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06/05/2015

O futebol de base no cone-sul: uma breve comparação entre Brasil e Uruguai

Este texto traz observações de campo realizadas no Brasil e no Uruguai em treinamentos e campeonatos disputados por clubes e seleções de futebol de base. O recorte utilizado traz a peculiar passagem entre as categorias infantil e juvenil, na prática do sub 15 ao sub 17. É nessa idade, chamada aqui de “maioridade futebolística”, que um garoto aspirante ao profissionalismo pode assinar o primeiro contrato, aos dezesseis anos. Além disso, dentre os inúmeros degraus que um garoto precisa subir na construção de uma trajetória no universo do futebol de base este é, sem dúvida, de grande importância, já que pode definir sua situação por um considerável período de tempo. Trazemos aqui alguns eventos que mostram atletas de ponta no futebol de base nos dois países citados, ambos reconhecidamente relevantes no cenário de produção de jovens atletas.

Sabe-se como brasileiros e uruguaios se diferem culturalmente, embora vizinhos. Uma contribuição deste texto talvez esteja exatamente aqui: em tentar explorar e mostrar como semelhanças e diferenças na forma de fazer futebol nos dois países saltam aos olhos a partir de uma visão etnográfica. Embora muito diferentes, ao menos no que toca ao número de atletas que se mantém nas seleções nacionais de base ao longo dos anos o saldo entre brasileiros e uruguaios é o mesmo. Estamos falando de um país com pouco mais de três milhões de habitantes e outro com uma população setenta vezes maior. Vejamos se podemos entender as razões de tamanhas semelhanças e diferenças.

No Brasil a Confederação Brasileira de Futebol dedicou-se a organizar um trabalho conjunto entre as comissões técnicas das três seleções de base (sub 15, sub 17 e sub 20) em 2010. Este trabalho teve início quando de um novo ciclo na seleção brasileira, após a eliminação na Copa do Mundo da África do Sul e a troca de Dunga por Mano Menezes no cargo principal de técnico. O discurso anunciado indicava que a entidade que comanda a seleção nacional e organiza o futebol brasileiro em grande medida procurava algo até então inédito: um trabalho conjunto, ordenado e unificado, buscando modelar a formação de jogadores de futebol na seleção brasileira. Como? Foram organizados alguns seminários, encontros e palestras através da figura de Ney Franco – treinador do sub 20 e coordenador geral da base da seleção – que recebeu diversos treinadores do futebol nacional na sede de treinamentos da CBF, em Teresópolis-RJ. A experiência e o conhecimento do trio composto ainda por Marquinhos Santos (sub 15) e Émerson Ávila (sub 17), dizia-se, permitiria a troca de vivências e informações sobre os atletas e, sobretudo, sobre futebol de base. Eles visavam conhecer mais a fundo os campeonatos, os atletas e as categorias. Comentou-se entre os especialistas que o projeto representava um início, um começo de trabalho que buscava algo já realizado em vários outros países: no próprio Uruguai, onde conhecemos de perto o projeto e o apresentaremos na sequência, na Espanha, nos EUA, na Coréia do Sul, na Alemanha (que em 2008/09, venceu simultaneamente os Campeonatos Europeus sub 17, sub 19 e sub 21, feito inédito) e na França. Esta foi a primeira vez que a CBF contratou, sob regime legal trabalhista, treinadores para suas seleções de base. Antes o que havia eram acordos quase que informais e o que mais se parecia a uma lotação de cargos, principalmente de treinadores, que aí sim montavam o restante de sua equipe de trabalho, cargos esses ocupados por curtos períodos de tempo.

