Universidade do Futebol

Guilherme Costa

17/08/2015

O campeonato que se sabota

Encerrado no último fim de semana, o primeiro turno do Campeonato Brasileiro podia ter sido marcado pelo sucesso das rodadas matinais aos domingos – jogos às 11h tiveram a melhor média de público da competição, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aumentou a pedido das equipes a quantidade de partidas no horário. Também podia ter sido um período marcado pelas novidades (em campo, com a consolidação de jogadores jovens como Luan, Gabriel, Jorge, Jemerson, Renan, Otávio e Malcom, ou fora, com a ascensão de treinadores com boas propostas, casos de Eduardo Baptista e Roger Machado). Entre tantas histórias para contar, porém, a marca da principal competição do futebol nacional é mais uma vez o quanto ela se sabota.

A metade inicial do Campeonato Brasileiro de 2015 teve média de 2,2 gols por jogo e um nível técnico superior ao que foi apresentado em edições anteriores. A evolução em alguns aspectos é nítida, e um exemplo é o desenho dos gols anotados pelo Grêmio na vitória por 2 a 0 sobre o Atlético-MG na última quinta-feira (13). Ambos foram construídos a partir de troca de passes (22 toques seguidos até a conclusão de Douglas no primeiro caso). Não é otimismo exacerbado: ainda que esteja aquém de torneios internacionais e do potencial local, o nível técnico do principal certame nacional evoluiu neste ano.

O Campeonato Brasileiro de 2015 também tem sido extremamente competitivo, com alternância de posições em quase todos os trechos da tabela – a exceção é a zona de descenso, que tem sido mais constante. E nem a proximidade entre os times que ocupam as primeiras posições é assunto.

Horas depois do término do primeiro turno, falamos sobre arbitragem. Falamos sobre os erros que ajudaram o Corinthians, atual dono da primeira colocação, e sobre a falta de critério no apito – da escolha dos juízes e auxiliares à marcação de cada lance. Atlético-MG e Flamengo, dois times prejudicados no fim de semana, enviaram representações à CBF para reclamar.

A arbitragem também é o tema que domina os debates sobre futebol brasileiro na TV (e não apenas na TV aberta). Todos os canais têm especialistas para debater cada lance e mostrar no vídeo paralisado o quanto deveria ter sido simples a decisão que o árbitro tomou em segundos. Falar de polêmica acrescenta pouco, mas chama atenção. Nossa mídia tem se tornado especialista em analisar o esporte parado, sem todas as intercorrências do instante em que a decisão é tomada.

Também existe aí o componente da leviandade. Os debates sobre arbitragem têm aproximado muito a mídia brasileira do que acontece nos bares e distanciado do que é jornalismo. São opiniões irresponsáveis, rasas e desprovidas de qualquer apuração. Tudo assim, empilhado, simplesmente pela polêmica.

Pense então na pressão que isso gera para os árbitros. Formadores de opinião (jornalistas, jogadores, técnicos e dirigentes) passam horas discutindo cada lance em que eles erram ou acertam e sugerindo intenções ocultas em cada um, ainda que não apresentem provas. Torcedores ressoam isso e colocam em dúvida a lisura do trabalho de todos, de forma generalizada. A partir disso, toda decisão passa a ser questionada ou avaliada a partir de pré-conceitos.

Erros e acertos são inerentes a qualquer atuação humana, e a arbitragem não pode ser excluída disso. Entretanto, esse é um claro exemplo do quanto temos dificuldade para a crítica construtiva. Há anos convivemos com reclamações e acusações sobre arbitragem, mas quais foram as propostas no período, da CBF, dos clubes ou de qualquer outra parte interessada, para que isso fosse minimizado? Qual é a preparação que os donos do apito têm para lidar com um ambiente de tão grande pressão?

É sempre mais fácil sugerir. É sempre mais fácil gerar a polêmica pela polêmica. Mais uma vez, perdemos a chance de identificar um problema, discutir modelos viáveis e trabalhar para evoluir. O futebol brasileiro tem uma restrição inexplicável a qualquer processo.

O pior é que a arbitragem é apenas um dos tópicos em que o Campeonato Brasileiro perde espaço em qualquer discussão. O futebol do primeiro turno também foi suplantado, por exemplo, pelas mudanças causadas nos elencos. Com a desvalorização da moeda local e a perda de potencial econômico de curto prazo na maioria das equipes, o êxodo de atletas subiu de forma assustadora. Entre os 11 titulares do Flamengo contra o Palmeiras no último domingo (16), cinco sequer integravam o elenco profissional rubro-negro no início do torneio nacional.

O Campeonato Brasileiro de 2015 também foi (e vai continuar sendo) o torneio em que os times perderam peças relevantes em momentos nevrálgicos. Em setembro, por exemplo, convocações da seleção brasileira principal e do time nacional sub-23 vão tirar 16 atletas da Série A. Esses jogadores perderão duas ou três rodadas, o que pode ter peso decisivo numa competição tão equilibrada.

Arbitragem, êxodo de atletas e um calendário que compete com os jogos da seleção brasileira são apenas alguns exemplos do quanto o Campeonato Brasileiro é um produto que se sabota. É difícil falar de futebol quando os assuntos mais relevantes estão sempre à margem.

Havia uma lista de marcas possíveis para o primeiro turno do Campeonato Brasileiro. No fim, infelizmente, o torneio de 2015 vai ser visto como o que teve pouca ou nenhuma evolução nas questões que mais precisava discutir.

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