Universidade do Futebol

João Paulo Medina

27/10/2005

O futebol diante das adversidades

Horácio, um poeta latino que viveu alguns anos antes de começar a Era Cristã (65 a.C. – 8 a.C.) já naquela época alertava que “a adversidade desperta em nós capacidades que, em outras circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas”.

 

Outro dia, assistindo a um programa de televisão que mostrava um trabalho voluntário sobre ação social com detentos, me impressionou o depoimento de uma ex-presidiária, afirmando que sua experiência de trabalho com comercialização de produtos artesanais havia salvado sua vida, tirando-a de uma rotina de 27 anos como traficante de drogas. Chegou a afirmar que a prisão tinha sido uma benção para ela, pois concluiu que muito provavelmente não estaria viva, hoje, se continuasse no mundo do crime.

 

A frase sobre adversidade de Horácio e a conclusão da ex-detenta me levam a refletir um pouco sobre a situação da seleção brasileira. Embora feliz pelos resultados e pelo desempenho que nossos craques têm alcançado nos últimos tempos, preocupa-me o ambiente de exagerado otimismo, euforia e ufanismo que toma conta de todo ambiente futebolístico nestas ocasiões de sucesso.

 

Como amigo de alguns dos membros da comissão técnica da seleção brasileira, sei que eles estão atentos a estes aspectos e já planejam alguns trabalhos que contraponham os efeitos de qualquer exagero de autoconfiança, que pode desembocar num relaxamento na preparação para a Copa do Mundo na Alemanha.

 

Isto seria desastroso para uma competição tão curta como esta. Depoimentos de alguns jogadores mais experientes mostram que, pelo menos nas palavras, eles estão preocupados com este assunto.

 

E é bom que estejam preparados mesmo, pois a história das Copas nos apresenta que ao disputarmos esta competição com amplo favoritismo, o resultado não foi o que desejávamos. Ao contrário, quando a seleção brasileira parte para a Copa, carregada de desconfianças e até desacreditada, parece que a mobilização interna entre os jogadores e a comissão técnica aumenta, dando mais seriedade e foco aos nossos representantes.

 

Torço para que as principais lideranças que conduzem o trabalho da seleção brasileira de futebol, que tanto significado simbólico tem para todos nós, continuem a trabalhar esta questão. Afinal, não apenas os jogadores de futebol costumam se acomodar, quando falta o estímulo da cobrança em um cenário com poucas adversidades. Todos nós humanos, em diferentes graus, somos assim, não é mesmo? 

 

Para interagir com o autor: medina@universidadedofutebol.com.br

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