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09/07/2014

O desastre de Belo Horizonte

Aquilo foi uma assombração, um vendaval de sombras e alucinação: nunca se vira um afundanço tão súbito e fulminante! E eis que dos fundos da memória emergiu, como um cavalo alado do Apocalipse, mais um trauma que vai demorar a exorcizar, se não ficar armazenado para sempre nos côncavos da memória deste povo que, assim, parece condenado a transportar no sangue o veneno inoculado pela sua singular paixão pelo futebol.

É que não há paixão sem a dramática basculação entre os extremos: entre as nuvens e a lama! E veja-se como bastou um instante alucinado para esse trânsito entre o umbral do céu e da glória e as profundezas medonhas do inferno e do desespero!

O mundo fenomenológico, isto é, o da nossa experiência terrena, ancorado na dimensão espácio-temporal, caracteriza-se, como sabemos, pela polaridade, pela dualidade – e, claro, quanto mais nos vivenciamos colados ao que julgamos ser o império despótico dos sentidos mais sujeitos ficamos às sacudidelas provocadas por esse insano e dramático jogo dos contrários.

Só há uma via para o porto seguro: determinar o que vemos em vez de sermos determinados pelo que julgamos ver. Se o mundo é o e efeito do que pensamos, só mudando o que nos baila na mente poderemos contemplar um mundo em que saiba bem bailar e dançar o “forró”. Sim, que nós vemos fora o que sentimos por dentro – e esta tese é essencial para nos ajudar a compreender a tempestade de “raios e coriscos” que se abateu sobre o Mineirão.

Vejamos, então: algumas das cadeiras vazias que foi possível descortinar no anfiteatro do jogo seriam, quem sabe, de algumas das vítimas do colapso de um dos viadutos de acesso justamente ao estádio ocorrido poucos dias antes. Ora, este colapso dos materiais surge facilmente aos nossos olhos como a metáfora do colapso anímico da selecção brasileira frente à Alemanha. Foi a ânsia de ter que acabar a tempo as obras que gerou a pressa e o improviso: quando se funciona por impulso o mais certo é que choquemos contra o muro que essa pressa nos ocultou – que é da sua natureza cegar quem a ela se rende! Há sempre um tempo bom, um kairós, para fazer as coisas – e quando é fora desse tempo certo que as tentamos fazer quase sempre as desfazemos – ou elas se desfazem.

Vamos então indagar de algumas das causas do terramoto de Minas Gerais e tentar saber por que soçobrou assim tão estrepitosamente a celebrada e idolatrada selecção de um país que ama tão ardentemente este fantástico desporto.

Desde logo porque resulta pesado de mais jogar contra tantos adversários ao mesmo tempo: e o Brasil não jogou só contra a Alemanha, já de si, respeitável contendor; jogou também, diria mesmo, sobretudo, contra os seus próprios fantasmas – desde o Maracanazo de 1950 até aos gritos em êxtase de toda uma nação a exigir o céu. E já se sabe que quem luta contra algo ou alguém corre sempre o risco de por esse algo ou alguém ser vencido!

Não faltará, com efeito, quem encontre exclusivamente as razões do fiasco no que classificam de primarismo táctico da equipa brasileira. Sem dúvida que também, mas não só: creio que o que determinou o abalo em cadeia foi um outro primarismo – o emocional.

Quando o desejo de algo é demasiado confinado e intensamente focado, ele quase sempre envenena e cega quem por ele assim se deixa possuir.

Quando o desejo, que se requer sereno e aberto, vira obrigação, ele quase sempre paralisa. Quando o desejo é tão transcendente e crucial que tudo se coloca em termos de “vida ou morte” eis que se digladiam duas possibilidades dramaticamente antagónicas, mas com vantagem para a ameaça de morte – que é mais vívido em nós o rasto do fracasso do que o do sucesso: ela tolhe e condena!

O que vergou o Brasil? O poder insuportável das expectativas – as de toda uma imensa e apaixonada nação, a pressão quase celebrativa dos poderes do Estado, um discurso motivacional porventura demasiado focado no objectivo e, por via disso, acentuador do perigo de o falhar e já se sabe que quando se quer muito só uma coisa, tudo o resto será excluído – e há tantos modos de se ser feliz!

Uma das leis do sucesso é justamente a lei do desapego: permitir que as coisas fluam em abundância e em variedade, em vez de querermos forçar uma coisa apenas ao nosso acanhado ângulo de observação.

Como quando se tem prisão de ventre ou se sofre de insónias: quanto mais nos centramos no problema mais o problema se agrava. Só há uma solução para o insone: cair em si e deixar a mente repousar – adormecerá sem disso se dar conta, pois adormecer é desligar deste mundo, um mundo que temos em demasiada conta!

As pessoas, e não é só o povo pouco letrado, continuam ainda a pensar que é bom motivador o treinador que enche a mente dos atletas, quando é, pelo contrário, aquele que a esvazia, pois é do vazio que emerge o que, como novidade, nos realiza. Não é enchendo, mas esvaziando a mente – só assim o genuíno e real poder se manifesta. E eis-nos de fronte de uma outra importante lei do sucesso, a lei do potencial puro: o silêncio mental cria o vazio de todas as possibilidades, colocando-se em genésica sintonia com o poder criativo do universo.

Focar-se demasiado na imperatividade, na necessidade de ganhar implica o insidioso e contraditório medo de perder – é o que resulta invencivelmente da memória que transportamos da nossa dolorosa experiência de vida. É a conhecida mecânica do fenómeno que entre os psicólogos é conhecido como o da “profecia auto-realizada”.

Reitero: o Brasil sucumbiu ao peso inaudito das expectativas, como já sucedera a Portugal em 2004 e sintomaticamente com os mesmos protagonistas ao leme… ou como pode muito bem vir a acontecer ao Benfica se o discurso continuar a ser o de se focar na altura da fasquia em vez de olhar para dentro e alimentar o poder de formar o salto para a devida transposição.

Uma nota de conforto: a vida é processo e são sábios os seus desígnios. Tenho a certeza que esta pesada derrota vai gerar amanhã renovadas vitórias.

Condições? Mente aberta de todos e sábia dedicação ao trabalho, porque a fórmula da sorte é a conjugação de oportunidade e preparação.

*José Antunes de Souza é professor universitário português e autor do livro "Desporto em flagrante".
 

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