Universidade do Futebol

Colunas

13/08/2018

O campeonato de quem se poupa

O calendário do futebol brasileiro é inviável. Enquanto o atual modelo reserva aos estaduais um período considerável da temporada e cria exigência de alto nível competitivo em muitos estágios do ano ao incitar a rivalidade em diferentes âmbitos, a cultura local tem dificuldade para admitir rotação de elencos e a penúria dos clubes limita a criação de grupos com nível técnico para subverter essa lógica. O excesso de jogos exige que atletas sejam poupados, mas todo o cenário contradiz e cria pressão exacerbada por desempenho. O cabo de guerra é antigo, mas ganhou força em agosto deste ano em função do alto número de partidas previstas para o período. A estratégia que mais influencia o rumo de campeonatos no país não tem nada a ver com esquema tático ou função dos principais destaques das equipes: o que decide taças é uma competição paralela sobre quem administra melhor as adversidades impostas pelo formato.

O grande exemplo nacional foi dado pelo Grêmio de 2017. Incentivado pelo início avassalador do Corinthians no Campeonato Brasileiro, o técnico Renato Gaúcho resolveu concentrar forças nas copas e poupou o elenco sempre que preciso na principal competição nacional. Perdeu uma chance considerável de brigar pelo título com a equipe paulista, que depois teve queda acentuada de rendimento, mas pôde celebrar a conquista da Copa Libertadores.

Além do caso em que os gaúchos foram bem sucedidos, a premiação da Copa do Brasil aumentou consideravelmente desde 2016, quando a Globo assinou novo contrato para direitos de transmissão do torneio. Neste ano, por exemplo, cada time recebeu R$ 500 mil apenas como taxa de participação, montante 94% maior do que na temporada anterior. A premiação do campeão chegará a R$ 68,7 milhões, R$ 5 milhões a menos do que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) gastará com prêmios de todo o Campeonato Brasileiro no mesmo período. O Grêmio de 2017 amealhou R$ 24,7 milhões pelo título sul-americano.

Existe, portanto, uma lógica financeira para que os clubes deem prioridade à Copa do Brasil – é um certame com menos jogos e paga melhor do que o Brasileiro. Além disso, a hierarquia esportiva coloca a Libertadores, que é continental, no topo da escala de anseios – o torneio sul-americano, outrora concentrado no primeiro semestre, agora se espalha por todo o ano.

No entanto, conta também um aspecto narrativo. Qualquer derrota em um campeonato como o Brasileiro, que é disputado no sistema de pontos corridos, pode ser diluída. É difícil dimensionar, com a temporada em andamento, quais foram as partidas cruciais para apontar em que faixa a equipe vai se encaixar na tabela.

Com exceção de clássicos locais, goleadas acachapantes ou situações alarmantes (sequência de reveses ou proximidade com a zona de rebaixamento, por exemplo), o torneio de pontos corridos produz um abalo de narrativa bem menor do que as copas. Existe, portanto, um problema criado pelo ambiente para a comunicação do Campeonato Brasileiro resolver.

Se persistirem o modelo de calendário e a situação financeira debilitada dos clubes brasileiros, o foco seguirá voltado às copas. E se a cultura nacional continuar com dificuldade para assimilar a rotação dos elencos, o Campeonato Brasileiro vai ser um produto não apenas menos interessante, mas com uma dificuldade de distribuição cada vez maior.

Em outros contextos, dirigentes tomaram medidas para direcionar o contexto. Há casos de federações que limitaram o número de jogadores inscritos ou limitaram em contrato o uso de jogadores reservas, por exemplo, caminhos escolhidos para evitar que os estaduais ficassem ainda mais subjugados.

É humanamente impossível exigir de jogadores que eles tenham tantos ápices de desempenho durante a temporada (as retas finais de estaduais, as partidas decisivas das copas e todo o Campeonato Brasileiro, por exemplo). Com o atual modelo, porém, é justamente isso que se apresenta: uma demanda que supera em muito a capacidade física, mental ou espiritual de qualquer um. E a CBF, em vez de olhar para isso como uma chance de valorizar seu principal produto, adota uma passividade que tem feito o Campeonato Brasileiro perder terreno para outros produtos.

É difícil medir agora a consequência desse cenário. Contudo, há dois aspectos em que fica clara a relação: ao ser menos prioritário, o Campeonato Brasileiro perde em bilheteria e em relevância para a TV (audiência e valor de contratos, portanto). A decisão técnica das equipes acaba criando um ciclo que fará o torneio definhar em não muito tempo.

Vi em uma análise sobre a participação do Brasil na Copa de 2018 – e infelizmente não lembro o autor para dar o crédito devido – que há na eliminação para a Bélgica um aspecto mais assustador do que o 7 a 1: o entendimento de que é normal o único país pentacampeão mundial ter sido eliminado nas quartas de final. Pior do que o resultado vergonhoso é a redução de perspectiva ou de expectativa. Algo como o time que se acostumou a brigar por títulos ao longo da história e que hoje entra em competições apenas para evitar o descenso. Esse abalo de imagem é muito mais complicado do que o que acontece em campo.

Poupar jogadores é normal e acontece em todos os campeonatos. A relação com essas estratégias de elenco, porém, envolve toda a estrutura de comunicação e tem relação direta com o que os organizadores querem para si e para seus produtos. O problema não é quem poupa atletas, mas quem poupa trabalho.

Comentários

  1. Leumas Júnior disse:

    Excelente comentário.

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