Universidade do Futebol

Colunas

27/12/2015

O cenário ideal das categorias de base para os próximos anos

Como você vê o trabalho de formação no Brasil?

Há algum tempo o futebol brasileiro vive uma crise em todos as seus dimensões, são elas:  política, administrativa e técnica. Sem processos de gestão bem definidos e que tenham capacidade de integrar tais dimensões de acordo com as exigências atuais do mercado, vivemos de projetos e iniciativas isoladas que, como “conta-gotas”, tentam manter viva a esperança do país em retomar a hegemonia do futebol mundial.

Neste contexto de crise, tem sido cada vez mais comuns os comentários sobre a importância das categorias de base para os clubes. Os motivos são simples e seguem a premissa de qualquer prática organizacional: lucro e sustentabilidade. Lucro, pois em média, nos últimos anos, cerca de 15% das receitas dos principais clubes do país foram oriundas das transferências de jogadores (Somoggi, 2014), perdendo somente para as cotas de TV e patrocínio; e sustentabilidade, pois quem conseguir, ao longo do tempo, formar equipes competitivas com os “pratas da casa” adquirirá vantagem competitiva na seguinte combinação: equipe com menor custo, composta por atletas com maior potencial de venda e maior percentual de direitos econômicos do clube.

A construção desse processo, no entanto, passa, necessariamente, por uma prática ainda pouco considerada no futebol brasileiro, que é o investimento de longo prazo. Você já deve ter parado pra pensar que as equipes sub-11 espalhadas pelo país afora estão repletas de joias, brutas, prontas para serem lapidadas e, ao final de seu processo de formação, representarem bem o clube seja atuando na equipe principal, ou então, num clube do exterior. Vale considerarmos também os milhares de jovens garotos de 11, 12 e 13 anos, com talento, fora dos clubes de futebol, mas espalhados por diversas regiões do país, jogando futsal, futebol de areia, futebol society ou quaisquer jogo de bola com os pés, em várzeas ou competições amadoras, esperando, consciente ou inconscientemente, o olho clínico de um observador técnico.

Uma vez captados os talentos, uma tarefa que deve ser permanente, os clubes de futebol tem a missão de, a partir do investimento (e não despesa, como é considerado) estrutural, de tecnologia e de recursos humanos à serviço dos jogadores, potencializar o retorno financeiro, agregando valor a cada jogador ao longo de toda sua trajetória enquanto atleta do clube. Nos parágrafos seguintes serão debatidos alguns elementos que, sob o viés técnico, devem ser contemplados ao longo de um processo de formação. Esse processo, como a própria expressão sugere, visa moldar os futuros homens, jogadores ou não, de acordo com os valores (esportivos, morais, sociais e educacionais) da instituição.

Os atletas devem ser submetidos a um currículo que privilegie uma formação autônoma, criativa e que desperte elevados níveis de inteligência coletiva de jogo. Vale mencionar que a inteligência coletiva não abre mão ou coloca em segundo plano a individualidade; pelo contrário, pois, esta última, quando potencializada com significado coletivo, confere qualidades importantes ao sistema.

Existe um vasto repertório de conteúdos de treinamento que devem ser oferecidos aos atletas. Para exemplificar, podemos mencionar desde aspectos micro, como a capacidade técnica-decisória nas ações de domínio e passe, ou então, as ações de giro de pescoço (executadas com maestria por Toni Kroos, Xavi, Lampard, Iniesta, Thiago Alcântara)  para interpretar melhor ocupação de espaço e ação; até aspectos macro, como a capacidade de ser versátil e adaptável à diferentes sistemas e posições, bem como o domínio de ações coletivas complexas, como pressing, temporizações ou mobilidades com trocas de posição.

Para atingir a excelência e, mais do que isso, sustentá-la ao longo dos anos, transformando joias brutas (ou talentos) em pedras preciosas lapidadas (ou grandes jogadores de futebol), é indispensável uma equipe técnica de campo especializada. Tal equipe deve ser dotada das mais variadas competências, como: conhecimento científico, experiência prática como atleta, didática, liderança, conhecimento técnico específico da sua área de atuação, conhecimento técnico geral das outras áreas, conhecimento tecnológico, capacidade de inovação, de trabalho em equipe e de atualização permanente. Quanto mais competências cada membro da equipe possuir, mais qualificado serão os treinamentos dos jovens futebolistas.

Concomitante à formação técnica, é missão dos clubes que trabalham com categorias de base oferecerem uma formação integral, que é também (e não unicamente) esportiva. Sendo assim, não basta somente as comissões técnicas de campo serem altamente capacitadas mas também toda a equipe de trabalho interdisciplinar, composta por fisioterapeuta, médico, psicólogo, assistente social, nutricionista, fisiologista e pedagoga. Toda esta equipe deve estar em constante comunicação e interação com as comissões técnicas e cada atleta do clube. Do sub-11 ao sub-20, cada jogador pode ser devidamente monitorado através de indicadores de desempenho de cada departamento. Exemplificando, é preciso ser identificado o nível de competitividade de cada um dos jogadores, o percentual de gordura, os desvios posturais, bem como as condições sociais e familiares. Estas avaliações devem compor um Radar Individual do Atleta. A partir dele, fica evidente quais são os planos de ação necessários para cada um dos jogadores.

