Universidade do Futebol

Rodrigo Azevedo Leitão

29/03/2015

O futebol, o conhecimento sobre o jogo, o Brasil, a Europa: porque estamos à frente (ou não estamos?)

Estamos todos acompanhando o excelente desempenho da equipe do Corinthians nesse início de 2015. Tenho grandes amigos trabalhando lá, e sei bem o quanto eles têm buscado continuamente, ao longo dos últimos anos, a excelência em suas áreas de atuação.

E é bom que se diga aqui, antes de avançar, que não tenho a pretensão nesse texto, de dizer em qualquer momento que o trabalho “A” (ou do lugar “A”), é melhor que o trabalho “B” (ou do lugar “B” – e vice-versa).

Conheço ótimos profissionais espalhados em diversos clubes do Brasil, na Bahia, em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, fazendo trabalhos de excelência dentro de suas realidades.

Fico sempre na torcida por todos eles (menos quando os enfrento diretamente – desculpem amigos, sei que me entendem!), porque são trabalhos competentes que podem transformar e qualificar o nosso futebol.

O que quero salientar aqui, é que nesse início de ano, depois de ótimos jogos na Copa Libertadores da América e Campeonato Paulista, e após o comentado ano sabático, muita atenção tem sido dada, à experiência de Tite na sua ida para à Europa na busca do “conhecer mais” sobre futebol.

Matérias, colunas, entrevistas, programas de TV. Todos tentando entender (e enaltecer as vezes) o valor da busca do conhecimento no continente europeu para a aquisição das novas competências para nossos treinadores.

Pois bem, é aí que uma questão surge com certa urgência: “Por que será que estamos todos, valorizando a travessia pelo Atlântico, dando a ela a chancela de melhor ou única possibilidade para que nós entendamos mais sobre o jogo de futebol – como a grande possibilidade de atualização?”

Surpreendam-se, mas já faz muito tempo que no Brasil, sob certos aspectos do entendimento do jogo, estamos à frente, tanto em reflexões, quanto em produção de conhecimento, dos nossos pares europeus.

Se tivermos um pouco de paciência e tempo, encontraremos em algumas Universidades, em alguns Grupos de Pesquisa, em algumas pessoas ligadas ao futebol, em algumas iniciativas e em alguns fóruns específicos, uma riqueza de informações e conhecimento sobre o jogo que estão, faz muito tempo, disponíveis – aqui no Brasil.

Todos, muito “antenados” naquilo que o mundo vem fazendo no futebol – e com representantes na prática do dia-a-dia, transformando seus ambientes.

É claro que as coisas são lentas, e que o volume e profundidade daquilo que se produz e se estuda, sofre um atraso muito grande para chegar ao dia-a-dia de treinadores e clubes brasileiros – por um sem número de motivos, que passam tanto pela dificuldade de democratização do conhecimento, quanto pela nossa cultura de formação (apática, passiva, espectadora).

Formalmente e institucionalmente, por exemplo, a Universidade do Futebol (idealizada por João Paulo Medina e Eduardo Conde Tega), seja talvez a maior expoente da concentração, desenvolvimento e disseminação do conhecimento de excelência na perspectiva que estou abordando nesse texto (especialmente porque interage com quase todos os outros núcleos que mencionarei na sequência).

Temos núcleos muito avançados de discussões e de produção do conhecimento (e quebras de paradigma) espalhados pelo Brasil (como por exemplo: em Viçosa (coordenados pelo professor Israel Teoldo Costa), na UNICAMP (em Campinas com o professor Antonio Carlos de Moraes, com esse que vos escreve, com Leandro Zago e Bruno Baquete do CieFUT; em Limeira, lideradas pelo professor Alcides Scaglia), na antiga UGF e na Estácio (alimentadas pelo professor Roberto Banzé – que visionário, em 2003, propôs a primeira disciplina de Análise de Desempenho no jogo de futebol, com análises quantitativas e qualitativas – quando quase ninguém falava sobre o tema)).

O que poucas pessoas sabem, mas também merece destaque, é que a própria CBF também oferece cursos (excelentes), que fazem parte do seu programa de qualificação de treinadores, e que além de seguir diretrizes da FIFA para a implantação de um sistema de certificação comum em todas as Confederações do mundo (como também acontece com a UEFA, por exemplo), tem contribuído para o avanço da disseminação do conhecimento no ambiente futebolístico brasileiro.

