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27/07/2012

O olimpismo: uma lição de vida?

Depois da modernidade, poderá dizer-se, na esteira de Wittgenstein, que já se acumulou tanto conhecimento sobre o mundo e afinal está por criar uma sabedoria que nos ensine a viver. O Desporto surgiu, no século XIX, com inspiração elevada, como sabedoria de vida, através do olimpismo que Coubertin idealizou. Não há teórico, que se adentre nesta matéria, que não se confesse devedor ao pioneirismo deste aristocrata francês, discípulo do cónego Thomas Arnold e da filosofia moral tipicamente anglo-saxónica. Por outras palavras, eles dizem-lhe o que Dante disse de Vergílio: “Tu duca, tu signore e tu maestro”.

Em Les Assises Philosophiques de l’Olimpisme Moderne, que reproduz o texto de uma mensagem radiodifundida em 1935, Coubertin resume, em cinco pontos, a ideologia do olimpismo:

-O olimpismo é uma religião, a célebre religio athletae: “Cinzelando o seu corpo, pelo exercício, como o faz o escultor de uma estátua, o atleta antigo honrava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira”;

– O olimpismo supõe uma aristocracia dos atletas que compõem uma  elite baseada democraticamente na igualdade de oportunidades. Aqui se situa a famosa sentença: “Para que cem se entreguem à cultura física, importa que cinquenta pratiquem desporto; para que cinquenta pratiquem desporto, é preciso que vinte se especializem; para que vinte se especializem, bem é que cinco sejam capazes de surpreendentes proezas”.

-“Mas ser uma elite não basta, é preciso que esta elite seja uma  cavalaria”. E prossegue: “Mas ser uma elite não chega; é preciso ainda que essa elite seja uma cavalaria. Os cavaleiros são, antes de tudo, irmãos de armas, homens corajosos, enérgicos, unidos por um vínculo mais forte do que o da simples camaradagem”. O fair play é a sua regra.

-A ideia de trégua, “de generosa e pacífica emulação”.

-O culto da beleza. E assim os Jogos, com um suplemento artístico, ampliariam o seu projecto-esperança à complexidade humana.

Força é convir que, para 1935, as declarações de Coubertin não se revestiam de qualquer assomo de novidade. Elas reflectiam o espírito do tempo. Era então moda afirmar-se que a cultura física criava homens novos, de esplendorosas qualidades humanas. Recordo a minha leitura do livro de Houston Stewart Chamberlain, La Genèse du dix-neuvième siècle (tradução do alemão). Tratava-se de um livro de inspiração pangermanista, cuja tese rácica defendia que tudo o que na Europa havia de admirável, após o caos étnico da queda do Império Romano, era obra da raça pura dos germanos, dada a uma corajosa vida ao ar livre onde os jogos guerreiros predominavam.

O nacional-socialismo alemão tinha, neste livro, o seu “evangelho”. Mas já, anteriormente, outros escritores alemães, como Woltmam e C. Newman, tinham procurado explicar o Renascimento, com a infiltração do “fresco sangue germânico”.

Na minha pouquidade, sempre discordei, nas aulas que leccionei, no ensino público (e lecciono, hoje, no ensino privado), que a cultura física (e o desporto), por si só, fosse o factor de transformação individual e social. Já em finais da década de 60 eu sabia que qualquer fenómeno histórico resulta de uma complexidade de factores, agentes, ocorrências, condicionalismos. Na Revue des Deux Mondes (Février de 1902), em artigo intitulado «A força nacional do desporto », escreveu Coubertin : « O utilitarismo é a corrente dominante, na época que atravessamos”. E é mister que o Desporto nele se integre, “em nome das concorrências democráticas e do struggle for life”. Na Revue Universitaire (de 15 de Maio de 1892), não tergiversa: “Para mim, o verdadeiro herói olímpico é o adulto macho individual”. Como negar que Pierre de Coubertin procurou penetrar, no desporto, em determinado momento da sua vida, a corrente utilitarista inglesa?…

O utilitarismo clássico é obra, principalmente, de três filósofos: Jeremy Bentham (1748-1832), que escreveu An Introduction to the Principles of Morals and Legislation; John Stuart Mill (1806-1873), que deu à estampa On Liberty e Utilitarianism; e ainda Henry Sidgwick (1838-1900), que publicou The methods of Ethics. Segundo Gilbert Hottois, na sua História da Filosofia – da Renascença à Pós-Modernidade (tradução portuguesa do Instituto Piaget, 2003): “O utilitarismo inscreve-se na grande tradição do empirismo inglês, tanto do ponto de vista da concepção do mundo, da teoria do conhecimento, como do interesse crítico em relação ao político (…).