Porém, nem dois anos após o início, Ney Franco foi liberado e contratado pelo São Paulo FC para ser o treinador da equipe profissional. Em setembro foi a vez de Marquinhos Santos, que assumiu o Coritiba FC. Émerson Ávila permaneceu como único treinador e em novembro do mesmo ano, com dois meses de antecedência, soube que seria o comandante da equipe sub 20, à qual nunca havia treinado, durante a disputa do torneio sul-americano em janeiro de 2013. Tratava-se de uma competição muito importante, pois os quatro primeiros colocados conquistariam vaga para o mundial da categoria. O sub 20 representa o último estágio antes do profissionalismo no futebol, ainda que muitos atletas menores de vinte anos já tenham atingido esse estágio. O Brasil foi eliminado ainda na primeira fase. Em fevereiro de 2013 a CBF anunciou a contratação de Alexandre Gallo, ex-jogador profissional e agora treinador com passagens por doze clubes brasileiros – além de um japonês e outro dos Emirados Árabes Unidos. Para a coordenação efetivou-se Bebeto, ex-atacante e atual deputado estadual (PDT-RJ), além de membro do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014. Alegando conflito entre seus interesses e compromissos, Bebeto deixou o cargo um mês depois, função esta que permaneceu vaga. Na realidade, Gallo assumiu as funções de coordenador geral das seleções de base e treinador das equipes sub 17 e sub 20 e Caio Zanardi foi escolhido para comandar a sub 15.

No Uruguai temos um cenário completamente diferente. Acompanhados desde 2011, nossos vizinhos mantém um programa em funcionamento desde 2005, quando Óscar Tabarez assumiu o comando da seleção principal. Organizou-se uma equipe que coordena um projeto chamado “Institucionalización de los Procesos de las Selecciones Nacionales y de la Formación de sus Futbolistas”, que é baseado em seis áreas-chaves: tática, física, técnica, psicológica, médica e social. As três categorias estão integradas à equipe adulta e, inclusive, ocupam o mesmo espaço físico: o Complejo Deportivo Celeste, uma sede muito bem estruturada nos arredores da capital Montevidéu e que recebe jogadores de todo o país semanalmente. O projeto pressupõe que as seleções de base estejam reunidas durante cerca de cento e vinte dias no ano, treinando, experimentando e conhecendo novos jogadores. As comissões técnicas também são mantidas e vão se movendo pelas categorias juntamente com seus jogadores. Assim aconteceu com um de nossos personagens, o treinador Fabian Machado, que em 2011 dirigia os infantis e agora ocupa o comando do sub 20.

Esse trabalho é facilitado para, na verdade, suprir uma dificuldade: o Uruguai não é um país populoso, ao contrário: com somente 3 milhões de habitantes é notável que tenha conseguido tanto sucesso na história do futebol mundial. Porém, outra peculiaridade geográfica ajuda na produção de novos futebolistas: mais da metade dos habitantes vive na capital e cercanias e praticamente todos os clubes do país têm sede em Montevidéu, o que facilita a observação e captação dos atletas. Por isso podem recebê-los de duas a três vezes por semana em seu centro de treinamentos e treiná-los seguindo a filosofia do projeto citado. No caso brasileiro, como reclamou o treinador Gallo em conversa durante a preparação de sua equipe sub 17 para o Mundial da categoria (outubro/novembro 2013, Emirados Árabes Unidos), não é possível reunir os atletas mais do que trinta dias no ano. Somente em véspera de competições é que se pode contar com jogadores que vêm de todas as regiões do Brasil. Os custos para se manter uma equipe em trabalho permanente impedem que se copie outros modelos que, em todo mundo, tem se dedicado a racionalizar a formação de novos futebolistas. E os resultados têm aparecido, basta vermos as dificuldades enfrentadas por equipes brasileiras em competições de base: se antes dominávamos torneios e ganhávamos inúmeros títulos, hoje enfrentamos adversários em pé de igualdade, mesmo quando se tratam de países que não tem a mesma tradição que o Brasil nesse esporte. Os EUA conseguem manter seus atletas num único lugar durante incríveis trezentos dias no ano. Oferecem escola e alojamento, além de todas as atividades ligadas à prática futebolística.

