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17/12/2018

O imediatismo e a crise técnica/tática do futebol brasileiro

Todo ano é a mesma história. Reportagens e reportagens em todos os veículos de comunicação com as estatísticas atualizadas do número de técnicos demitidos por rodada dos campeonatos estaduais, regionais, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. É de domínio público as consequências econômicas da dança dos técnicos nos cofres dos clubes brasileiros. Clubes quebrados, grande parte do seu endividamento resultado do inchaço das folhas de pagamentos com treinadores já demitidos e jogadores trazidos por estes que já não se encaixam nos planos da nova comissão técnica. Há casos de clubes pagando salários para 2-3 treinadores ao mesmo tempo. Esse entra e sai de jogadores e treinadores eleva salários, luvas e premiações já que cria-se uma cultura onde naturalmente estes tentam se proteger, amarrando contratos que tragam algum tipo de garantia financeira no caso de uma possível, ou melhor, provável demissão. A face mais feia desse fenômeno, porém não é a penúria financeira dos clubes mas a ausência de algo que poderia ser.

Muito se questiona a qualidade do futebol brasileiro. No geral tende-se a uma generalização nos seguintes termos. Num misto de realismo, pessimismo e saudosismo se conclui que já não produzimos jogadores como antigamente. Jogadores já não demonstram o domínio e predileção pelo drible como recurso técnico dominante. Pontas mais preocupados em defender que atacar. Atacantes que não sabem fazer gol. Os poucos bons representantes de um passado distante dos tempos áureos do futebol brasileiro, onde jogadores bons tecnicamente nasciam em árvores (às pencas), tomam os rumos da Europa precocemente, ao menor lampejo de algo que indique um futuro promissor, muitos antes mesmo de atingirem o nível profissional em solo brasileiro. Ainda que fruto de generalização não se pode negar que essas afirmações não representem a percepção corrente da realidade futebolística atual. Em suma, continuamos bons produtores de matéria prima, porém a qualidade do futebol praticado no Brasil piorou substancialmente. Difícil apontar o gênesis do problema. Porém, é inegável o fato de que não há o menor incentivo para que treinadores busquem a prática de um futebol mais ofensivo. Um futebol onde equipes lancem-se ao ataque com números; busquem a posse de bola a todo custo; invistam na prática de construção de jogadas; enfim joguem para ganhar e não para não perder. O imediatismo leva ao conservadorismo e simplismo no que se refere a como os técnicos visualizam e promovem a prática do futebol. E o resultado e a falta de qualidade do espetáculo apresentado as terças, quartas, sábados e domingos.

Nos últimos anos, principalmente depois da Copa do Mundo do Brasil em 2014, acentuou-se o questionamento sobre o preparo e atualização dos treinadores brasileiros. Resultado prático dessa dinâmica é a verdadeira caça a bruxa a treinadores, principalmente aos veteranos, gradativamente escanteados no mercado e substituídos por uma nova geração de treinadores “estudiosos”. Nesse sentido vale mencionar um reflexo positivo dessa dinâmica pós-Copa que é o surgimento de uma cultura onde o preparo acadêmico e conhecimento teórico entre treinadores de futebol é valorizado, e oportunidades de aperfeiçoamento profissional no conhecimento tático do jogo, metodologia e pedagogia estão disponíveis. A criação de uma escola para treinadores na CBF foi um marco. Isso em si é um imenso passo na evolução do nosso futebol, uma vez que, com algumas décadas de atraso, o Brasil se equipara a vários países europeus, a Argentina e aos EUA, que já propagam e celebram o “coaching education” há tempos. De qualquer forma, apesar dessa renovação no quadro de treinadores não conseguimos ver uma melhora significativa na qualidade do futebol apresentado. Evidentemente estamos analisando um período curto de tempo mas já não seria razoável esperar uma melhora na qualidade do jogo dada a substancial renovação no quadro de treinadores e a presença da nova geração nas principais divisões do nosso futebol? Ainda que para muitos a resposta seja um gritante sim, o fato é que por melhor que seja o treinador, o instinto de sobrevivência é da natureza humana, e esse instinto (na grandíssima maioria dos casos) se sobrepõe a qualquer aspiração ou filosofia de um jogo mais ofensivo.

