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27/09/2012

O Brasil na Copa: retrospectiva histórica – parte 1

Não é novidade para os amantes e estudiosos do futebol que a Copa do Mundo é um evento único que dura aproximadamente apenas 30 dias, mas rende críticas, elogios e polêmicas por toda a vida. Polêmicas estas que abrangem principalmente o aspecto tático, principalmente no Brasil, nação que vive a monocultura esportiva do futebol e conta com mais de 170 milhões de pessoas que assumem como papel secundário na vida profissional ser técnico, ou ao menos um estagiário na área.

O objetivo do presente artigo é fazer uma breve revisão e relembrar o histórico da seleção canarinho ao longo das 18 copas do mundo pelas quais passamos, fornecendo, deste modo, um embasamento teórico e histórico mais completo para os profissionais de Educação Física, técnicos de futebol, leitores da Universidade do Futebol ou como já dito, os 170 milhões de estagiários na área.

Tudo começa em 1930 quando o ex-zagueiro Píndaro de Carvalho Rodrigues, médico de formação, foi convidado pela então Confederação Brasileira de Desportos para dirigir a seleção brasileira na Copa do Mundo, que seria realizada no Uruguai. Convite feito e aceito, o técnico da seleção deparou com a sua primeira dificuldade quando soube do desentendimento entre a CBD e a Associação Paulista de Esportes Athléticos, desentendimento este que o proibira de convocar grandes craques do futebol paulista como Arthur Friedenreich, Heitor Domingues e Luís Matoso, mais conhecido como Feitiço. Com isto, a seleção brasileira passou a ser uma seleção exclusivamente carioca.

Na estreia o Brasil enfrentou logo de cara a Iugoslávia, que entrou no jogo com força total no mais puro e singular significado da palavra, sendo que em meia hora os gringos já levavam o jogo por 2 a 0, que instantes depois passaria a ser 2 a 1, com gol marcado por João Coelho Neto, ou Preguinho para os mais íntimos. No jogo seguinte o Brasil goleou a Bolívia por 4 a 0, porém a vitória foi inútil, cabendo à seleção a amarga volta ao lar sem a taça na mala.

Quatro anos depois a sede seria a Itália, sendo que desta vez Luis Vinhaes era o treinador, de caráter essencialmente disciplinador. Assim como em 1930, Vinhaes não teria a seu dispor todos os craques brasileiros, já que o Brasil havia adotado o profissionalismo no futebol, a exemplo de outros países, o que levou à criação da Federação Brasileira de Futebol, de oposição política à CBD, que permanecera sob regime amador, porém como representante oficial do Brasil junto à Federação Internacional de Futebol Association. Com isto, o “sargentão” não poderia utilizar nenhum atleta registrado na FBF, apenas jogadores registrados na CBD, que contava apenas com a filiação do Botafogo do Rio de Janeiro dentre os grandes clubes do futebol brasileiro.

Na tentativa patriótica de ajudar a nação a conquistar seu primeiro título mundial, Carlos Martins da Rocha, dirigente alvinegro, passou a contratar grandes jogadores que estavam filiados à FBF, dentre eles Leônidas da Silva e Waldemar de Brito para que, desta forma, os mesmos tivessem inscrição na CBD, e consequentemente na Fifa e assim então pudessem ser convocados. Não bastasse a dificuldade na convocação ser igual à 1930, o início da trajetória também foi, e em meia hora do seu primeiro jogo a Espanha vencia por 2 a 0. Depois de centralizar o jogo em Leônidas da Silva, o Brasil marcou seu primeiro e único gol do jogo, inútil, já que os espanhóis marcaram mais um e o jogo terminou em 3 a 1 para os gringos.

Assim como em 1930, o Brasil foi eliminado e desta vez com a ajuda do árbitro alemão Alfred Birlem, que anulou um gol legítimo do Luisinho e ignorou uma penalidade máxima do zagueiro Quincoces, que confundiu sua posição com a do goleiro e meteu a mão da bola após chute de Patesko. Se o prezado leitor compreendeu as dificuldades do técnico e resolveu perdoá-lo, a CBD não teve a mesma compreensão e solicitou que o técnico Vinhaes se dirigisse ao Departamento de Recursos Humanos para assinar a papelada da rescisão contratual.

