Universidade do Futebol

Colunas

11/07/2018

O Ciclo da Copa e a Seleção Brasileira: o que erramos novamente e o que erramos de novo

A copa vem como cópias de um passado que já vivenciamos. As reportagens são praticamente as mesmas e vai desde as análises táticas de especialistas à mídia de entretenimento e diversão do público: seleções, craques, idioma de outros países, torcedores acompanhando o jogo nos estádios, telespectadores que se reúnem em lugares públicos para assistir, “saiba mais sobre o jogador tal…”, “quem são as esposas dos craques da Copa…”, “quem é o jogador mais jovem e mais velho da Copa…” e por ai vai. Esse ciclo repete-se a cada quatro anos, com novos atores representando os mesmos personagens de antes. E com o incremento de alguma coisa mais.

Esse ano a inovação ficou por conta da discussão sobre o VAR (Video Assistant Referee). Mas também observei com destaque a utilização de softwares utilizados pelos canais de TV, o maior número de crônicas (conjunto de matérias e estilo próprios de uma atividade ou tema) publicadas – de análises até colunas de opinião.

Outro tema importante foi ver a imprensa com mais especialistas comentando os jogos e o ambiente social do futebol. Nunca empregou-se tantos ex-jogadores e ex-treinadores como nessa Copa e percebo que muitos deles voltaram a estudar, aumentando nível das discussões comparado a outrora. Alguns canais fazem isso melhor do que outros, evidentemente. No entanto, jornalistas, ex-jogadores, ex-treinadores e pessoas de áreas técnico-científicas do futebol estão começando a fazer matérias e a participar de debates de forma mais cooperativa, percebendo pontos de vista em comum.

E o que se repetiu? O que erramos novamente? E o que erramos de novo?

O que se repetiu foi uma equipe que ascendia, mas oscilava, que não sabíamos se tinha limites, que não percebíamos se ia de fato despontar um futebol-arte a qualquer momento, ou se dali não passava.

Não sabíamos se a seleção estava jogando por música, sentíamos algumas notas, certas horas ouvíamos um pedaço da melodia em jogadas semiestruturadas pelo lado esquerdo, ou por jogadas individuais pela direita. Mas ao final, me pareceu que o jogar do Brasil ainda estava em processo de composição e que os músicos (jogadores) ainda não estavam orquestrados.

Veja essa análise, para entender as interações de passes e posicionamento médio dos jogadores.

Divulgação: @11tegen11

https://twitter.com/11tegen11/status/1015326078733377540

https://twitter.com/11tegen11/status/1013816116047761409

https://twitter.com/11tegen11/status/1012064619156922369

Erramos novamente! O Brasil não é equipe para ter característica de “um lado forte e o outro fraco”.

Entretanto, o juízo de valor deve ser coletivo. Também erramos novamente em atribuir multitarefas a alguns jogadores, esperando que resistam a sete jogos vencendo adversários pelo talento. Esperávamos que Coutinho defendesse, criasse e finalizasse. Jogo sim, jogo não, ele deu sua contribuição em pelo menos duas das três funções. Portanto, erramos novamente em achar que era possível jogar por música com parte dos instrumentos afinados e a outra parte não, achando que os adversários não perceberiam de onde vem o ponto fraco da nossa canção jogada.

As outras seleções estudam o Brasil e deve ser prazeroso fazer isso. Também aprendem muito com o futebol brasileiro, mas atacam nossos pontos fracos, sem pragmatismo, sem euforia, sem medo de mudar jogadores da titularidade ao banco de reservas e vice-versa, de reorganizar o esquema, a estratégia e o sistema de jogo.

Agora veja essa análise que mostra a ocupação de espaço do Brasil em profundidade e os números relacionados às situações de finalização nos últimos três jogos:

Divulgação: Twitter @11tegen11

 

Brasil atacou bastante, finalizou 61 vezes ao alvo nos últimos três jogos. Não houve adversário, destes que destaquei, que chegaram tão perto destes números. O que erramos de “novo” foi a precisão das finalizações, que podem estar relacionadas a finalização das jogadas e que, por sua vez, pode estar relacionada com a criação das jogadas, a qual, resumidamente, foi representada nas figuras anteriores, que indicam o comportamento das interações de passes e ocupação do espaço dos jogadores.

Não tínhamos este problema antes. E não podemos atribuir a este fato, comparações do tipo: “Antes tínhamos Pelé, Rivelino, Careca, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Adriano, Luis Fabiano, etc… e agora temos Firmino e Gabriel Jesus e pontas que jogam quase o jogo todo longe do gol (…)”.

O problema sempre é coletivo, quando muito setorial, mas mesmo assim não perde o caráter coletivo. Ao longo da temporada tive acesso a uma informação sobre G.Jesus: dos 16 gols que tinha feito em seu clube, até então, usou 19 toques na bola. Sendo assim, sua característica é sim de finalizador de jogadas. Portanto, não é um problema individual, ou melhor, torna-se um problema individual quando o treinador não consegue conduzir os comportamentos da equipe para explorar o que cada jogador tem de melhor. Sendo assim, é um problema novo que esperamos que não aconteça novamente.

Os ciclos se repetem, a copa com mais da metade dos gols de bola parada e das defesas de quase todas equipes bem organizadas, não foi fecundada pela esperança de um “jogo mais artístico”. O Brasil não mereceu ganhar o título de Campeão Mundial de futebol. Mas o futebol merece ter o Brasil neste patamar. E essa hora pode chegar se a gente não repetir os mesmos erros e nos prepararmos melhor para enfrentar as outras equipes. E não perder o jeito de jogar brasileiro.

VAR…
Imprensa…
Análise do Jogo…
Futebol brasileiro…
Jogar por música…

É muito assunto que não se esgota e muito trabalho a ser feito no ciclo que já se iniciou.

 

Comentários

  1. Daniel Caratti disse:

    Bruno, gostaria de saber sua opinião em alguns pontos:
    -centroavante que tem q marcar e correr tanto como Jesus foi exigido, tem coordenação, potência e concentração pra fazer gol?
    – foi insistência manter Marcelo e Neymar batendo cabeça? ( pra mim são os 2 melhores taticamente, mas da maneira que foram utilizados bateram cabeça)
    – Barcelona acertou mais q Tite trocando Paulinho por Artur?
    – Artur não foi, mas Renato Augusto não articularia melhor que o Paulinho ? Faltou link com ataque, não?

    – Wiliam rendeu só 40min na copa, Douglas Costa infelizmente machucou , quem poderia ter sido levado?

    -Por último, o que levou a comissão a levar tanto cara quebrado? Me pareceu ego, achando q algum deles iria resolver e na entrevista o técnico diria eu sabia boa boa boa

    Obrigado

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