Por instinto treinadores jogam para não perder, assim podem manter seu emprego pelo maior tempo possível. Propaga-se então a prática de um futebol reativo, onde equipes, como estratégia fundamental, se especializam em posicionar 10 ou 11 jogadores atrás da linha da bola em sua metade defensiva do campo, na expectativa de roubá-la ou interceptá-la, e numa transição rápida para o ataque, criar chances de gol. Mas e se dois oponentes são adeptos desse mesmo tipo de jogo??? Reside aí a essência da falta de qualidade no futebol brasileiro. A rigor, quando focadas a jogar um futebol propositivo, equipes que não dominam essa capacidade, praticam um futebol inconsistente quando em posse de bola, o que significa incapacidade de reter a bola por longos períodos de tempo (principalmente posse de bola em direção ao gol adversário na metade e terço ofensivos do campo), incapacidade de penetrar linhas defensivas compactas, assim criando chances de gol – frutos de jogadas construídas. Mas o que é o futebol propositivo? É o futebol onde uma equipe tem como estratégia fundamental o domínio da posse de bola para construção de jogadas (build up), seja no seu terço defensivo, no terço central ou no terço ofensivo, evidentemente dependendo do tipo da marcação imposta pelo adversário. Recentemente escrevi um artigo que discute importantes elementos do futebol propositivo (“Quebrando as linhas de quatro”). Que fique claro que a prática do futebol propositivo não significa um completo desprezo pela fase defensiva ou por um jogo de contra ataque (alternativa para situações específicas – não regra). Nesse sentido vale mencionar que uma equipe que propõe o jogo e consequentemente domina a posse de bola no campo do adversário, precisa desenvolver mecanismos para defender o grande espaço disponível a um contra ataque adversário, ou seja, ajustes táticos são imperativos. Pode-se argumentar que esse tipo de tática defensiva leva muito mais tempo para ser implementada quando comparada a estratégia de se defender no seu terço defensivo, tempo que os treinadores não possuem…

É fato que destruir é mais fácil que construir. Nessa lógica, o desenvolvimento de um jogo construtivo é muito mais complexo, requer tempo, novamente o tempo que a dinâmica do futebol moderno não oferece. Em um mundo ideal, mais paciência e coerência na gestão do futebol (convergência entre filosofia do clube e do treinador, entre outras coisas) criariam condições para que treinadores, hipoteticamente com mais tranquilidade para desenvolverem seu trabalho, tivessem mais propensos a prática de um futebol mais propositivo, o que potencialmente resultaria num futebol mais agradável aos olhos. Isso posto, não seria justo por 100% do ônus da questionada qualidade do futebol na conta de dirigentes e gestores e da precária macro estrutura dos clubes. Treinadores têm sua parcela de culpa. A noção de que a baixa capacidade técnica dos jogadores não permite um jogo mais ofensivo é uma espécie de muleta para os treinadores. A opção por um jogo de contra ataque é ancorada na premissa de que “não se faz limonada sem limões”. Mas essa corrente de pensamento desconsidera uma das funções primordiais de um treinador, que é a de professor. E professor ensina ou deveria ensinar. Já ouvi muitas referências ao mestre Tele Santana, adepto da constante prática de repetições de fundamentos técnicos em treinamentos. Mas pode-se ensinar técnica no nível profissional? Questionável. No máximo se aprimora. E mesmo o aprimoramento é limitado nesse estágio de desenvolvimento motor e cognitivo do ser humano. Se um treinador porém consegue criar situações em treinamentos onde haja oportunidades de repetir uma técnica no contexto do jogo, onde estejam presentes pressão e direção, o aperfeiçoamento da técnica se torna plausível, pois nessa dinâmica não está em questão a técnica em si mas a aplicação dela num contexto tático. Futebol não é ginastica olímpica onde a técnica é a razão de ser do esporte, onde a técnica é o fim. No futebol a técnica é o meio através do qual se atinge o fim, o objetivo final, o gol.