No que se refere aos clubes, não há diferenças significativas em relação à metodologia aplicada. Dos que foram visitados (os uruguaios Danubio e Nacional e os brasileiros Vasco da Gama e Atlético Paranaense) todos mantém um número base de atletas em treinamento (entre trinta e cinco e cinquenta, a depender da época do ano e se consideramos os que estão em teste e que, portanto, ainda não tem vínculo legal com o clube). O que se diferencia é a estrutura física, já que alguns clubes possuem centros de treinamentos muito equipados e exclusivos para suas categorias de base e outros tem de alugar um espaço ou contam com estruturas provisórias. Obviamente, como comentado, a circulação de jogadores num clube brasileiro é muito superior ao que se vê entre os uruguaios, pois nossa população e território são muito maiores. O número de competições que preenchem o calendário de uma equipe brasileira também pode ser maior.

Considerando os torneios sul-americanos sub 15 de 2011e sub 17 de 2013, que na prática abarcaram a mesma geração de atletas – aqueles nascidos em 1996-1997 – mantiveram-se no elenco brasileiro oito atletas; entre os uruguaios, nove, mas se considerarmos os que disputaram o Mundial da categoria, em 2013, oito jogadores foram mantidos desde 2011 em ambas as equipes. Ou seja, se pensarmos no aproveitamento do trabalho que é realizado nas duas seleções, este é rigorosamente o mesmo. A diferença é que as seleções brasileiras de base não são formadoras de jogadores, ou ao menos não se preocupam com isso, como já declararam publicamente treinadores que ocuparam seus cargos, seja na base, seja na principal. Quando perguntado sobre o que achava do papel das seleções brasileiras de base no processo de formação de futebolistas, o técnico da equipe principal, Luiz Felipe Scolari, respondeu: “Não somos formadores de atletas” (declaração dada ao Portal Terra em janeiro de 2013). Na opinião dos que comandam o futebol da CBF, as seleções de base representam o futebol do país em instâncias anteriores ao futebol adulto/profissional e buscam resultados positivos, à despeito do que pode acontecer, de fato, com a carreira de um jovem futebolista. Não pagam para contar com os atletas, que deixam seus clubes e suas rotinas temporariamente para defender as cores da camisa amarela do Brasil. No Uruguai ocorre o contrário: a seleção, seguindo um projeto encabeçado pelo treinador da equipe principal, participa conjuntamente com os clubes no processo de formar novos futebolistas. A fala do coordenador do projeto, Eduardo Belza, é emblemática e ilustra bem a situação:

“digamos que surja um bom goleiro uruguaio. Fazendo uma conta rápida que, se não exprime a realidade com precisão, faz algum sentido, temos sessenta possíveis bons goleiros no Brasil para aquele uruguaio que apareceu. Se surge outro bom goleiro no Uruguai, são cento e vinte no Brasil! A chance de encontrar um garoto que reúna uma boa condição técnica e condições físicas privilegiadas é muito maior em seu país”.

Nos dias atuais percebemos como o ambiente futebolístico mundial tem se mostrado cada vez mais competitivo. Antes lócus privilegiado de alguns países com enorme tradição neste esporte – sobretudo sul-americanos – hoje vemos a dedicação e racionalidade impostos pelos europeus na maneira de fazer futebol, algo que vem sendo copiado em todo o globo. Para se ter um futebol profissional forte é preciso estruturar o futebol de baixo, aquele que antecede o chamado “futebol de espetáculo”. Em tempos de derrotas doloridas e tabus quebrados, o futebol brasileiro precisa se abrir a novas metodologias e se render a humildade que nunca nos havia batido à porta.

*Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS-UFSCar) e atualmente doutorando em Antropologia Social pelo mesmo programa. O artigo traz alguns dos assuntos abordados no desenvolvimento do projeto intitulado “Sobre a valorização do talento: uma etnografia do dom no futebol”, financiado pela FAPESP e desenvolvido junto ao PPGAS-UFSCar. 

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