E o mais importante disso tudo é que, fora do Brasil, treinadores e outros profissionais da área técnica têm muito interesse no conhecimento produzido aqui!

Eu sei que impressiona mais, descrever a vitória de um grande treinador e de uma grande equipe associando-a a aquisição do conhecimento adquirido fora do Brasil com treinadores europeus.

Eu sei que chama mais a atenção, expor o funcionamento tático coletivo de uma linha de defesa – apontando suas referências verticais, e ou horizontais, zonais e/ou setoriais, associando-a ao conteúdo de treino/jogo de uma equipe europeia.

Eu sei, e não acho que isso seria um problema, se nossa realidade fosse outra.

Mas olhemos para dentro!!!

Claro que corro risco, escrevendo isso, de ser mal interpretado.

Porém posso e devo expor meus argumentos – pautados em uma reflexão objetiva e pontual sobre o meu ponto de vista –, sem receios, porque dentre tantos motivos, e especialmente confiando em minha credibilidade:

1) Venho estudando e produzindo conhecimento sobre futebol desde que tive meu primeiro contato com a Universidade,

2) Estou na prática do dia-a-dia do futebol expondo e agregando novos saberes a esse conhecimento,

3) Ao longo dos últimos 18 anos, estive em contato direto com comissões técnicas e treinadores espanhóis, italianos, ingleses, franceses, holandeses (Real Madrid, FC Barcelona, Inter de Milão, Juventus de Turim, Manchester United, Olympique de Marselha, PSV e Apeldoorn),

4) Por fim, porque participei e palestrei em Fóruns e Congressos que tiveram participações de profissionais de muitas dessas equipes, e de Universidades de muitos desses países.

Esses motivos me dão segurança em dizer que temos conhecimento para exportar (e estamos exportando em alguns fóruns)!

Não estou aqui defendendo que não tenhamos que avançar as fronteiras e entender o que está acontecendo em outros países. Por favor, isso já está superado com toda argumentação anterior.

Não estou aqui criticando, de forma alguma, a possibilidade de intercâmbios de conhecimento, ou viagens de reciclagem em momentos sabáticos!

Sim, estou defendendo a ideia de que temos informações sobre o jogo, sobre meios e métodos de treinamento de alto nível, sobre detecção e desenvolvimento de talentos, aqui no nosso Brasil!

Estou defendendo a ideia de que temos excelentes profissionais em várias áreas dentro do futebol, com conhecimento transformador, avançado.

Estou defendendo a ideia de que não somos piores do que nossos concorrentes europeus… basta olharmos para os lugares certos – e veremos que em muitos aspectos podemos ser melhores, e em outros já somos sim (basta que o conhecimento esteja na prática)!

E não se trata aqui de alguém dizer a esse que vos escreve (parafraseando Vitor Frade) que “ninguém sente necessidade daquilo que desconhece”. Posso garantir e atestar meu vínculo com a realidade, com a sede do aprender e com o conhecimento desse tempo de inovação.

Treinar com intensidade? Resistência de concentração? Qualidade da intensidade? Intencionalidade de treino? Teorias Sistêmicas? Auto-organização? Densidade cognitiva? Carga complexa de jogo? Jogo é treino e treino é jogo?

Alguma outra interrogação? Se olharmos para dentro, encontraremos respostas há tempos…

De qualquer forma, saudações ao oceano Atlântico!!! 

Comentários

  1. Hugo disse:

    Muito bom, sinto que fomos tomados de arrogância, muitos técnicos param de estudar quando chegam ao “topo” e isso dificulta muito a evolução do futebol brasileiro. A reciclagem, o estudo constante, a vivência com outros treinadores, a troca de conhecimento, tudo isso é muito importante para a vida profissional de qualquer pessoa.