O utilitarismo só pode compreender-se com o desenvolvimento da Economia, que floresce em França e, mais ainda, na Inglaterra, a partir da segunda metade do século XVIII e no início do século XIX (Adam Smith e David Ricardo). A economia política, então a despontar, é uma das fontes mais importantes do pensamento moderno e contemporâneo” (pp. 189 ss.). Adam Smith, no seu célebre An enquire into the nature and causes of the wealth of nations, não vislumbra assomo de contradição na articulação entre os interesses individuais e os colectivos, numa sociedade onde a oferta e a procura possam actuar livremente, num mercado sem entraves.

Quem não vê, aqui, o liberalismo que Karl Marx meteu a ridículo? Ninguém contesta que o proletariado, no sentido que Marx deu à palavra, não existe já. Mas a extensão do poder do Estado, como hoje se verifica, não significa também, mesmo sem o subtil exercício dialéctico de alguns “fazedores de opinião”, que o neoliberalismo é, cada vez para mais gente, um venenoso perfume? Mas continuemos a resumir a filosofia do utilitarismo:

-A moral é uma disciplina empírica. O que é bem ou o que é mal é a  experiência a dizê-lo e não qualquer dedução, a partir de princípios.

– Os valores não são transcendentes. No utilitarismo, queimam-se  grãos de incenso ao relativismo cultural e histórico dos valores.

– São as ciências da natureza que permitem um cálculo rigoroso,  visando maximizar a felicidade e minimizar a infelicidade.

– Os actos avaliam-se, não pela pureza interior da intenção, mas pelas consequências que provocaram. Se tomarmos à letra a famosa distinção de Max Weber, entre ética da responsabilidade e ética da convicção, o utilitarismo assume declaradamente a primeira.

– Tendo Hume (1711-1776), o empirista e o agnóstico (e amigo íntimo de Adam Smith), como seu ascendente, o utilitarismo defende uma ética constatativa, uma ética do ser, do dado, do facto e não uma ética do dever-ser, do direito, da razão. Em Hume são as emoções, as paixões a grande fundamentação da ética. Ética do utilitarismo, precursora da de Bentham? Acima do mais, nascia a ética burguesa.

Ainda sobre David Hume, será de realçar que se trata de um filósofo atual: os representantes da fenomenologia, do neopositivismo e dos funcionalismos de vária ordem continuam a reclamar-se da sua paternidade. Porque o secularismo, o agnosticismo, o naturalismo e todas as reminiscências da religião das Luzes são hoje aceites e aprofundadas, por muitos homens da ciência e da política. John Stuart Mill, no seu Ensaio sobre a Liberdade, anuncia os primeiros clarões do liberalismo democrático: “O único objectivo pelo qual a força pode ser exercida legitimamente, em relação a um membro de uma comunidade civilizada, contra sua vontade, é com vista a impedi-lo ser nocivo aos outros”. Em que muito pese ao fundamentalismo socialista, o utilitarismo contribuiu ao reconhecimento dos Direitos do Homem, suas liberdades e garantias.

Mas o excesso de individualismo, uma declarada alergia ao papel do Estado na Educação, na Saúde, na Justiça, na Segurança, nas Finanças, no Trabalho, etc., deixaram os marginalizados, os excluídos, incapazes de entrar na competição em que o liberalismo (que é um capitalismo liberal) se movimenta. Poderíamos lembrar, a propósito, o darwinismo social que assenta na luta pela vida e no triunfo do mais forte, ou do mais apto, como expressão de efectivo progresso. Era a Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, no acto de gestação da democracia liberal e Pierre de Coubertin (1863-1937) olhava, para este sistema económico-político, com um sorriso de amena cumplicidade.

E, assim como o “homem livre”, segundo o Platão das Leis, deveria “viver, recreando-se, através de certos jogos e outras diversões”, sem alguma vez trabalhar – também o fair-play significa que são os nobres e a burguesia endinheirada os desportistas a que Coubertin se referia, por convicção própria, ou para escapar à ferina galhofa dos “desportistas” que o rodeavam. Para Coubertin, não existia senão um só Desporto, mas uma diferença insanável dividia, no dealbar do século XX, os desportos nobres (a equitação, a esgrima, o remo), praticados pelos “amadores”, que dispunham de ócio, e os outros desportos, onde os proletários e os camponeses auferiam algum dinheiro. Na vasta trajectória histórica do olimpismo, é de não esquecer o que aconteceu a Jim Thorpe que, nos Jogos de Estocolmo (1912), perdeu as medalhas ganhas, no atletismo, porque era profissional como jogador de baseball. Ele era índio, cumpria as suas tarefas agrícolas, com os vagares de quem é dono do seu tempo, mas o dinheiro era escasso.

