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Receber bem dá trabalho. Qualquer pessoa que já organizou um evento, independentemente do porte, sabe disso. Um churrasco, uma festa de criança ou um grande show têm preocupações similares. Entreter e causar boa impressão estão entre elas. E o futebol, infelizmente, ainda não assimilou isso.

Porque a proporção das coisas pode ser absurdamente diferente, mas o cuidado com quem vai a um jantar na sua casa não é diferente da preocupação que um clube deve ter com cada torcedor presente em um jogo. Nos dois casos, é fundamental incutir nas pessoas o sentimento de que viveram bons momentos. A ideia é gerar lembranças positivas.

Aí você pode interromper o texto e vociferar: "Ora, mas esse é um conceito básico". Sim, é claro que é. Dizer que um bom evento deve gerar experiência de vida e que o futebol brasileiro peca nesse aspecto é dizer platitudes. Qualquer um que tenha ido a um estádio pode enumerar os problemas que constroem um ambiente de desconforto e descaso – o que, aliás, já começa no ato da compra, muito antes da entrada no local.

"Então, se é tão básico, por que se preocupar com isso?", você pode perguntar em sequência. Porque a ideia de que o organizador do espetáculo precisa se preocupar com o público pode até ser básica, mas é comporta por uma série de iniciativas que muitas vezes são desprezadas ou relegadas ao último lugar na ordem das preocupações.

Sim, a comunicação faz parte desse conjunto de ações. Sim, pensar em comunicação é fundamental para um país que pretende inaugurar 14 novos estádios nos próximos anos, entre criações e reformas, com um custo superior a R$ 7 bilhões.

A primeira dessas novas arenas foi entregue no último sábado. Grêmio e Hamburgo reeditaram a decisão do Mundial de clubes de 1983, conquistado pela equipe gaúcha, e fizeram um amistoso para abrir oficialmente o novo estádio dos brasileiros. E o evento mostrou o quanto é necessário pensar em mais do que tijolos para proporcionar evolução consistente e criar experiências palatáveis.

Em campo, o Grêmio venceu por 2 a 1. André Lima marcou o primeiro gol do novo estádio. No entanto, o resultado e o que aconteceu dentro das quatro linhas são apenas coadjuvantes nessa história. O evento marcou o início de uma nova etapa no futebol brasileiro.

Construída em um novo tempo, a arena do Grêmio tem uma estrutura comercial condizente com a realidade atual. Os equipamentos internos são radicalmente diferentes da maioria dos estádios brasileiros, erguidos a partir de outros propósitos.

Hoje em dia, ao contrário da época que gerou a grande maioria das arenas brasileiras, a razão de ser de um estádio não pode ser apenas sediar bons jogos de futebol. Um estádio precisa criar experiências.

Na inauguração do novo estádio do Grêmio, o gramado gerou muitas reclamações. A mídia alemã criticou duramente o estado do campo, e o time gaúcho até emitiu uma nota oficial na última segunda-feira para se defender.

Mas esse não foi o principal problema. Houve confusão entre torcedores e a Polícia Militar (PM). E jogadores do Hamburgo reclamaram que não havia água para o banho no vestiário dos visitantes. Essa informação não foi confirmada, mas os alemães deixaram o local ainda de uniforme.

Por tudo isso, a mídia alemã (sim, novamente ela) chegou a chamar o amistoso de "jogo do caos". Ora, e a experiência positiva? E as boas lembranças?

Alemães não levaram boas lembranças do novo estádio, certamente. E a experiência dos torcedores que entraram em confronto com a PM também foi decisivamente conspurcada.

"E o que podia ter sido diferente em todo esse planejamento?", você pergunta. Para começar: como bem lembrou o mestre Erich Beting em texto sobre corintianos no aeroporto de Guarulhos, nossa sociedade carrega uma série de ranços de períodos em que a liberdade foi cerceada. Também tem arraigado um comportamento colonialista, infelizmente, mas isso é assunto para uma análise bem mais aprofundada. O que nos cabe aqui é constatar que a nossa polícia, mais opressora do que protetora, não serve para fazer a segurança interna de estádios de futebol (o texto do chefe está aqui, ó: http://tinyurl.com/a58s8yy).

