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18/03/2019

O jogador de futebol como um produto supérfluo

Há poucos dias dizia, em entrevista, para o jornalista José Cruz, sobre os jovens das categorias de base que, quando não aproveitados nas categorias superiores, ou profissional, eram “descartados” pelos clubes. Estávamos preocupados discutindo, suscitados pelas mortes dos atletas das categorias de base do Flamengo, sobre o descaso com estes jovens e o papel que lhes é atribuído. Qual o preço que vem sendo pago por esses jovens que buscam realizar o sonho de tornarem-se jogadores profissionais de futebol?  Qual o papel que vem sendo desempenhado por dirigentes, familiares e empresários, ao alimentarem esse sonho tendo como interesse prioritário o aspecto financeiro, movimentando, dessa forma, esse mercado que é o futebol? E o que acontece com aqueles jovens que não apresentam as condições tidas como necessárias para progredir na carreira e se tornarem jogadores profissionais bem-sucedidos?

É justamente sobre esse atributo de mercadorias descartáveis, não mais necessárias, dado a eles, jogadores de futebol, que pretendo tratar nas próximas linhas, mas nesse momento com o foco nos jogadores profissionais e não mais naqueles que ainda integram as categorias de base.

Apesar deste tema fazer parte há muito tempo das minhas pesquisas e estar entre meus interesses de estudo, há alguns casos específicos e atuais do futebol brasileiro e internacional que suscitaram em mim a vontade de discorrer sobre esse assunto. Tais casos, meramente exemplos, se referem à dois clubes, São Paulo FC e Real Madrid, e dois atletas, Diego Souza e Gareth Bale, a quem tem sido atribuído, sobretudo pela mídia e torcedores (já que não vi os dirigentes se posicionarem desta forma, ao menos não explicitamente), a característica de supérfluos.

O que faz de um clube que gasta 10 milhões de reais em contratar um jogador, no caso do brasileiro, e mais de 100milhões de euros, no caso do galês, os colocarem como não mais importantes? O que faz tais atletas passarem de indispensáveis – o primeiro foi artilheiro da sua equipe no ano anterior, e o segundo considerado “intocável” por muito tempo na equipe do Real Madrid – para a condição de descartáveis?

Está bem…alguns dirão que eles não têm jogado bem (algo que concordo) e que não tem treinado bem (algo que não tenho condições de avaliar, pois não acompanho os treinamentos). Mas o que faz deles atletas antes extremamente valiosos e importantes e hoje dispensáveis e colocados no “mercado”, é além da óbvia associação com o rendimento momentâneo apresentado, a condição de produto/objeto sem valor e que pode facilmente ser substituído.

Poderá agora estar se questionando sobre o fato de tais atletas exemplificados, dentre muitos outros, poderem ser vendidos ainda para outra equipe por um valor significativo, pois provavelmente há ainda um “mercado” desejoso por contar com tais jogadores. No entanto, nesses casos, o que está em jogo é o valor de troca e não do valor de uso.

Essa discussão poderia passar também pela análise dos papéis assumidos pelos jogadores em suas equipes. Hora na condição de líder, ídolo, importante… hora na condição de vilão, bode-expiatório, descartável, supérfluo. No entanto, meu foco nesse texto não é a mobilidade de papéis, algo extremamente compreensível e importante do ponto de vista da tarefa grupal, e sim o aspecto mercador, o processo de coisificação do atleta, a transformação do ser humano num produto/mercadoria.

Sobre tal processo, há vários estudos que muito bem discorrem e realizam uma análise crítica, dentre os quais destaco os estudos de Arlei Damo (2007), Rial (2008) e Florenzano (1998). Corroborando tais autores, podemos dizer que o futebol moderno, ao submeter-se à racionalidade de uma empresa moderna, atribui a ele a mesma eficácia produtiva e lucrativa e, dessa forma, amplifica o processo de coisificação do jogador.

Ou seja, de acordo com Rial (2008), os jogadores de futebol assumem uma característica bastante particular, pois acabam sendo, ao mesmo tempo, força de trabalho e mercadoria. A linguagem apropriada por todos aqueles que compõe o campo futebolístico, refletida em expressões como “ser vendido”, “pertencer a um clube”, “peça”, “plantel”, dentre outras, nos remete, guardadas as devidas proporções, a um modelo escravagista ainda que “haja um consentimento legal e moral em relação a compra e venda de pés de obra” (DAMO, 2007) e seja consenso que o intercâmbio de jogadores de futebol esteja inserido nos modelos mais avançados de capitalismo (RIAL, 1998).

Há outro momento do futebol mundial no qual o atleta assume mais esse papel do que no período em que o “mercado” de transferência de jogadores está aberto?

O que se vende e se compra a não ser produtos?

O que se denomina como peças (que precisam ser trocadas ou encaixadas) a não ser objetos/mercadorias?

E o que costumamos fazer quando um produto, um objeto ou uma mercadoria não nos serve mais?

Descartamos! Sobretudo quando passamos a enxergá-los como supérfluos.

 

* É Doutor em psicologia social pela Universidade de São Paulo com ênfase em psicologia do esporte.

Comentários

  1. Luiz Henrique disse:

    Lendo esse texto, me lembrei de uma declaração dada do jogador Mario Balotelli numa entrevista coletiva, em sua chegada ao Olympique de Marsseille. O jogador foi muito lúcido ao dizer que, se caso não fizesse os gols que a torcida tanto esperava, isso não tiraria seu sono. Vale a pena acompanhar esse entrevista!

    • Rafael Castellani disse:

      Primeiramente, obrigado pela leitura!
      Vou buscar essa entrevista. Não a conheço!
      Saudações!

    • Rafael Castellani disse:

      Olá Marcelo!!
      Obrigado por compartilhar conosco sua experiência e suas sensações.

      Quanto a sua pergunta, penso que há algumas diferenças, mas nesse caso a maior delas é que no futebol o jogador tem, além do valor de uso (como numa empresa que paga pela sua força de trabalho), o valor de troca.

      Abs!

  2. É exatamente isso. Futebol nesse nível, tem um forte componente de business. Sou ex atleta profissional e hoje treinador. Mas sempre soube que era uma mercadoria. E me esforcei ao máximo para que fosse um produto cobiçado no mercado. Normal. Na sociedade também é assim. Ou não ? Só que isso não impede que sejamos humanos e respeitosos no trato uns com os outros durante o processo. Mas no âmbito profissional do esporte de alto rendimento, cada um vale o que rende. Não tem como ser diferente

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