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12/04/2013

O futsal como contribuinte

O que pode ser suficientemente concreto na busca de informações verdadeiramente sensatas sobre a formação do jogador de futebol?

Entendemos que, o "’brincar", em ambiente muito ou pouco semelhante à modalidade, colabora no "saber" da criança, do jovem atleta. O brincar é uma experiência humana, rica, e complexa (Almeida, M.T.P, 2000).

Culpa-se a precoce especificidade e especialização como, possivelmente, um dos maiores agravantes para o pulo de etapas que deveriam ser rigidamente trabalhadas e estimuladas no ser humano que se forma como atleta.

Julgam treinadores e dirigentes por não respeitar pilares básicos de sustentação do treinamento desportivo. Citam o Barcelona de Guardiola (ou o Guardiola do Barcelona?) como prova e justificativa final para aquilo que é discutido incessantemente: quando, como, aonde e por que, o futsal contribui para a formação do jogador de futebol?

Diante dos conceitos de "’brincar para aprender", o "’ensinar" é questionado.

Lacunas são abertas para discussões desses paradigmas, principalmente tendo em vista o nosso atual momento no futebol mundial.

E mesmo com milhares de exemplos (sim, milhares) de jogadores de futebol extremamente bem sucedidos que, tiveram no futsal sua maior fonte de aprendizado, questiona-se até que ponto é válido abandonar os princípios de especificidade que o campo dá ao jogador.

Não há informações científicas, aleatórias ou registradas em literatura, que nos dê alguma visão que sustente os argumentos dos aspectos prejudiciais do futsal na formação do jogador de futebol. Há questionamentos. E, para estes, respostas.

É fato que existem divergências no que diz respeito às necessidades de cada modalidade. Para isso, existem comparativos e abordagens técnicas e táticas.

Será que treinar e, portanto, condicionar e automatizar as tomadas de decisões em ambiente fechado, de piso rápido e bola mais aderente, de tamanho 40 x 20, não é suficientemente competente na busca pelo atleta ideal? Certamente não, não suficiente, mas essencial.

Algumas situações competem ao futebol e não ao futsal, e vice-versa. Contudo, quais são as competências similares?

A maneira como se recebe e tem-se domínio da bola no futsal é, quase de maneira unânime feita com a sola dos pés, a conhecida "entrada na bola", esteja o atleta de frente, de costas, em diagonal, ou lateralmente ao gol e ao atleta adversário (alguns treinadores defendem o domínio com a face interna do pé, condicionando assim melhor visão de jogo e opções de soluções de problemas mais rápidas).

Sabemos que, no futebol, a automatização desse gesto é complicada. A imprevisibilidade é maior, nunca se sabe o que encontrar em campos, seja de maneira quantitativa ou qualitativa. Entretanto, temos exemplos que comprovam o quanto é importante o treinamento deste recurso. Paulo Henrique Ganso e Maicon, ambos atualmente no São Paulo, utilizam desse recurso excessivamente em seus jogos.

Trata-se de um dos vários momentos em que, seja dito novamente, pode ser observado o quão válido é ter o futsal como colaborador na formação de atletas de futebol.

De fato, andam lado-a-lado. Inclusive nas dificuldades administrativas e estruturais.

Importante também é, tentar entender uma questão conflitante. Essa questão se relaciona diretamente com a maneira em que se ensina futebol e/ou futsal: jogos situacionais ("pequenos jogos", "joguinhos", "jogos reduzidos"). Parte-se do princípio de estudos que defendem a formação esportiva baseadas na fragmentação do treinamento, da iniciação à especialização, participando assim de todo processo de formação.

Então, tendo conosco a informação de que é muito satisfatório o processo de realização de jogos reduzidos e adaptados como forma de aprendizado e treinamento, por que não considerar o Futsal como uma dessas vertentes? Por que não usufruir de uma modalidade que pode nos dar recursos extremamente necessários para que tenhamos em nossos elencos futuros, grandes solucionadores de problemas?

Que jamais se confunda o futsal apenas como um jogo reduzido, é uma modalidade independente, que cresce a cada ano em diversos aspectos. Mas, as propostas metodológicas que aproximam as duas modalidades, frequentemente nos dão inúmeros exemplos de sucesso.

Falamos do nosso país. Pensemos agora em Espanha, também referência mundial nas duas modalidades. E dessa forma, inevitavelmente, utilizemos o clichê do Barcelona de Guardiola.

Como observar a posse-de-bola dessa equipe e não remeter aos constantes apoios ao homem da bola. Como observar a capacidade de jogar sob pressão e sair da mesma, e não lembrar até mesmo da utilização do goleiro como peça de apoio, para tal.

Os momentos em que o jogo pede linhas paralelas e diagonais nos dá ideia de que, apesar de totalmente independentes, são semelhantes e podem se ajudar, nunca guerrear.

http://vimeo.com/59830692

E que também não se confunda a conciliação do futsal como única forma de ensinar e formar atletas. Toda aproximação ao ambiente específico do campo, é benéfica. Mas, não exclusiva.

O goleiro de futsal, com as frequentes mudanças na regra com o passar das temporadas, vem ganhando cada vez mais força e competitividade no sistema da equipe, seja como forma de ataque, ou como saída para não abdicar da posse de bola.

E isso vem ganhando força no futebol, imaginando uma melhor formação de todas as posições. Goleiro de futebol que, antes utilizava seus pés unicamente para breve recurso de defesa, ou como forma de afastar a bola de perto do seu gol, hoje é treinado para saber aproveitar o "’atraso"’ da bola aos seus pés, utilizando passes curtos e caracterizando como recurso, movimentos outrora tidos como desnecessários e inconsequentes.

A ocupação de espaço, de maneira setorizada ou individual, também tem muitas dessas semelhanças. A formação de linhas-de-defesa e ataque, também.

E o portador da bola? Se treinados e aproveitados fossem os movimentos das duas modalidades, não teríamos tantos problemas com o entendimento da velocidade da bola para a recepção dela.

Mudaríamos de direção mais frequentemente, nossos jogadores preguiçosos "roubariam" menos, pois atacariam a bola durante sua trajetória, identificando a distância que se encontra o adversário. Treinaríamos melhor contra-ataque organizado e retorno do mesmo.

Utilizaríamos mais a chamada "bola de tempo", extremamente similar ao jogo de pivô do futsal.

Como não lembrar de Romário no futebol e Lenísio no futsal?! Dois dos melhores "solucionadores de problemas" da história do esporte.

Para aos que creditam aos volantes, grande porcentagem de importância de uma equipe no futebol moderno e, pensam não haver relação desse jogador com o que compete também ao futsal, que enxerguem a maneira como joga Xavi Hernandéz.

Que os salonistas não sejam "ciumentos" ao perder atletas para o campo (mesmo não havendo sentido em vetar a prática das duas modalidades como maneira de formar melhor), e que os futebolistas não sejam inseguros para entender que as duas modalidades correm independentes, mas que podem se ajudar, sem interferir negativamente na performance e na formação do atleta.

O futsal pode e deve ser contribuinte, colaborador. Jamais, concorrente.

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