Universidade do Futebol

Artigos

27/07/2014

O coletivo no Futebol: moda ou necessidade?

O coletivo enquanto atividade de treino no Futebol é frequentemente utilizado por treinadores nas mais diversas etapas do processo de treinamento. Por vezes chamado de “apronto”, faz parte da rotina dos clubes desde a categoria de base até o profissional, contudo evidenciam-se poucas tentativas de entender sua utilização do processo de ensino-aprendizagem-treinamento do Futebol. Neste aporte, discutir-se-ão aspectos que incidem diretamente na escolha da utilização do coletivo no treinamento.

Inicialmente é necessário entender o conceito de treinamento esportivo. O treinamento esportivo é um processo complexo de ações, dirigido ao desenvolvimento planejado de determinadas condições de desempenho esportivo e à sua apresentação em situações de prova, especialmente na competição esportiva (1). Deste conceito salientam-se dois importantes apontamentos: em primeiro lugar o entendimento de treinamento enquanto processo, ou seja, um conjunto sequencial e particular de ações com um objetivo comum; em segundo lugar, o entendimento da necessidade de atrelar o processo de treinamento ao desenvolvimento de condições de desempenho esportivo, ou seja, treina-se para melhorar componentes inerentes ao desempenho. Tais conceitos serão novamente retomados à frente.

Dentro do processo de treinamento, o Princípio da Especificidade orienta a escolha dos meios e métodos empregados por treinadores e professores, os quais buscam a adoção de estímulos específicos, mais próximos possíveis à dinâmica do jogo, capazes de causar adaptações específicas nos sistemas específicos que orientam o desempenho dos atletas.

No treinamento em esportes coletivos, o desempenho é resultado da interação dinâmica de componentes técnicos, táticos, físicos, fisiológicos e psicológicos (2, 3). Neste âmbito atividades de treino baseadas no jogo formal (11×11, frequentemente alcunhadas de Coletivos) representam a máxima especificidade ao treinamento, na medida em que os atletas defrontam situações idênticas às demandadas durante os jogos contra outros adversários, em um contexto ambiental o mais ecológico possível. Desta forma, a utilização de atividades de treino baseadas no 11×11, justificadas pelo princípio da especificidade, dá-se com bastante frequência nos processos de treino no Futebol.

Contudo, em abordagens mais recentes, o conceito do Princípio das Propensões, que consiste em fazer aparecer uma grande porcentagem do que se quer alcançar durante as atividades propostas, vem sendo abordado com relativa frequência. Em outras palavras, deve-se condicionar um exercício para que o comportamento pretendido surja repetidamente (4).

Trazendo para a realidade do jogo de Futebol, se a conduta treinada é a retirada da bola da zona de pressão durante a transição ofensiva, por exemplo, uma atividade que destine-se a sistematizar esse Princípio deve permitir que situações de transição ofensiva aconteçam, durante o treinamento, um grande número de vezes. Só assim permite-se que os comportamentos pretendidos sejam treinados.

Retomando o conceito o conceito de treinamento enquanto processo, deve-se considerar que o início de trabalho em uma equipe representa um estágio diferente do obtido após seis meses de trabalho, após um ano, após cinco anos. As atividades de treino devem, em termos de complexidade e de especificidade em relação ao modelo de jogo, seguir a mesma evolução. Desta forma, sistematizar comportamentos de transição ofensiva caracterizada pela retirada da bola do centro de pressão deve incluir no início do processo, por exemplo, atividades com menor número de adversários, maior espaço para realização dos comportamentos e maior tempo para realização das ações, alternativas que permitiriam que o comportamento desejado acontecesse um maior número de vezes, de acordo com o Princípio das Propensões. Já num segundo momento, as atividades seriam realizadas em espaços reduzidos, com maior número de adversários e limitações de número de toques na bola, por exemplo. Desta forma, a carga de treinamento seria claramente evoluída ao longo do processo.

Em relação ao coletivo, a primeira dificuldade em relação à sua aplicação versa sobre a incapacidade de evolução dos níveis de dificuldade e da adoção de cargas novas. Desta forma, as configurações de um coletivo adotadas no início de um trabalho (11×11, num espaço 110×65, com duas balizas e todas as regras formais do jogo) são permanentemente repetidas ao longo do treinamento.

Já em relação ao treinamento orientado para o desenvolvimento planejado, observa-se nova dificuldade na utilização das atividades baseadas no 11×11. A pergunta: “qual comportamento quero melhorar com um coletivo?” é de difícil resposta, já que em vista da baixa relação com o Princípio das Propensões, o volume de vezes em que os comportamentos serão observados provavelmente não representará um estímulo suficiente para o aprendizado. Deste modo, comportamentos de transição ofensiva, conforme os exemplos acima adotados, seriam observados em baixa incidência quando comparado a atividades direcionadas a esse propósito.

Assim, do ponto de vista do treinamento esportivo, a justificativa da utilização do “coletivo” sob o ponto de vista da globalidade, ou seja, da capacidade de vivência do jogo como um todo e, consequentemente, do treinamento de muitas (se não todas) ações que compõe o jogo formal, esvazia-se. A distância em relação ao Princípio das Propensões e a dificuldade na progressão da carga de treinamento dificultam a aproximação desta atividade de treino das teorias que circundam o treinamento esportivo.