Passados oito anos desde a primeira Copa do Mundo, era a hora de o povo brasileiro soltar o grito de campeão em terras francesas, e o escolhido para liderar a conquista foi Ademar Pimenta, o primeiro que não pôde se queixar da convocação nem do apoio recebido pela CBD. Tudo correu bem na primeira fase, sendo que o primeiro drama vivido pela seleção foi na semifinal contra a Itália, em Marselha, já que o médico e chefe da delegação desaconselhou Pimenta a utilizar Leônidas da Silva, o Diamante Negro, que alegava uma distensão muscular na coxa esquerda. Ouvindo o conselho médico, o treinador brasileiro escalou Niginho para a vaga de Leônidas, mas a documentação do substituto estava irregular junto à Fifa, já que o mesmo jogara com dupla cidadania na Lazio, de Roma, e com receio de servir o Exército do líder do Partido Nacional Fascista, Benito Mussolini, retornou ao Brasil, irritando os dirigentes italianos que o denunciaram à Fifa, que proibiu então seu aproveitamento. A história termina com derrota de 2 a 1 para a Itália e a vitória de 4 a 2 sobre a Suécia, que garantiu o terceiro lugar à seleção canarinho.

Apesar da derrota da seleção, Leônidas deixou seu marco, sendo artilheiro do torneio com oito gols, resta apenas a dúvida se o técnico preferiu poupar o Diamante Negro para a grande final ou se Leônidas fora pressionada pelos amigos de Benito Mussolini a não participar do jogo.

Se nas edições passadas do evento mundial o Brasil foi o visitante, em 1950 a nação teve a oportunidade de sediar dezesseis seleções nacionais (sete européias, sete americanas e duas asiáticas). Ninguém melhor para dirigir a seleção do que Flávio Costa, um dos melhores técnicos da história do futebol brasileiro e mundial, autor da célebre afirmação:

“Somos um país em que cada pessoa se crê uma autoridade em futebol. A primeira condição para ser treinador, por aqui, é pensar com a própria cabeça e não com a cabeça das milhões de autoridades que estão espalhadas por ai”
.

Foi Flávio Costa o estudioso do sistema “WM”, elaborado por Herbert Chapman e nos apresentado por Dori Krueschner, que implantou o sistema no Flamengo em 1937. Tão era sabido do “WM” que o técnico da seleção nacional chegou a implantá-lo de uma forma adaptada “diagonal” na estréia contra o México, quando o Brasil venceu por 2 a 0.

A exemplo de Luiz Felipe Scolari nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002, em Porto Alegre, que resolveu colocar apenas jogadores da casa para jogar, obtendo assim apoio integral da torcida, Flávio Costa no segundo jogo da seleção substituiu para o início do jogo Ely, Danilo e Bigode a fim de aproveitar Bauer, Ruy e Noronha, trio do glorioso São Paulo Futebol Clube. O jogo terminou empatado por 2 a 2, o que gerou uma série de críticas que levaram o treinador brasileiro a substituir o sistema “WM” em diagonal pelo “WM” clássico, vencendo a Iugoslávia por 2 a 0, a Suécia por 6 a 1, e a Espanha por 7 a 1, deixando a falsa impressão de que a seleção brasileira já estava com o inédito título conquistado.

Apesar das vitórias e goleadas terem soltado o grito de mais de 100 milhões de brasileiros, as mesmas mostraram erroneamente ao coach brasileiro que não havia necessidade de reforçar a marcação, o que poderia ser feito recuando um dos centro-médios para auxiliar na cobertura junto ao solitário zagueiro de área, recurso este que havia sido utilizado pelo uruguaio Ondino Vieira no Botafogo de 1947, ou mesmo utilizando a chamada marcação por zona, em que ao invés de marcar homem a homem, os jogadores deveriam marcar em suas respectivas zonas em que o campo era hipoteticamente dividido, prática consagrada por Zezé Moreira no Botafogo de 1948. Alterações não realizadas, defesa aberta e o Brasil perde o jogo por 2 a 1, com o infeliz gol (apenas para os brasileira e simpatizantes da “amarelinha”) sendo marcado pelo uruguaio Ghiggia.

Depois de amargar por quatro anos o gosto da derrota em casa, chega a Copa do Mundo da Suíça, em 1954. O sistema de disputa daquele mundial preconizava que cada time de uma chave de quatro seleções jogassem duas vezes dentro de seu respectivo grupo. Contavam-se os pontos ganhos e os dois primeiros garantiam vaga para a próxima fase. Os resultados foram: Brasil 5 x 0 México, Iugoslávia 1 x 0 França, França 3 x 2 México e Brasil 1 x 1 Iugoslávia, se classificando, portanto, Brasil e Iugoslávia.

