Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

28/09/2010

O código do talento e o futebol brasileiro

“Você se torna inteligente
graças aos seus erros”
(Provérbio alemão)

 

No meio acadêmico, podemos dizer que existem dois tipos de livros, os científicos (clássicos, densos e, muitas vezes, herméticos) e os de divulgação científica, escritos para todos os públicos, especialmente para os que não dominam as bases cabais do tema exposto.

Os livros de divulgação científicas muitas vezes viram “best seller”, e desse modo, o grande público que o lê, pela facilidade com que o tema foi tratado, arvoram-se em discorrer sobre o tema, como se tivessem lido todo o alicerce teórico que sustenta as possíveis afirmações e argumentações presentes neste tipo de obra.

Desse modo, depois deste prólogo, com todo o cuidado, quero abordar o tema principal de um interessante livro de divulgação científica que ganhei do professor João Paulo Medina, quando novamente nossas deleitosas conversas se enveredaram pelas sendas do inato e adquirido na detecção e formação de talentosos futebolistas.

O livro, como a maioria dos livros de divulgação científica, não foi escrito por um cientista, e sim por um jornalista. Denomina-se “O código do talento”, assinado por Daniel Coyle, o mesmo escritor do livro “A luta de Lance Armostrong”, que inspirou o filme “Hardball: o jogo da vida” (estrelado por Keanu Reeves).

Como o próprio título da obras revela, seu conteúdo aborda de forma interessante as questões relativas ao inato e adquirido nos prodigiosos talentos que cobrem o mundo nas mais diferentes áreas.

Contudo, por ser jornalista esportivo, Coyle destaca de forma enfática os talentos esportivos, depois de viajar o mundo constatando “in loco” todos os exemplos citados no livro.

A premissa básica de que Daniel Coyle parte é o fato de que grande responsável pelo sucesso da humanidade não está nos genes, nem na quantidade de neurônios, mas sim na espessura da mielina que recobre os neurônios e impede que os impulsos elétricos se percam, aumentando significativamente sua velocidade.

Coyle apresenta os resultados das pesquisas de vários cientistas, que começam a encontrar indícios interessantes no comportamento da mielina nos seres humanos, em especial nas pessoas que demonstram maior habilidade para resolver certos problemas.

Como disse, apesar dos resultados das pesquisas trazerem certas evidências pertinentes, ainda é cedo para o meio científico aceitá-las como verdade, derrubando os antigos paradigmas que versam sobre o assunto.

Porém, de forma arrojada, Daniel Coyle toma a hipótese como tese, e a usa de pressuposto para o desenvolvimento de sua temática principal.

Para esta ele destaca, de forma enfática, o fato de que a mielina aumenta, não por acaso e determinismo genético, mas sim em decorrência de treinamentos. Porém, não é um treinamento qualquer, mas sim um novo modelo, o qual ele vai chamá-lo de treinamento profundo.

Nas próprias palavras do autor: “O novo modelo mostra que as fábricas de talento têm êxito não porque as pessoas se esforcem mais, mas porque se esforçam do modo certo – treinando mais profundamente e ganhando mais mielina, e, portanto, mais habilidades.”

As fábricas de talentos que Daniel Coyle apresenta são localidades e/ou grupos de pessoas em que, indiscutivelmente, apresentam diferenciais na formação de talentos. Pode-se dizer indiscutivelmente devido aos fatos concretos, contudo, as explicações para estes fatos é que geram inúmeras especulações.

Como um verdadeiro aventureiro, o autor visita estes vários centros, diz ele: “Em dezembro de 2006, comecei a visitar lugares minúsculos que produziam um número estratosférico de talentos. Minha jornada teve início em Moscou, numa quadra de tênis em péssimo estado, e, nos 14 meses seguintes, levou-me a um campo de futebol em São Paulo, no Brasil, a uma escola de canto em Dallas, no Texas, a uma escola no centro histórico de São José, na Califórnia, a uma surrada academia de música na região de Adirondacks, em Nova York, a uma ilha dominada pelo beisebol, no Caribe, e a mais uma porção de locais tão pequenos, humildes e fantasticamente bem-sucedidos…”.

Obviamente, o que mais nos chamou a atenção para escrever esta crônica foi sua análise sobre o futebol brasileiro, para qual quero destacar um pequeno excerto, de modo a não correr o risco de contaminar o texto com minhas interpretações.

Portanto, nas literais palavras de Daniel Coyle, o segredo do futebol seria o treinamento profundo advindo de um jogo em particular: “Ou seja, o futebol brasileiro é diferente do futebol do resto do mundo porque o país utiliza um equivalente esportivo ao Link trainer (simulador de voo). O futebol de salão comprime as habilidades futebolísticas essenciais num pequeno espaço, situa os jogadores na zona de treinamento profundo, na qual vão cometendo erros que vão corrigindo, nunca deixando de criar soluções para problemas vivamente percebidos. Jogadores que tocam 600% mais vezes aprendem mais depressa (e sem se dar conta disso) do que aprenderiam na vasta e expansível extensão de um campo gramado. O futsal não apenas é a razão pela qual o futebol brasileiro é extraordinário. Os outros fatores tantas vezes citados – clima, paixão e pobreza – realmente importam. Mas o futebol de salão é a alavanca por meio do qual esses fatores transmitem sua força.”

Como meu objetivo com esta crônica não é debater o livro “O código do talento”, mas sim inquietá-los para lê-lo, despertando reflexões e provocações, que ultrapassam a curiosidade, e os colocam rumo à construção de conhecimentos significativos e pertinentes à pedagogia, pois a obra vai muito além do esporte, quero terminá-la destacando dois pontos para mim interessantes.

Um deles é o fato de que os estudos sobre a mielina estão avançados, mostrando, entre outras coisas, que ser talentoso depende, sim, de uma boa quantidade de qualificadas horas de dedicação (e não oração, nem muito menos “esperação” – licença poética – de que nasça um novo Pelé, ou mesmo que já existem jóias raras a serem descobertas apenas pelo olhar dos observadores).

O outro é o fato de que devido ao nosso complexo de vira-lata (para usar uma expressão usual de Nelson Rodrigues), talvez ainda encontre pessoas no mundo da bola alardeando aos quatro ventos de que os gringos descobriram a fórmula secreta de nossa “Coca Cola”, e contratem-no a peso de ouro para desenvolver a metodologia do futebol brasileiro para alguma esperta franquia de escola de futebol, de modo similar ao que fez o inglês Simon Clifford, hoje um milionário dono de equipe do futebol, que se enriqueceu vendendo franquias de escolas de futebol pela Europa, dizendo que em sua escola brasileira de futebol os alunos aprenderiam a jogar como os brasileiros.

Daniel Coyle, ao relatar o sucesso de Simon Clifford, destaca: “Ele bolou uma série de sessões de treinamento baseadas nas jogadas do futsal. Em sua maioria vindos de uma área empobrecida e difícil da cidade de Leeds, os pequenos jogadores começaram imitando os Zicos e os Ronaldinhos. Para criar a atmosfera adequada, Clifford punha samba para tocar num aparelho de som portátil”.

Portanto, a leitura passa a ser mais interessante, pois Daniel Coyle nos apresenta de forma clara e didática uma nova maneira de explicar o que nós já vínhamos há tempos dizendo, junto com o professor João Batista Freire, o professor João Paulo Medina, entre outros, sobre a tese da pedagogia da rua, dos estudos que versam sobre o padrão organizacional sistêmico, das teorias do conhecimento interacionistas, da zona de desenvolvimento proximal vigotskiana e do processo de equilibração piagetiano.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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