Universidade do Futebol

Gepeff

01/06/2009

O futebol nas aulas de educação física escolar: proposta pedagógica baseada em João Batista Freire

“Quando vejo uma criança, ela me inspira dois sentimentos, ternura pelo que ela é, e respeito pelo que pode ser”.
 
Jean Piaget
 
 
Para Freire (2006), o futebol brasileiro foi gerado nos centros urbanos, onde se jogavam as famosas “peladas” nas chamadas várzeas. Com o processo de urbanização nas grandes metrópoles brasileiras, essas várzeas onde as crianças brincavam e jogavam bola foram desaparecendo. Então, as crianças que viviam nas grandes cidades encontraram nas quadras de futebol de escolas, clubes, condomínios, igrejas e locais possíveis para a prática, um refúgio para brincar e jogar bola, orientadas por professores ou não.
 
Na rua e nos “rachas” no campinho as crianças são livres, agem segundo a sua determinação, criam seu mundo de fantasias. Todo mundo ensina todo mundo, criança ensina criança, mais velho ensina mais novo. Até demonstram malícia e crueldade.
 
Como afirmamos anteriormente, o futebol é um fenômeno urbano, que era jogado na rua. Devido à eliminação desses espaços onde praticavam brincadeiras referentes ao futebol, com frequência cada vez maior, os alunos chegavam às escolas sem a experiência adequada, o que não permitia uma base para desenvolver suas habilidades esportivas. Portanto, a escola deve trabalhar as formas básicas de movimentos para enriquecer a motricidade da criança ou do adolescente.
 
Como apresenta Freire (2006, p.08), “escola não é rua e nunca será demais repetir isto. Professores são profissionais especialistas em ensinar e devem se orientar por idéias, teorias, princípios”, sem desconsiderar conhecimentos trazidos pelo aluno.
 
Concordamos com o mesmo autor em trabalhar com quatro princípios básicos norteadores: ensinar futebol a todos, ensinar futebol bem a todos, ensinar mais que futebol a todos e ensinar a gostar do esporte.
 
As práticas comuns do futebol na várzea, nos clubes ou nas escolas, costumam dar atenção somente para os mais habilidosos. O futebol deve ser ensinado a “todos”, “[…] de modo que aqueles que já sabem jogar futebol devem ser orientados para aprender a jogar melhor; aqueles que sabem muito pouco ou nada de futebol devem receber toda a atenção até que aprendam, no mínimo, o suficiente” (FREIRE, 2006, p.9).
 
É preciso ensinar futebol bem a todos. O autor acredita que todos podem jogar futebol de qualidade, alguns em menor, outros em maior tempo. Todo processo pedagógico exige paciência, mas se ensinarmos o mesmo, bem a todos, os alunos mostrarão habilidades para jogar futebol.
 
Além disso, devem ensinar mais que futebol a todos, mas também promoverem atividades onde os alunos aprendam a conviver em grupo, construir regras, discutí-las e até discordar, podendo mudá-las, para que haja uma rica contribuição para seu desenvolvimento moral e social. Contribuir para o desenvolvimento da inteligência do aluno, não pensando apenas no craque, mas em sua condição humana; discutir sobre os acontecimentos da aula, colocando-o em situações desafiadoras, estimulando-o a criar suas próprias soluções para situações- problemas e falar sobre elas, levando-o a compreender suas ações.
 
Devemos ensinar ao aluno gostar do esporte, ensinar o futebol com brincadeiras, com diversão, com carinho, com atenção, com liberdade, pois antes de qualquer ensinamento, o aluno precisa aprender a gostar do que faz, sem precisarmos enganar os alunos com promessas de um futuro glorioso e levá-los a engolir treinamentos exaustivos, práticas desagradáveis, tristes, repetitivas ou autoritárias e fazer com que acreditem que isso os transforme em futuros craques. É fácil entender que o aluno costuma gostar mais daquilo que lhe é prazeroso do que aquilo que lhe causa sofrimento.
 
Saber ensinar as crianças de uma maneira simples e de fácil entendimento, para que elas gostem do esporte e tenham prazer em praticá-lo, desenvolvendo suas habilidades com qualidade e competência. E principalmente transformar essa criança num futuro cidadão é uma das mais difíceis e desgastantes tarefas humanas – quem ensina sabe disso.
 
A escola não é o único lugar onde aprendemos e desenvolvemos coisas importantes. As brincadeiras de rua, jogos infantis, histórias/experiências de vida e muitas outras atividades fora do âmbito escolar serão fundamentais para o desenvolvimento motor e intelectual do aluno. Uma bagagem de experiências formará bases sólidas para a inteligência, afetividade e sociabilidade do aluno; por outro lado, uma bagagem pobre levará ao comprometimento dessas estruturas.
 