Vale mencionar também as condições estruturais de moradia, treinamento e alimentação. Moradias confortáveis (mesmo que simples), qualidade dos campos e dos materiais de trabalho e boas refeições compõem, somadas à qualidade do sono dos atletas, o treinamento invisível. Com grandes efeitos sociais e esportivos no longo prazo.

Foi discutido que a formação exclusivamente técnica já não é mais suficiente para formar jogadores que atendam às exigências atuais do mercado. Discutimos também que a composição de uma equipe de apoio interdisciplinar atuante pode maximizar o desenvolvimento dos jogadores, que devem receber condições estruturais, de treinamento e de alimentação ótimas. Podemos, então, afirmar que este cenário idealizado basta para o sucesso de um trabalho de formação?

A resposta é não!

Se voltarmos ao início do texto, sobre as três dimensões do futebol afirmaremos que todas as práticas supramencionadas dizem respeito à dimensão técnica da modalidade. Qualquer projeto da área técnica que não esteja devidamente vinculado às dimensões política e administrativa já inicia com os dias contados.

Por exemplo, um projeto administrativo de futebol que entende o poder estratégico das categorias de base sabe quando deve evitar uma contratação de risco na equipe principal para direcionar os recursos ao departamento de formação. Sabe, também, o momento de fazer a transição de uma jovem promessa para a equipe principal. Um projeto político de um clube de futebol, voltado aos interesses da instituição, tem diretrizes e processos bem definidos e executados mesmo que se altere o mandato.

Projetos políticos e administrativos desvinculados da área técnica tornam o que se passa nas categorias de base praticamente imperceptível. Um “crime”, contra o próprio patrimônio, se considerarmos o investimento realizado.

E agora você deve estar se perguntando se existe algum clube no Brasil que consegue desenvolver, da base ao profissional, um projeto devidamente alinhado nas três dimensões. Voltamos ao início do texto e o que podemos afirmar é que existem tentativas e iniciativas isoladas. Basta acompanhar os noticiários esportivos ou fazer um breve resgaste da memória e você se lembrará de inúmeras incoerências de ordem técnica, política e/ou administrativa que retratam a incapacidade dos clubes em agir planejada e sistemicamente.

Para cada clube que investe em categorias de base, seja ele grande, médio ou pequeno, existe um distanciamento entre o contexto ideal do futebol de formação e o contexto atual. Para alguns clubes, ajustes em alguns processos podem aproximar os dois cenários. Para outros, no entanto, a distância é um abismo e somente com reformas significativas, que partam do nível hierárquico mais alto do clube, encontrarão as soluções. A boa notícia é que não se chega a um cenário ideal sem passar por um cenário atual, repleto de desafios, dificuldades e limitações.

O futebol do amanhã está sendo praticado hoje, pelos nossos jovens futebolistas. Pela nossa decadência nos últimos anos, passou da hora de investirmos de verdade no futebol e nas pessoas em formação. Se não quisermos, temos que assumir que, de fato, chegaremos ao fundo do poço. Seria muito triste ao futebol brasileiro adormecido como pentacampeão mundial.

Me escreva para contar sua opinião!

Obrigado por me acompanhar durante 2015. Feliz Natal e próspero 2016! Espero que continuemos a nos encontrar por aqui…

 

Comentários

  1. Cesar Sampaio disse:

    Parabéns Eduardo, grande trabalho e uma sequencia logica de raciocínio.
    Entendo que teremos uma integração e uma visão sistêmica no planejamento dos clubes, quando conseguirmos transformar um clube em empresa ou quando tivermos uma referencia no comando.
    Exemplifico meu pensamento em três modelos destintos, mas que com um processo de continuidade, servem come referencia no mercado Brasileiro.
    1) Corinthians que em oito anos teve apenas três treinadores, considerando o comando do Adilson Batista de apenas três meses, e tendo a pessoa do Andrés Sanches como pilar de sustentação nas crises. ( Continuidade).

    2) O modelo de jogo do Atlético Paranaense, a utilização dos atletas formados na base, a implementação do DIF nas analises para contratações e promoções de atletas através do perfil e valências observadas, alicerçadas no modelo de gestão da pessoa do Petraglia. (Continuidade)

    3) A recuperação da credibilidade e identidade do Palmeiras através da reengenharia administrativa financeira, depois com um investimento pesado no futebol, algo possível à poucos, mas baseado na contratação de profissionais capacitados na gestão e alicerçado na pessoa do Paulo Nobre um presidente atuante. (Continuidade).

