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É possível que, ao ver relacionados os temas futebol e espiritualidade, se tenha a impressão de que eles não possuam nenhuma afinidade, de que são ´domínios´ tão distintos quanto água e óleo e que qualquer tentativa de aproximá-los significaria uma ´profanação´ da espiritualidade (aos olhos de alguns religiosos) ou uma abstração intelectual que nada tem de pragmática (aos olhos de alguns profissionais do esporte).

Outros poderiam sustentar que há uma relação apenas ocasional entre os dois ´domínios´, como no caso do jogador que reza o ´Pai Nosso´ ou faz o ´sinal da cruz´ ao entrar em campo. Há, entretanto, no futebol (e nos jogos de forma geral), algo em sua estrutura e dinâmica que nos remete às cosmovisões tradicionais (bem como, ao homem verdadeiro, considerado como microcosmo). Os jogos são símbolos de um jogo maior, o jogo das ´forças cósmicas´. Será mais fácil compreender essa dimensão dos jogos por meio de alguns exemplos e reflexões.

Na Grécia antiga, os ginásios eram lugares onde havia a transmissão do saber e a prática esportiva. No mesmo ambiente, buscava-se o desenvolvimento físico e intelectual, de forma integrada. Alguns filósofos, como Sócrates, recrutavam seus alunos nos ginásios. Não é por acaso que, entre os muitos atributos de Hermes, está o de ´deus dos ginásios´.

Hermes (Mercúrio para os romanos), o divino inventor da escrita, deus da eloqüência e da tradição, era identificado com o deus egípcio Thot (esta é a razão de Khmun, a cidade que era o principal centro de culto a Thot, ser designada por Hermópolis, ´cidade de Hermes´, pelos gregos). Thot (figura ao lado) é o mestre dos hieróglifos e da heka (termo de etimologia incerta, que significa provavelmente ´reger os poderes´* , traduzido vulgarmente como magia).

O consagrado egiptólogo Christian Jacq diz que ´para o egípcio antigo, tudo vive… O homem, tal como qualquer outra parcela viva, é o resultado de um jogo de forças. Poderá suportá-las passivamente ou poderá tentar identificá-las. A qualidade de seu destino irá depender das respostas que der a essas questões´.

Heka, ´reger os poderes´, é justamente tomar parte neste ´jogo de forças´.

Que relação tem isso com os jogos?

O ´jogo de forças´ do qual resulta o homem (e o cosmo) foi simbolizado, nos jogos, pelos oponentes e pelo tabuleiro ou campo onde o jogo se desenrola** (um exemplo claro é o tabuleiro de xadrez, onde se intercalam quadrados brancos e pretos , semelhante ao ´pavimento mosaico´ da Maçonaria e aos losangos da roupa do Arlequim).

No Taoísmo estas ´forças´ são chamadas de Yin e Yang, e quando unificadas são representadas dessa maneira: [. Este símbolo representa o princípio Tai Ji (que pode ser traduzido como ´pólo supremo´). A parte preta simboliza o Yin (negativo, terra) e a branca o Yang (positivo, céu).***

No Hermetismo estas ´forças´ são designadas segundo suas atividades, são elas a ´solução´ e a ´coagulação´ (Solve et Coagula) ou a expansão e a contração.

Quanto aos jogos com bola, são igualmente significativos. Entre os maias, havia um jogo chamado ´ulama´, praticado com uma bola de látex, cujo caráter sagrado e cosmológico era evidente, simbolizando o conflito das forças opostas e o movimento dos astros.

Em suma, em sua origem, os jogos, além de servirem como entretenimento e atividade física, possuíam uma importante dimensão simbólica e ´sagrada´.

Hoje, na maioria dos jogos, tal dimensão simbólica existe apenas de forma vestigial.

Tratarei, em outro texto, especificamente sobre os vestígios simbólicos no futebol.

Mas, afinal, que benefício isso pode trazer ao esportista e ao fã do esporte?

A compreensão de que os jogos esportivos já estiveram submetidos a princípios que nossos ancestrais conheciam e expressavam em suas obras arquitetônicas (por meio da geometria sagrada), em sua literatura e textos sagrados (por meio da linguagem simbólica e da ´ciência das letras´) e, inclusive em seus jogos.

Princípios que consideram o homem integralmente, não apenas como uma máquina biológica, mas como um ser que pode mediar o céu e a terra, expressando toda a beleza da ordem cósmica em suas obras.

Se o descortinar dessa dimensão original dos jogos despertar o desejo de reviver esta integridade ideal, um grande benefício terá sido alcançado.

* Segundo Christian Jacq em ´O Mundo Mágico do Antigo Egito´, Bertrand Brasil, 2001.
** ´… os jogos foram na origem coisa muito diferente dos simples entretenimentos profanos que se tornaram na atualidade; o jogo de xadrez, aliás, é um daqueles em que os traços do caráter ´sagrado´ original permanecem mais aparentes, apesar dessa degeneração´. – René Guénon.
*** Essas forças não representam um dualismo ´maniqueísta´, pois o Tai Ji representa a unidade da qual o Yin e o Yang são derivados.

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