  2. Patrick Santos disse:

    Não somente os técnicos precisam se atualizar e tentar colocar em prática seus conhecimentos. Quem realmente ou o que precisa ser mudado de fato, é a mentalidade dos jogadores, a forma de jogar, ensina-los melhor o que é tática, formas de movimentação, trabalho coletivo, posicionamento, parece óbvio mas não é, isso deve ser ensinado desde de cedo. Nossos jogadores parecem ser menos inteligente do que os da Europa, os mais inteligentes ficam pouco tempo por aqui. Vejo jogos do Barcelona, todos ficam maravilhados, dizem que é o melhor time do mundo e concordo, não acho que seja difícil tomar eles como exemplo e fazer o mesmo, mas é incrível como passa ano entra ano e ninguém faz nada parecido, no Brasil deveríamos ter no mínimo uns 10 times iguais ao Barcelona. A forma que eles jogam marcação forte, toque de bola e aproximação, se os jogadores e treinadores brasileiros fossem mais “inteligentes” “copariam” isso com facilidade incluindo outras características brasilianas e teríamos super times, verdadeiras seleções mundiais. Mas enfim, nossos jogadores parecem satisfeitos com o pobre futebol apresentado. Até mesmo eu que jogo várzea, com treinamentos faria igual ou melhor que muitos “jogadores profissionais” espalhados pelo Brasil.

  3. Acredito que a mudança no nosso futebol deve partir de cima, da diretoria. Eles ainda valorizam muito os “boleiros”! Os Ex-atletas que não deixam de ser “boleiros”. Pois, se eles fossem atrás do conhecimento e juntasse a sua experiência como jogador, estariam em grande vantagem. Porém, os estudiosos não são muito aceitos no meio. Mas, essa visão vai mudando com o tempo, a partir de pessoas como “Leitão”, “Zago” e outros. Estudiosos que mostram resultados no campo.

  4. Carlos disse:

    A realidade do nosso futebol hoje, vem sendo desmerecida por muitos, por contas dos maus resultados obtidos nesses últimos tempos, porém, trabalhos que foram feitos sem muito lógica e coerência.
    Acredito sim em nossos profissionais, uma vez que nosso futebol sempre foi referência mundial por muitos anos, mas foi sendo esquecido que precisamos sempre estudar para que novos conceitos de trabalhos sejam implantados para que se aprimore o que vinha sendo feito com sabedoria.
    Temos uma certa resistência em nosso país para aceitar novos conceitos de trabalhos, culturalmente foi criado essa barreira para ser aceita novas opiniões, com tudo, a falta de reciclagem, a falta de comprometimento e sobre tudo a soberba de alguns profissionais,colocaram em cheque o futebol brasileiro perante o mundo.
    Essa nova realidade que esta sendo buscada e mostrada por alguns clubes do futebol brasileiro, vem mostrando que a necessidade de cooperação de uma equipe multidisciplinar é fundamental para o desenvolvimento preciso de um coletivo que busca sua excelência no modo em que atua durante uma partida.

  5. Sinclair disse:

    Olá Rodrigo ,não tinha tido acesso a este texto ,mas estou realizando o curso Modelo de Jogo e me deparei com este texto ……nos conhecemos desde 2007 e vc sempre foi um desbravador destas teorias sobre o jogo junto a UdoF ,sempre muito contestado e encontrando resistências por parte dos paradigmas do futebol e da preguiça de todos nós em pensar …..gostei bastante deste texto especificamente ,pois me identifico bastante com a história destes profissionais que foram em busca de conhecer novas metodologias .Eu mesmo ,fui para a Argentina ,para Barcelona , Paris , Roma ,Milao em busca de ver novas coisas ,aprender novos conceitos ,novas metodologias e poder qualificar mais o trabalho aplicado. Acho que vc e a UDOF são os maiores responsáveis por aqueles que buscaram conhecer metodologias de fora ,pois não tínhamos nada de informação produzido aqui e vcs apresentaram estes novos conceitos a muitas pessoas e agora, após alguns anos desta estrada que vc e outros estão percorrendo ,já começam surgir pensamentos muito interessantes ,que qualificam e estimulam o desenvolvimento de uma metodologia ,linguagem comum ,cursos ,materiais que nós brasileiros podemos nos orgulhar e sentir que estamos no caminho certo ,qualificando a formação dos profissionais e consequentemente a formação de melhores futebolistas que potencializará o nível do futebol brasileiro …..

  6. Jones disse:

    otimo e realista!