É hora então de abdicar dos coletivos? A resposta é sim e não.

Sistematizando a utilização dos coletivos

A utilização dos coletivos apresenta, sob o ponto de vista da teoria do treinamento, dois problemas: baixa incidência de aparecimento dos comportamentos a serem treinados (afastamento do Princípio das Propensões) e dificuldade na evolução da carga de treinamento. A seguir serão apresentadas alternativas à solução destes problemas. Sob esse ponto de vista, é fundamental que se abdique da utilização dos coletivos no processo de treinamento.

Contudo, mudanças nas configurações de atividades de jogos, por exemplo Pequenos Jogos, interferem nos comportamentos técnicos, táticos, mecânicos e fisiológicos de jogadores de Futebol (5-7). Alterações no tamanho do campo, número de jogadores, regras técnicas e carga de treinamento apresentaram interferência no comportamento dos atletas. É através da alteração de componentes como estes que é possível sistematizar treinamentos coletivos em consonância com princípios do treinamento esportivo. Sob esse ponto de vista, coletivos se enquadram na proposta teórica do treinamento esportivo, além de auxiliarem treinadores no desenvolvimento do jogar coletivo da equipe.

Como exemplo, imagina-se que um treinador deseje que a construção do processo ofensivo seja direcionada ao jogo pelas beiradas. Desta forma, ele precisa que os atletas adotem comportamentos como criação de linhas de passe nas zonas laterais do campo, ultrapassagens, tabelas e passes de parede. Decide utilizar um coletivo como atividade de treino, e tem-se a seguinte configuração:

Figura 1: Coletivo em condições comumente utilizadas

Conforme observado, os jogadores do time preto tem à disposição todo o espaço do campo para construir o jogo ofensivo. A utilização desta atividade no treinamento do conceito de jogo acima citado provavelmente não permitirá o desenvolvimento das condições do desempenho desportivo (em concordância com o conceito de treinamento).

Como alternativa, sugere-se a utilização de linhas com cones demarcatórios que separem o campo em três corredores (dois laterais e um central). Como orientação da atividade, no corredor central permite-se apenas passes para o lado e para trás. Já nas laterais, permitem-se todos os movimentos.

Figura 2: Coletivo orientado ao treinamento da construção do processo ofensivo pelas beiradas

Na sequência, ao pensar na progressão da carga de treinamento, a adoção de regras técnicas para o coletivo pode permitir, além da maior propensão das atividades aos comportamentos objetivados, a utilização do coletivo em diferentes momentos do processo de treinamento, e adequados ao momento da aprendizagem. Como exemplo, sugere-se:

1: limitação do número de toques na bola no corredor central, dificultando ainda mais a progressão pelo meio.

2: aumento do número de adversários no corredor central, dificultando a adoção de comportamentos associados à condução da bola no corredor central.

3: Utilização de curingas, presentes nas laterais do campo de jogo, impedindo que a bola saia do terreno de jogo e aumente o tempo efetivo da atividade.

Considerações Finais

O coletivo, como qualquer outra atividade de treino, deve ser planejado com vistas à melhora do desempenho dos atletas. A utilização das mesmas configurações de atividades 11×11 ao longo de todo o processo de treinamento não permite a correta evolução do comportamento tático coletivo da equipe, objeto do trabalho dos treinadores. Neste âmbito, sugere-se a adoção de regras de limitação de toques na bola, redução do espaço de jogo, aumento no número de jogadores de forma a conferir especificidade do coletivo em relação aos Princípios de Jogo a serem treinados bem como potencializar a propensão das atividades ao aparecimento das condutas critério dos treinadores.

 

REFERÊNCIAS

1. MARTIN D, CARL K, LEHNERTZ K. Manual de Teoria do Treinamento Esportivo. São Paulo: Phorte; 2008.

2. HILL-HAAS SV, DAWSON B, IMPELLIZZERI F, COUTTS AJ. Physiology of Small-Sided Games Training in Football – A Systematic Review. Sports Medicine. 2011;41(3):199-220.

3. GARGANTA JM, GRÉHAIGNE JF. Abordagem sistêmica do jogo de futebol: moda ou necessidade? Movimento. 1999;5.

4. TAMARIT X. Que és la periodización táctica? Vivenciar el juego para condicionar el juego. 2007.

5. SILVA MV, PRAÇA GM, TORRES CG, GRECO PJ. Comportamento tático individual de atletas de Futebol em situações de Pequenos Jogos. Revista Mineira de Educação Física – Viçosa. 2013;Edição Especial(9):676-83.

6. AGUIAR M, BOTELHO G, LAGO C, MACAS V, SAMPAIO J. A review on the effects of soccer small-sided games. Journal of Human Kinects. 2012;33:103-13.

7. DAVIDS K, ARAUJO D, CORREIA V, VILAR L. How small-sided and conditioned games enhance acquisition of movement and decision-making skills. Exercise and sport sciences reviews. 2013;41:154-61. 

Comentários

Deixe uma resposta