    Tenho algumas divergências quanto aos métodos e procedimentos dos exemplos citados acima, mas não posso deixar de ressaltar que respeitando o planejamento e tendo um dono ou uma referencia como pilar durante alguns anos, conseguimos enxergar os erros e aprimorar os processos.
    Sou favorável ao modelo de clube empresa. Fica mais claro o modelo de gestão e as diretrizes a serem respeitadas para alcançarmos metas de curto, médio e longo prazo.
    Entendo que grande parte do sucesso na gestão dos clubes europeus, dá-se pela existência de um chefe, uma referencia que deixa-se expressar dentro daquilo que pode e o que não pode, o que deve ser feito e o que não se deve ser feito.
    Desta forma todos os departamentos, apesar de distintos em suas metas e funções, acabam convergindo para um mesmo objetivo.
    Vejo o sucesso na continuidade, médio e longo prazo. Isso só poderá acontecer no futebol com modelo empresarial na gestão.

    Cesar Sampaio

  2. José Carlos disse:

    Gestão… pressig…transição… integração entre áreas, fisio, psicol, nutric… tudo isso é maravilhoso. Ai vc assiste matérias na tv brasileira sobre bases que são “exemplos” que revelam etc… Tudo lindo. Ai vc pega um garoto que vc e outros profissionais da área acreditam ter um certo potencial para jogar futebol e leva para um desses clubes… ai vc se depara com pessoas despreparadas, mal intencionadas, clubes que parecem mais uma prefeitura ” cabides de emprego” do que propriamente um clube de futebol que deveria dar condições para o garoto tentar evoluir e não o fazem. Emfin, não acredito que o futebol brasileiro tenha solução enquanto não estiver pessoas Sérias, honestas, bem intencionadas, com paciência para saber se garoto tera ou não uma evolução e não já se sentir o “deus”do futebol e sabe se um garoto de 11 anos será ou não um jogador de futebol.

    • Eduardo disse:

      José Carlos, interessante sua análise. Vejo da mesma forma. Futebol brasileiro sempre teve a melhor materia-prima, e agora querem fazer como os europeus e logi ficamos para tras. Daqui a pouco os clubes vão pegar no berçário, e talentos naturais, aqueles de campinho de rua, verdadeiro futebol brasileiro, terao cada vez menos espaços, pois vai acontecer o q vc comentou… Chega no clube e mal olham o menino q tem desempenho igual ou parecido c aqueles q ja estao a muito tempo o clube e são de algum empresario.

      • Rogério Rodrigues Moreira disse:

        Olá Eduardo, muito boa tarde! Bastante elucidador seu post. Gostaria de sua orientação, se possível. Meu filho, com atuais 8 anos, é um garoto que pratica futebol em escolinhas desde os 4 anos. Dizem que é bastante talentoso e muito diferente da maioria dos garotos de sua idade. Como ele se destaca nos treinos e campeonatos, recentemente, creio que por esta razão, vêm despertando interesse de pessoas (a maioria desconhecidas) que entram em contato comigo no intuito de “apadrinhar” meu filho oferecendo testes e peneiras Brasil afora. Sou leigo e desconheço completamente este mundo de atletas de base, como sugere que devo proceder? Minha grande dúvida é: está muito cedo para ele “voar” ou já posso expô-lo à viagens de testes e peneiras ?
        Segue link de um pequeno video com algumas cenas dele em ação com 7 anos: https://www.youtube.com/watch?v=IXjyRmSbz4o
        Atenciosamente, Rogério Moreira (pai)

  3. Pedro Leite disse:

    Baita texto e análise. Tenho uma pergunta: A tradicionalissima peneira acabou? Vi uma entrevista em uma rádio de jogadores que vão atuar nessa copinha e todos disseram que não passaram por nenhum sistema de peneira e sim entraram no time através do empresário

  4. Douglas Bassetto disse:

    Parabéns professor, excelente análise! O futebol brasileiro está cada vez mais defasado. Na minha opinião, a comissão técnica dos clubes brasileiros deveriam ter mais contatos, desde sub-10 ao profissional. A ideia é acompanhar os futebolistas por etapas, para quando chegar na equipe principal (profissional) o jogador servir ao clube, tendo menos gasto e fazendo com que o atleta seja de boa importância ao elenco. No futebol brasileiro, o único clube que vejo assim é o Santos Futebol Clube, que no ano passado fizeram um ótimo campeonato, com a maioria de seus atletas foram lançados pela categoria de base.

  5. Rodrigo Viana disse:

    Eduardo !
    Achei interessante suas ideias gostaria de manter contato com vc !
    Rodrigo Viana (81) 999447699

  6. Val iris Silva santos disse:

    Bom dia eu tenho um filho de 13 anos não e porque e filho meu mais o moleque joga muito mais falta oportunidade de mostrar pra todos mundo ver oque ele sabe jogar muito vão já com empresários mais eu não tenho recursos pra isto queria saber si eu ou outra pessoa sincero no futebol pra a ajudar eu correr a traz do sonho dele

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