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21/03/2016

O futebol brasileiro não precisa de heróis e vilões. Precisa de ideias e debate

O esporte mais popular do país anda mal das pernas, mas não acabou com os 7 a 1 do Mineirão

No Brasil dos dias de hoje quase tudo que se discute descamba para o dualismo fundamentalista. Ou você é do bem ou é do mal. Tudo depende de quem pensa ou não como você. O futebol não poderia escapar dessa armadilha tão brazuca. Preso a esse conceito que flerta com o fanatismo sectário o esporte – ainda – mais popular do País deixa de ser debatido com a seriedade e profundidade que precisa e merece.

O que vem sendo feito de errado há tanto tempo é de tal forma cristalino que não carece de demonização de pessoas e propostas. Assim como a santificação de ideias e defensores pouco ou nada contribui. O futebol brasileiro anda mal das pernas, mas não acabou com os 7 a 1 do Mineirão. Decretar que nada de bom existe em todas as esferas do futebol nacional é um equívoco perigoso – assim como negar que há muita, mas muita coisa errada e há muito, mas muito tempo.

Embora tente transmitir uma imagem de mudança e passar à opinião pública a mensagem de que está aberta ao debate e a novas ideias, a CBF segue prisioneira de pensamento e métodos cartesianos. Ao inventar uma comissão de notáveis para debater ideias e propostas para seu produto, a entidade parte da premissa de que abre suas janelas para entrada de ar fresco. Mas no fundo permite a entrada apenas do mesmo ar que vem sendo respirado há tempos, ao convocar um time formado por uma massa de apoiadores históricos e defensores do modelo vigente e evitar o confronto de ideias que poderia acontecer de forma saudável se fossem chamados ao debate personagens de pensamento diametralmente oposto e com visões antagônicas. Somente desse choque de propostas surgirão ideias efetivas. Quando estão à mesa partidários de uma mesma forma de pensar não há debate, apenas confirmação e perpetuação.

Perde-se tempo e energia preciosos no futebol brasileiro com o chamado desvio de foco. Quase sempre divididos por interesses individuais e necessidades urgentes provocadas por péssimas administrações, os clubes perdem força. Trazem para a discussão temas de arquibancada e boteco e deixam passar generosas oportunidades de entendimento ou, pelo menos, discussão de novas propostas.

A maioria dos clubes de futebol do Brasil tenta vender uma imagem de penúria, falta de apoio, abandono e desvalorização. Nos últimos 20 anos o futebol brasileiro recebeu investimentos como nunca antes. O dinheiro jorrou farto, vindo de cotas de TV, patrocínio de camisa, bilheteria, programas de sócio torcedor, marketing, venda de atletas. Quantos foram os clubes que efetivamente se aproveitaram desse momento, sanearam suas finanças e modernizaram suas administrações? Quantos se desvincularam da prática do mecenato? Certamente uma minoria. Quantos aumentaram suas dívidas e se penduraram em empréstimos bancários e negociações nas quais tiveram de abrir mão de generosas fatias de seus principais ativos em termos de mercado: os atletas?

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Ao decretar verdades absolutas alguns debatedores sufocam o debate. Conceitos como “espanholização” ganham as redes sociais e quase nunca chegam acompanhado de dados e pesquisa sérios, relativizados. Pelo contrário. O modelo briga de arquibancada se impõe e a oportunidade se perde. Os pontos discordantes em termos de calendário seguem pelo mesmo caminho. Eu, por exemplo, sou radicalmente contra a adequação de nosso calendário ao das grandes ligas europeias. Mas procuro ouvir com atenção quem é favorável. Porque sou contra? Porque acredito que o mundo tem suas diferenças e particularidades e o futebol não está acima delas. Inclusive da questão geográfica, dos hemisférios, das estações do ano etc. Porque o calendário da Espanha tem esse formato, alguém já se perguntou? Simplesmente porque segue calendários importantes para aquele país, entre eles o escolar e o parlamentar, por exemplo. Além de evitar jogos nos meses mais quentes do ano e preservar o verão para as férias dos atletas profissionais, como quase sempre ocorre em qualquer país com grandes variações de temperatura.