O ex-técnico do Botafogo, grande defensor da marcação por zona e então treinador da seleção, Zezé Moreira, cortou Zizinho da escalação principal que viajaria para a Europa, com a alegação de que o mesmo já havia atingido uma idade avançada, o que prejudicara o seu desempenho, alegação esta que tinha o objetivo único de camuflar o corte feito pela CBD ao atleta, já que o mesmo havia exigido “bichos” mais altos durante o Campeonato Sul-Americano realizado em 1953, em Lima.

A seleção húngara, que permaneceu invicta entre 14/05/1950 e 04/07/1954, encabeçada e liderada pelo técnico Gusztáv Sebes e pelo craque Ferenc Puskás, atuando no sistema “WM” à la 4-2-4, foi a seleção emblemática daquele ano que eliminou a seleção canarinho por 4 a 2, perdendo somente a final contra a Alemanha Ocidental por 3 a 2.

Em 1958 foi a vez do cordial e companheiro Vicente Feola tentar alcançar o sonho dos torcedores brasileiros e conquistar o título mundial do Futebol. O treinador, que insistira na convocação de Edson Arantes do Nascimento, que havia se contundido em um amistoso contra o Sport Club Corinthians Paulista cerca de vinte dias antes da estréia do Brasil contra a Áustria, empregou na seleção o sistema 4-3-3 com Mário Jorge Lobo Zagallo exercendo a função de terceiro homem de meio de campo.

Pode-se dizer que a Copa de 58 foi um marco para a história do futebol brasileiro. O empresário paulista Paulo Machado de Carvalho, proprietário da TV Record, entregou ao então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, o recém-chegado Sr. João Havelange, um projeto liderado por ele e elaborado pelos jornalistas paulistas Ary Silva (Rádio Bandeirantes), Flávio Iazetti (criador da Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol) e Paulo Planet Buarque (TV Record). O referido documento que preconizava o fim do “absolutismo” do treinador, onde todas as funções ficavam centralizadas somente no treinador, e sugeriram a criação de uma verdadeira comissão técnica interdisciplinar, não apenas um ground committee, onde a comissão era composta por políticos que defendiam interesses próprios.

Atendendo ao pedido de Carvalho, a CBD contratou o supervisor Carlos Nascimento, o médico Hilton Gosling, o preparador físico Paulo Amaral e o psicólogo João Carvalhaes. Juntos, Feola e sua comissão decidiram logo de início que todos os jogadores convocados deveriam atuar no nosso país, sendo que, deste modo, os atacantes Julinho (Fiorentina) e Evaristo de Macedo (Barcelona) ficaram fora, já que não atuavam mais em suas equipes de origem, Portuguesa de Desportos e Flamengo, respectivamente. O corte fez com que o treinador convocasse nada mais nada menos do que Pelé e Garrincha.

O jogo contra a extinta URSS decidiria a vaga para as quartas de final, sendo que a seleção canarinho foi escalada com Zito, Garrincha e Pelé, que entraram no lugar de Dino Sani, Joel e Mazzola, recomendações estas dadas pelo capitão Bellini (capitão) e seu companheiro Nilton Santos. O Brasil venceu o jogo por 2 a 0 e se classificou para as quartas-de-final, quando bateu o País de Gales por 1 a 0, a França e a Suécia por 5 a 2 nas semifinais e finais, respectivamente. Ninguém ganha ou perde uma Copa do Mundo isoladamente, nem dentro nem fora de campo, mas fato é que Vicente Feola, Pelé, Garrincha, Zito e Paulo Machado de Carvalho foram figuras fundamentais para que o brasileiro desentalasse o grito que estava guardado desde 1950.

Continuaremos no segundo artigo abordando as Copas de 1962, 1966, 1970, 1974, 1978 e 1982.

PS – Agradeço ao sábio e profundo conhecedor do futebol nacional e mundial, Roberto Assaf, enciclopédia viva do esporte número 1 do país, pelos ensinamentos a mim atribuídos.

Referências Bibliográficas:

ASSAF, R. Banho de Bola: os técnicos, as táticas e as estratégias que fizeram história no Futebol. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
 

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