato motor/intenção em agir’. É como se agir fosse algo desconectado de um contexto, de uma intenção. Como se restasse ao professor de educação física educar um corpo, despreocupado das intenções desse ser que age.

Ao pensarmos única e exclusivamente em ensinar os ‘vários tipos de passe’ estamos, sem dúvida, ampliando o repertório motor de nosso aluno/atleta. Porém, por ensinarmos de forma fragmentada do seu contexto (de sua unidade complexa), esse gesto limita-se em si mesmo. O aluno passar por passar, não há ali significado, não há ali pressões e dificuldades emergenciais. Ensina-se o corpo a fazer um gesto, mas esse gesto não possui uma finalidade advinda de uma intenção do aluno.

Quando trazemos um jogo, cujas regras enfatizem a manutenção da posse da bola através da realização de passes, enfrentando uma equipe que busca recuperar essa posse de bola, por exemplo, estamos criando demandas cognitivas, intencionais e significativas, que devem ser resolvidas no cerne do jogo.

Em jogos como esse, passar é uma ação intencional e não mais um ato, simplesmente. Ao agir, o aluno faz com que um ato motor (habilidade) seja significado, integrado ao ser que joga como algo possível de ser realizado dentro de um contexto de pressões e de problemas. Temos aí o desenvolvimento das ‘estruturas motrizes’, superando a visão dicotômica de que a educação física deve exclusivamente ‘educar o corpo’ e não o ser que age.

A diferença entre ‘ato motor’ e ‘estrutura motriz’ está exatamente nessa reflexão, e pode ser mais bem compreendida através dos conceitos norteadores da ciência da motricidade humana, um constructo de Manuel Sérgio.

Segundo o próprio filósofo português, a motricidade humana estuda o ser humano em movimento intencional, procurando superar e superar-se. Logo, a motricidade (oriunda do radical ‘motriz’) garante o olhar aos fenômenos humanos visando compreendê-los como dotados de intenção, significado e visando a superação.

Ao pensar um ensino significativo ao nosso aluno (atleta), temos que possibilitar o desenvolvimento de ‘estruturas motrizes’ que formarão um grande repertório de ações para resolver os derivados e irredutíveis problemas do jogo a ser jogado (em nosso caso, o futebol); algo impossível se pensarmos o ensino tecnicista, mas possível ao pensarmos em criar jogos que estimulem a criatividade de nossos alunos/atletas para resolverem os problemas do jogo, sempre orientados por intervenções do professor num processo de “descoberta guiada”, como bem conceitua José Mourinho, quando ele procura falar sobre uma abordagem interacionista de ensino.

Esperamos ter esclarecido o porquê de o jogo revelar-se como algo a ser enfatizado em um processo de ensino, através da diferenciação dos conceitos ‘ato motor’ – enraizado no paradigma dicotômico ‘corpo/mente’, comum da visão de ensino tecnicista – e ‘estrutura motriz’ -, cujas origens podem ser observadas na ciência da motricidade humana, do professor e filósofo Manuel Sérgio, a qual busca entender a ação humana como algo dotado de intenção, finalidades e visando suprir necessidades, capaz de ser atingida quando um gesto é realizado dentro de seu contexto, dentro de unidades complexas, como os jogos o são.

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