O futebol explica a vida: ou as bases para uma sociologia a partir do jogo

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“… o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direção quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princípio é só o princípio…”

José Saramago – A Caverna

 

Na clássica obra, que perpassa as raízes bibliográficas da Educação Física, Homo-Ludens, seu autor, Johan Huinzinga, logo nas páginas prefaciais afirma ser o jogo anterior ao homem, conseqüentemente, não advindo assim do processo de civilização a qual passou a humanidade ao longo de sua continua evolução. A cultura humana em nada acrescentou a essência do jogo, pelo contrário, para Huizinga: “… é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”.

 

Logo, segundo Huizinga, sendo o jogo anterior ao homem, o é também anterior à cultura, que, por conseguinte, resulta e se desenvolve a partir do jogo. Porém existe outra tese, segundo Caillois, diametralmente oposta, que defende ser o jogo não o princípio, mas sim decorrente de degradações progressivas das atividades sérias dos adultos. Seria, então o jogo proveniente da cultura.

 

Ao abordar essas duas teses, Roger Caillois, diz que, para Huinzinga: “(…) o espírito do jogo está na origem de fecundas convenções que permitem o desenvolvimento das culturas. Estimula o engenho, o esmero e a invenção. Simultaneamente, instrui sobre a lealdade para com o adversário e dá o exemplo de competições onde a rivalidade não sobrevive ao recontro. (…) Aprende a construir uma ordem, a conceber uma economia, a estabelecer uma equidade.”

 

Já a tese que se encontra no extremo oposto da citada acima, é mais popular, diz Caillois, e, de certa maneira, amplamente disseminada pela opinião pública em nível de senso comum, ou obviedade empírica. Ela parte do seguinte princípio evidente: os jogos são sistematicamente apresentados como degradações das atividades dos adultos que, tendo perdido a seriedade, descem ao nível de distrações anódinas.

 

Num passo seguinte, Caillois, levanta um número considerável de exemplos para defender cada uma das teses, como as zarabatanas, os arcos, as pipas, as máscaras, entre outros que podem confirmar o desuso pelo adulto, nas suas atividades sérias, para o uso pela criança, em suas atividades lúdicas. Todavia, ao mesmo tempo em que surgem exemplos que comprovam a tese mais popular, encontra-se, num mesmo número, uma infinidade de jogos que não esperaram a degradação adulta para existirem, como, por exemplo, os jogos imobiliários, as pistolas de água…

 

Roger Caillois continua: “… não está de forma alguma confirmado que as crianças pré-históricas não jogassem com arcos, fundas e zarabatanas improvisados, na altura em que os respectivos pais os usavam, ‘a valer’ ou ‘a sério’, como se diz, de maneira bem reveladora, em linguagem infantil. Duvido que tenha sido necessária a invenção do automóvel para se brincar às diligências. O jogo Monopólio reproduz o funcionamento do capitalismo, não lhe sucede.”

 

Assim, ao mostrar que uma atividade séria não se degrada a ser imitada e transformada em divertimento pelas crianças, faz com que a tese popular seja facilmente combatida e criticada, o que não quer dizer que a proposição apresentada por Huizinga seja a vencedora e detentora da verdade, mesmo que científica, pois ao se dizer que tudo advém do jogo, ou melhor, que tudo é jogo, corre-se um enorme risco de seus dados (afirmações) deixarem de ser fidedignos, devido a amplitude superficial que o conceito os eleva.

 

Desse modo, Caillois, implica um desfecho ao embate ideológico, dizendo ser de menor importância o fato de se tentar descobrir quem precedeu quem, o jogo ou a atividade séria – cultura -, mas sim, para além de uma abordagem pretérita, o autor propõe um estudo sociológico a partir do jogo, o que permitirá prever o destino das culturas.

 

Nas próprias palavras do autor: “(…) persuadido de que existe, forçosamente, entre os jogos, os hábitos e as instituições relações estreitas de compensação e de conivência, parece-me razoável investigar se o próprio destino das culturas, a sua hipótese de sucesso e o seu risco de estagnação não estarão, igualmente, incluídos na preferência dada a uma ou a outra das categorias fundamentais em que considerei possível dividir os jogos, diferentes que são na sua fecundidade. Melhor dizendo, não esboço simplesmente uma sociologia dos jogos. A intenção é lançar as bases de uma sociologia a partir dos jogos.”

 

Com base nas proposições expostas por Caillois de que por meio do jogo se pode vislumbrar
a cultura de uma dada sociedade, pode-se dizer que jogo e cultura são contíguos e se encontram justapostos, ou seja, mantêm íntimas relações de cumplicidade.

 

O jogo advém da cultura ao mesmo tempo em que a estabelece em meio às significações e convenções produzidas pelo homem. O jogo é produto e processo cultural.

 

Ou, sinergicamente, nas palavras de outro renomado estudioso do jogo, Gilles Brougère: “O jogo (…) trata-se de fato de um ato social que produz uma cultura (um conjunto de significações) específica e ao mesmo tempo é produzido por uma cultura.”

 

Portanto, com isto posto, cabe-me, balizado por tal conjetura, fornecer ao meu amigo Gheorge Randsford os subsídios teóricos para sua celebre afirmação de que o futebol explica a vida.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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