Universidade do Futebol

Guilherme Costa

28/09/2015

O cabelo de Neymar

Sexta-feira, 25 de setembro: a Procuradoria da Fazenda Nacional conseguiu na Justiça o bloqueio de R$ 188,8 milhões de Neymar, da família dele e de empresas ligadas ao atacante. Sábado, 26 de setembro: o Barcelona, que vinha de uma derrota por 3 a 0 para o Celta, jogou contra o Las Palmas no Campeonato Espanhol. Lionel Messi saiu machucado logo aos 3min do primeiro tempo, e Luis Suárez foi decisivo na vitória por 2 a 1. Neymar não teve uma finalização perigosa sequer, perdeu um pênalti e chamou mais atenção pelo novo estilo de cabelo (raspado, sem os fios alisados que marcaram quase toda a trajetória dele no futebol profissional).

A história de Neymar nos dois dias citados é um bom exemplo do quanto os componentes não podem ser isolados. Temos uma tendência a compartimentar e enxergar atributos como se fossem universos no futebol – discutimos tática, físico, psicológico e comunicação como se fossem coisas que se sustentassem sozinhas, sem influência no todo. Esquecemos muitas vezes que o esporte, como a vida, é feito sempre de ligações complexas e interdependentes.

Neymar pode ter tido outras tantas razões para cortar o cabelo, mas é nítida a tentativa de desviar um pouco o foco. O atacante sempre chamou atenção pelo visual, e raspar a cabeça antes de um jogo era uma forma de criar uma agenda positiva, desviando um foco que poderia ser totalmente direcionado aos problemas judiciais decorrentes da transferência do Santos para o Barcelona em 2013.

A estratégia usada por Neymar repete o que foi feito pelo brasileiro Ronaldo na Copa do Mundo de 2002. Antes da semifinal contra a Turquia, o camisa 9 tinha uma lesão e alguma chance de sequer entrar em campo. Para que isso não fosse assunto, raspou o cabelo de uma forma inusitada, criando um visual eternizado como “cascão”. Ninguém mais falou sobre o problema físico.

As pessoas podem até ter falado mais do cabelo do que dos problemas judiciais, mas Neymar não estava totalmente concentrado. O desempenho irregular do atacante do Barcelona na partida contra o Las Palmas é reflexo direto de algo que provém do fora do campo. É impossível dissociar a cabeça e o corpo de um atleta.

No altíssimo rendimento, qualquer fator tem enorme peso. Um filho doente, uma dívida não paga, uma dor de dente ou um futuro incerto podem influenciar diretamente no desempenho de um atleta de qualquer modalidade. A situação é mais clara em esportes com valências únicas – os segundos que determinam destinos no atletismo ou na natação, por exemplo –, mas interfere em qualquer realidade.

Entender essa relação sistêmica de causa é fundamental para evitar injustiças. Jogadores de futebol podem jogar partidas seguidas ou entrar em campo em momentos difíceis para eles, mas não falamos aqui sobre “conseguir fazer”; falamos sobre “ser submetido a um nível extremo de cobrança interna e externa”.

Atletas não são máquinas, ainda que cobremos deles um desempenho próximo a isso. São seres humanos, e seres humanos são influenciados por uma série tão grande de fatores que é praticamente impossível controlar.

Na comunicação ou na análise de desempenho, a cobrança precisa ser para minimizar erros. E minimizar erros quase sempre é um processo mais eficiente quando feito de forma coletiva, sem pensar apenas em vilões ou culpados.

Nesse caso, mais uma vez, o Barcelona de sábado serve como exemplo. Neymar estava em jornada ruim por causa de problemas pessoais e Messi saiu machucado, mas o Barcelona tinha alternativas e conseguiu vencer. É uma metáfora perfeita de gestão de projetos (preparar seus pontos fortes, avaliar seus adversários, colocar força máxima e ter alternativas para o caso de algumas dessas virtudes não funcionarem).

Precisamos entender que futebol não é tática, técnica, físico, psicológico ou outros aspectos. Futebol é tudo isso junto, em conexão, com relações que fogem do controle ou da compreensão.

Entretanto, nós ainda vivemos numa realidade em que as coisas são analisadas de forma separada no futebol. Vivemos num período em que todas as mídias vivem de estatísticas, telões com imagens paradas e fotografias de lances. São coisas isoladas, que podem ter diferentes pesos de acordo com o contexto. Vivemos num período em que o contexto interfere bem menos do que deveria.

O caso do pênalti da Série D

Palmas-TO e Remo-PA fizeram no sábado (26) uma partida válida pelas oitavas de final da Série D do Campeonato Brasileiro. Jogando em Palmas, o confronto estava empatado sem gols até os 45min do segundo tempo, quando Whashington invadiu a área pela direita e se atirou no gramado. O árbitro Avelar Rodrigo da Silva anotou pênalti, e Dan deu a vitória aos donos da casa em Tocantins.

O lance foi absolutamente bizarro. Whashington não tinha rivais sequer próximos de seu corpo, e o árbitro Avelar Rodrigo da Silva cometeu um erro que pode interferir no futuro da competição.

Contudo, o maior erro foi o do jogador do Palmas. Num ambiente em que todo fator tem enorme peso e pode interferir no todo, uma tentativa tão deliberada de ludibriar e tirar vantagem é uma ofensa a todo mundo que trabalhou para obter o alto rendimento.

Criar agenda positiva é um dos desafios mais concretos que a comunicação tem no esporte atualmente. Criar agenda positiva num cenário em que os protagonistas são tão dúbios e cometem ações de falta de caráter é ainda mais difícil.

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