E que fique bem claro: ninguém está dizendo que a culpa das confusões que acontecem dentro dos estádios é exclusivamente da polícia. O ponto é mais simples e prático: para um evento bem feito, é imprescindível que a segurança tenha treinamento específico e que seja parte de um organograma.

Pesquisas mostram, por exemplo, que seguranças são os funcionários que as pessoas mais procuram para pedir informações em lojas e shoppings. Se é assim, é fundamental que eles sejam treinados para responder sobre localização, serviços e outras coisas do gênero.

Não estive na inauguração do estádio do Grêmio, mas o que li e ouvi sobre o evento teve muitos elogios ao aparato. A análise aqui é geral e serve para todas as novas arenas: funcionários têm papel decisivo no conceito que os consumidores formam sobre qualquer provedor de serviços.

A preparação das pessoas que trabalham em qualquer empreendimento é um trabalho de comunicação. Empresas mais desenvolvidas têm equipes que se preocupam apenas com isso. O futebol pode demorar a perceber, mas necessita de uma estrutura assim.

Afinal, seguranças menos virulentos e funcionários mais preparados para dar informações são apenas dois aspectos. Também é importante padronizar o jeito de falar, mostrar os meios mais eficientes de vender e ensinar como lidar com o público. Se as redes de restaurantes fast food conseguem, por que um estádio não pode?

Outro aspecto é o tratamento dado aos convidados. Esse é mais um elemento que tem relação direta com o ranço que eu citei anteriormente: historicamente, visitantes, sejam eles jogadores, dirigentes ou torcedores, são tratados como inimigos no esporte brasileiro. Não são raras as histórias de times que saíram sob proteção ou que não conseguiram se concentrar adequadamente porque foram incomodados na concentração. Também são recorrentes os casos de adeptos trancados em estádios, no escuro, depois do término de um jogo.

Arenas mais modernas são a síntese de uma transformação no tratamento destinado ao público, que deixa de ser torcedor e se transforma em consumidor. E o visitante pode preferir outro clube, mas gastar como os adeptos locais.

Então, mais uma vez entra a comunicação: ninguém está falando em sepultar rivalidades, mas é
fundamental que os clubes eduquem. Tratar bem o público, na acepção mais ampla, é requisito para uma arena de sucesso.

De longe, parece que esse tratamento não foi destinado ao Hamburgo. E nem digo isso pela reclamação de que faltou água, mas por não ter sentido nos alemães um encantamento de visitas que são bem acolhidas em qualquer casa.

Por fim, para não me alongar demais, volto a uma ideia recorrente por aqui: TUDO comunica. Isso quer dizer que a comunicação precisa se ocupar do que acontece em campo, sim. E não apenas do jeito tradicional.

A Premier League fez uma pesquisa sobre o que as pessoas gostariam de ver em termos de entretenimento no campo. Constatou que o público desejava um jogo mais corrido e com menos bolas altas. A saída para isso foi forçar a aproximação entre os atletas, e os times foram obrigados a construir campos mais longos e estreitos.

Organizar um evento esportivo não é diferente de receber alguém em casa. É importante arrumar o ambiente, criar uma recepção acolhedora, oferecer serviços e pensar em atrações. É fundamental criar experiências.

Nesse aspecto, o esporte norte-americano sempre foi professor. Não é por acaso que o modelo do circuito de artes marciais mistas UFC funciona tão bem. Não é por acaso que o Brasil tem tentado versões locais disso, com shows e até apresentações de comediantes.

Outras modalidades, como basquete e vôlei, também investem constantemente na criação de eventos. E o futebol brasileiro, infelizmente, ainda não tem bons anfitriões.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofutebol.com.br

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