  7. Marco disse:

    Apesar do Texto ser de 2015 e vermos hoje uma seleção recuperada com o TITE que buscou conhecimento fora e muito bem planejada para a Copa do Mundo, continuo acreditando que esse esporte é global e que sim devemos levar em consideração outros continentes na busca de conhecimento, porém nosso futebol com a evolução da ciência (hoje com GPs, sensores para identificar lesões entre outros) voltará ao topo e reinará ainda por muito tempo e o conhecimento e as práticas européias nem sempre conseguem ser aplicadas em uma cultura que é muito diferente e de realidades tão distintas mas podemos adaptá-las e assim chegarmos a patamares nunca antes visitados a nível de conhecimento.

  8. Luis Eduardo disse:

    Muito bom, creio que ajudará e muito os conceitos e visão.

  9. Valorizar o que é nosso e não desprezar o que é de fora.

  10. CHRISTIAN disse:

    Muito bom ouvir algo que vai, com argumentos sólidos, contra a maré dos principais veículos da imprensa brasileira, que só sabem dizer que os treinadores brasileiros precisam mudar quase tudo.

  11. Andre disse:

    Parabéns pela reflexão.

  12. estudo de maneira coerente de acordo com o futebol moderno

  13. andsiqueira disse:

    Precisamos de profissionais comprometidos com o desenvolvimento do futebol brasileiro.

  14. O maior problema, Rodrigo, ao meu ver, é na arrogância e prepotência de alguns treinadores brasileiros, que vão a público e batem no peito dizendo que “não precisam estudar”, que menosprezam o futebol europeu, ou os estudos no campo do futebol. Infelizmente, no Brasil, ser estudioso e ter conhecimento é cada vez mais um erro, na visão de muitos. Isso, sem entrar no mérito do “complexo de vira-latas” que assola nossa sociedade, como diria o saudoso Nelson Rodrigues.

    De qualquer maneira é preciso que este conhecimento chegue mais ao público. Como? Através da imprensa. Infelizmente, dentro dos programas esportivos há muitos jornalistas que propagam o senso comum e não comentam com bases teóricas. Os poucos que fazem isso, muitas vezes, são colocados no “banco de reservas” da emissora, pois, num curto prazo, não trazem audiência. É preciso que todos os setores que vivem e gostem do futebol estejam juntos, pra que todo esse nosso conhecimento cientifico seja divulgado e, consequentemente, colocado em campo.

  15. elisant.anna disse:

    Show de bola do Rodrigo Leitão. A clareza da aula dispensa comentários, mas aproveito a carona e o espaço para realçar o que julgo mais importante e talvez o mais difícil na busca por um modelo de jogo que é convencer os jogadores de que por mais que alguém desequilibre, o conjunto é sempre mais importante e deve prevalecer sobre as individualidades. Sabemos que não é fácil, principalmente se considerarmos as estrelas de primeira grandeza, mas penso que essa é a tecla a ser repetida.

  16. O Prof.Dr Ricardo foi meu instrutor na CBF Academy em Análise de Desempenho…e como treinador sei muito bem o quanto de verdade está redigido por ele neste artigo! O problema do futebol brasileiro são os gestores. Estes não permitem que o futebol seja guiado pelos profissionais competentes. Não há meritocracia!

  17. Cada momento um lugar procura se desenvolver, assim se aprimorando e superando quem esta ou estava no topo, o conhecimento e novos metodos sendo estudados e no Brasil de forma geral se acomodam apos boa fase com titulos e param de procurar formas de melhararem, vários exemplos de repetirem a “receita” em outros clubes não dão certo e perdem pré temporadas tentando adaptar modelos q já não servem para clubes posteriores. Logico respeitando alguns q procuram se aprimorar e se atualisar sempre. Acredito que a cobrança por resultados faz com que muitos treinadores “não” conseguem aplicar um modelo de jogo.

  18. Excelente reflexão e estamos cada vez mais em evolução. Basta que cada um faça a sua parte. Calendário, Estrutura, Gestão financeira e cultura Europeia são influenciadores diretos quando comparados aqui com o cenário do futebol Brasileiro. Cabe a nós nos adaptarmos e trabalharmos com o que temos aqui. A realidade

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