Na escola devemos promover atividades com qualidade para o aprendizado, preservando o lúdico. Preservar esse espaço lúdico, trazendo essa cultura para dentro da escola, é de grande mérito e prestígio para que esse aprendizado não perca seu ambiente natural. Mas é evidente e inevitável que adaptações sejam necessárias para se ensinar futebol na escola.
 
O autor Freire (2006) diz que esse conhecimento trazido pelo indivíduo durante toda a sua vida de fora do ambiente escolar não pode ser ignorado pelos professores. Temos que trabalhar em cima deste conhecimento durante as aulas de educação física escolar. Essa meta de construção de conhecimento, respeitando o universo cultural dos alunos, explorando a gama múltipla de possibilidades educativas de sua atividade lúdica, propõe tarefas cada vez mais complexas e desafiadoras.
 
“O construtivismo na área de educação física tem o mérito de considerar o conhecimento que o aluno previamente já possui, resgatando sua cultura de jogos e brincadeiras. A abordagem busca envolver essa cultura no processo de ensino e aprendizagem, aproveitando as brincadeiras de rua, os jogos de regras, as rodas cantadas e outras atividades que compõem o universo cultural dos alunos. Ela representa uma alternativa aos métodos diretivos de ensino, pois o aluno constrói o seu conhecimento a partir da interação com o meio, resolvendo problemas” (DARIDO & SANCHES NETO, 2005, p.11).
 
Portanto, a proposta privilegia o jogo como principal conteúdo, porque enquanto se joga ou brinca, a criança aprende em um ambiente lúdico e prazeroso. E a avaliação caminha no sentido de evitar punições, com ênfase no processo de auto-avaliação (DARIDO & SANCHES NETO, 2005).
 
Como mostra os Parâmetros Curriculares Nacionais, é preciso saber que:
 
“A proposta teve o mérito de levantar a questão da importância de se considerar o conhecimento que a criança já possui na Educação Física escolar, incluindo os conhecimentos prévios dos alunos no processo de ensino aprendizagem. Essa perspectiva também procurou alertar os professores sobre a importância da participação ativa dos alunos na solução de problemas” (BRASIL, 1998, p.24).
 
Podemos perder um pouco desse ambiente de aprendizagem das brincadeiras de rua, mas com a inclusão de bons profissionais nas escolas, podemos produzir um efeito real positivo, para se ensinar futebol.
 
Não precisamos ter pressa. Principalmente quando se trata de criança, nada pode ser mudado na vida dela de um dia para o outro. Como cita Freire (2006, p.23), “[…] a criança, quando chega à escola de esportes, deve continuar brincando de esportes, sendo que as sistematizações para aquisição de técnicas devem ocorrer lentamente, sutilmente”. Seguindo o pensamento e adaptando nas aulas de educação física, precisamos que o aluno brinque de praticar esportes, jogos, lutas, ginástica; desenvolvam conhecimento sobre o próprio corpo; sejam expostos a atividades rítmicas e expressivas, blocos de conteúdos que devem ser trabalhados nas aulas de educação física apresentados (BRASIL, 1998).
 
O brincar de praticar esportes faz com que o aluno aprenda a construir suas habilidades motoras, combinar essas habilidades e socializá-las, enriquecer sua motricidade, favorecendo as construções intelectuais, sociais e motoras do (FREIRE, 2006).
 
Apresentamos uma proposta pedagógica, fundamentada por João Batista Freire, buscando acrescentar algo na formação dos profissionais que atuam na educação física escolar, para que tratem a disciplina com mais atenção e respeito, transformando a educação física em uma disciplina respeitada pelos alunos e corpo escolar, que não seja só a hora da diversão, mas da aprendizagem e do desenvolvimento psico-motor, sócio-afetivo e cognitivo-moral.
 
 
Bibliografia
 
BRASIL, Ministério de Educação e do Desporto. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos: Educação física / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC / SEF, 1998.
 
DARIDO, S. C; SANCHEZ NETO, L. O contexto da educação física na escola. In DARIDO, S. C; RANGEL, I. C. A. Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro, RJ: Guanabara Koogan, 2005.

FREIRE, J. B. Pedagogia do futebol. Ed. 2ª Campinas, SP: Autores Associados, 2006.

 

Comentários

  1. MAURO DUARTE disse:

    O PROBLEMA É QUE AS AUTORIDADES ESPORTIVAS ( TECNOCRATAS)DESSE PAÍS, QUE NUNCA ENTRARAM EM UMA SALA DE AULA, NÃO ENTENDEM AS COMPLEXIDADES DO ASSUNTO

  2. adaias dos santos praia disse:

    Muita gente pensa que futebol nas aulas de Educação Física é apenas correr atrás de uma bola, não entendem que é um assunto complexo porém muito gostoso de se trabalhar no ambiente escolar.

Deixe uma resposta