Absolutamente não desmerecendo ou descontando a importância da técnica no futebol profissional, as lições a que me refiro no caso do treinador/professor são mais de cunho tático. Tática no sentido de fazer entender os elementos de ataque (penetração, suporte, mobilidade, lateralidade, profundidade/amplitude e improvisação), defesa (pressão, cobertura, equilíbrio e compactação) e transição, e especialmente do papel do treinador em auxiliar os jogadores na tomada de decisões em caráter individual e coletivo. Esse tomada de decisão se eficiente concede a um jogador a dádiva do tempo e espaço. Um jogador que sabe se posicionar bem (em relação ao gol, adversários imediatos e periféricos, e companheiros imediatos e periféricos), necessariamente ganha segundos ou milésimos de segundo a cada jogada, ganha metros ou centímetros a cada jogada, o que em larga escala compensa a limitação técnica. Essa equação aplicada em uma equipe tem um efeito multiplicador, uma vez que sinergias são criadas e um mais um se torna mais que dois.

O caminho de reconstrução do futebol brasileiro como espetáculo passa por uma revisão dessas dinâmicas.

 

*Paulo Canineu Neto é um dos diretores técnicos da Pennsylvannia West Soccer Association, braço estadual da Federação Americana de Futebol (United States Soccer Federation). Neto é Bacharelado em Educação Física e Gerenciamento Esportivo (Union College) com Mestrado em Administração (Lincoln Memorial University). Neto possui a Licença “A” da USSF e a Licença “A” da UEFA. Antes de mudar para os EUA, Neto jogou profissionalmente pelo EC Sao Bento (Sorocaba) e nas categorias de base de Corinthians (pré-infantil aos aspirantes) e Fluminense (juniores e profissional).

 

Comentários

  1. Evandro disse:

    Bom dia, o mestre abordou o maior problema para o trabalho dos treinadores, o imediatismo somado a manutenção do emprego por parte dos treinadores. Isso em minha opinião ocorre diante do amadorismo dos dirigentes. Afinal o chefe de um advogado geralmente é advogado, de um médico, é médico e assim é em várias profissões. Ai, poderíamos dizer, mas o chefe desses 2 nos clubes não é dessa área! Tem razão, mas são áreas tão técnicas que o presidente não se mete a besta. Já o futebol não é visto como área técnica e aí tds julgam entender, logo, o presidente q é dono de uma rede de supermercados, pensa q entende do assunto! Pronto, o treinador já deve se preocupar e aí vem a imprensa que precisa de notícia, aí já solta a famosa frase: Se perder mais uma, fulano começa a balançar! o que não ajuda em nd, mas acende um alerta nesses presidentes amadores. Qto a parte técnica, penso q vc foi muito feliz ao dizer sobre ser meio e não fim, muitos atribuem o sucesso do Telê a ele ser um treinador voltado a melhora dos fundamentos técnicos, como se passar bem, dominar bem e chutar bem fizessem de alguém craque ou o fizesse entender melhor o jg. Telê tinha suas limitações, haja vista q ninguém treinado por ele cita-o como um estrategista, conhecedor de tática, assim como Felipão e Muricy (discípulo de Telê). Acredito tbém que no momento em que a base se preocupar com a formação e entendimento do jogo ao invés de títulos, e que os melhores fiquem nos clubes, e não os que tem empresários dentro dos clubes (isso sou eu quem estou falando, claro), seja feito um trabalho melhor e esses atletas chegarão ao profissional um pouco mais prontos, mas com td isso, se forem lançados com 17, não estarão prontos..23 seria o ideal para ter cumprido aquelas 10000 horas de treinamento q a literatura cita, mas como isso é sonho de minha parte, vamos ver muitos times jogando mal e porcamente e na maioria das vezes, não por culpa do treinador!

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