Se alguém acha sinceramente que simplesmente atrelar nosso calendário ao dos maiores clubes do planeta resolverá alguma coisa, porque então não funcionou na Argentina? Ou não seria mais produtivo buscar uma solução que atendesse aos interesses dos clubes brasileiros dentro da realidade brasileira em termos de calendário? Porque se fosse fácil permito-me uma analogia: se adotássemos a mão inglesa na direção nosso trânsito alcançaria níveis ingleses ou japoneses de segurança? Duvido, porque a falta de educação continuaria vigente, trafegando pela direita ou pela esquerda. Não se pega a realidade de países de pequena extensão territorial e grande desenvolvimento humano da Europa e simplesmente se procura encaixá-la no Brasil. Como se fosse uma brincadeira de mapas, ao sobrepor o da Espanha e da Inglaterra, por exemplo, ao nosso, sobraria um espaço continental. Espero que a analogia seja compreendida.

Outro ponto que viralizou: nossos treinadores estão ultrapassados. Será? Todos eles? Porque não prestar mais atenção em trabalhos interessantes que estão sendo feitos, não apenas por figuras estelares, mas em equipes de menor expressão e nas categorias de base? Existe muita gente sintonizada com o que há de mais moderno em termos de treinamento e tática e procura “traduzir” essa informação em conhecimento adaptado à nossa realidade.

A alma nacional anda tão contaminada pelo espírito de chimangos contra maragatos (referência ao Sul, que sempre traz boas ideias e mostra Grêmio e Internacional buscando seus caminhos mesmo sem estar no epicentro econômico e político) que o bem e o mal estão claramente determinados em alguns debates e debatedores. Boas ideias chegam do Nordeste, com exemplos de reconstrução como o Santa Cruz e de consistência como o Sport. Além de desejos sinceros de mudança de conceito como o Bahia, por exemplo. Infelizmente, alguns debatedores e formadores de opinião se arvoram profetas da guerra santa e partem para uma cruzada suja que joga no mesmo balaio estratégia empresarial e opinião individual. Sempre buscando refúgio na memória seletiva. Covardia.

Não existe verdade absoluta e nem solução definitiva. Para preservar os atores e estrelas do espetáculo é preciso ouvir o amplo espectro do negócio. Todos os jogadores, com o perdão da redundância temática, devem participar amplamente, colocar suas necessidades, desejos e buscar uma solução ampla e adequada à nossa realidade. Respeitando diferenças de clima, sotaque e propostas.

É uma ilusão acreditar que não existirão times grandes, médios e pequenos, equipes de maior torcida e apelo financeiro, político e midiático. É assim no mundo todo. A Juve é odiada por quase todos os demais torcedores da Itália por isso. O Real Madri na Espanha, idem. O Barcelona ainda goza de uma espécie de licença poética pelos tempos de resistência catalã, mas seu poderio incomoda tanto quanto o do grande rival. Na França praticamente não existe mais disputa. Que dirá da Alemanha? Em quase todas as grandes nações do futebol há dois, três, quatro times disputando títulos. Grandes fortunas individuais e gigantescas corporações (algumas com conexões perigosas) estão dominando o mercado. O Brasil tem pelo menos 12 grandes clubes de expressão nacional. Ainda conta com um fenômeno local que são os grandes clubes de expressão regional. Em vez de criar problemas isso deveria ser saudado como uma grande oportunidade para melhorar e profissionalizar métodos e torneios e distribuir melhor a geração de riqueza. Nos últimos 25 anos, 11 clubes diferentes venceram o Campeonato Brasileiro. Em igual espaço de tempo, 15 equipes diferentes conquistaram a Copa do Brasil. Impossível não tirar desses dados uma lição de produtividade.

Essa riqueza não pode fugir aos olhos de quem debate. O clima de guerra santa provoca cegueira intelectual e apaga a chama do pensamento claro e das boas ideias. A mudança urge, mas precisa vir de um debate amplo, geral e irrestrito. Sob pena de, ao propor heróis, surgirem novos vilões.

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