Ser profissional de baseball arrancou-o à miséria. Em Estocolmo, o rei Gustavo V, maravilhado com o desempenho do Jim Thorpe, desceu ao terreno, segurou-lhe as duas mãos e, em voz emocionada, exclamou: “Você é o maior atleta do Mundo!”. Era, de facto, o maior atleta do Mundo e um homem, dizem, de trato fraterno e de saudável exuberância. Mas não era um gentleman…

José María Cagigal, no seu livro Oh! Deporte (anatomia de um gigante) editado em 1981, pela Miñon S.A., de Valladolid, reproduz o conceito de amador do Amatheur ,Athletic Club: “É amador o gentleman que nunca participou numa competição pública; que nunca defrontou profissionais, tendo recebido dinheiro por isso; que nunca foi professor, ou monitor, remunerado de exercícios deste jaez; que não seja operário, artesão ou jornaleiro”. Esta definição manteve-se até 1880, data em que a última clásula (ser operário, artesão ou jornaleiro) foi extirpada. Cagigal, no mesmo livro, sustenta que eram os companheiros de Coubertin os que deitavam um breve e desdenhoso aceno ao desporto profissional e não o criador do olimpismo moderno. De facto, trinta e cinco anos depois, Coubertin desabafava, nas suas Memórias Olímpicas: “Sempre o amadorismo! (…) Hoje, posso afirmar, francamente, que este assunto nunca me importou (…).

Vendo o interesse que lhe dedicavam os meios desportivos, dediquei-lhe a máxima atenção, mas sem grande convicção. O meu conceito de Desporto sempre se distinguiu de um grande número, talvez a maior parte, dos desportistas. Para mim, o Desporto é uma religião com igreja, dogmas, culto, mas sobretudo com sentimento religioso e, por isso, parecia-me tão pueril condenar o desportista que recebesse algum dinheiro pela prática do Desporto, como condenar, como incrédulo, o sacristão da paróquia porque tem um vencimento, para assegurar o serviço do santuário” (Publicaciones – Comité Olímpico Español, 1965, pp. 108 ss.). A cultura ocidental, vivendo sempre do sangue tumultuoso de novas experiências, distingue-se das demais culturas principalmente pelo seu grau de secularização… que eu defendo, embora ancião, com fogosa irrequietude. E por quê? Porque as demais culturas se colocam antes e por cima da condição humana. “ É aqui que a ilusão cultural provoca os maiores estragos: quando acreditamos que somos humanos apenas porque temos uma cultura e não por natureza, sempre que encerramos a dignidade do Homem na sua origem étnica, religiosa, nacional ou imperial. Deixamos então de entender a palavra cultura como um aperfeiçoamento livre de nós próprios, mas como uma entrega da consciência a um primado determinista” (Jérôme Bindé, Para onde vão os Valores?, Instituto Piaget, Lisboa, 2006, p. 60).

Podemos admitir então que Pierre de Coubertin desdenhou, por fim, a sociedade vertical, classista e hierárquica da Inglaterra vitoriana? Julgo que não! Ela perdura na composição dos vários COI’s, constelados de fidalgos e de nomes da alta burguesia… europeus! Depois, o facto de o olimpismo se apresentar como religião tal significa, como o assevera o Dalai-Lama, uma crença “que tem como um dos seus principais aspectos a aceitação de alguma forma de realidade metafísica ou sobrenatural, incluindo possivelmente uma idéia de paraíso ou nirvana” (Uma Ética para o Novo Milénio, Sextante, Rio de Janeiro, 2000). E aqui a metafísica ou a espiritualidade residem na Pátria, na Raça, na Bandeira, como vimos acima e, como em todas as religiões, na hierarquia que as proclama e as explica.

A linguagem habitualmente turibular com que o COI é incensado diz-nos que o culto da personalidade nele habita, como afinal nas demais religiões. Mas também a alta competição faz regressar, inevitavelmente, o utilitarismo que é, bem vistas as coisas, a filosofia do liberalismo e ainda um fair-play de clamorosa insensibilidade. Neste passo, transcrevo um texto do escritor brasileiro Rubem Alves, sobre os Jogos Olímpicos: “São um evento assombroso. Começa com aquela festa linda, comovente, festa de fraternidade e de paz. Norte-americanos e iraquianos desfilaram no mesmo desfile, sem que Bush tentasse matar os atletas do Iraque, como terroristas disfarçados. Ele estava jogando golfe. O grande símbolo: uma oliveira cheia de folhas! Dizem os poemas sagrados que a pomba que Noé soltou ao final do dilúvio voltou com um ramo de oliveira no bico. Que bom que seria se aquela oliveira anunciasse o fim do dilúvio de loucuras bélicas, que está destruindo o mundo! Algumas dessas festas ficam inesquecíveis.

Lembro-me do ursinho que marcou as Olimpíadas de Moscou. No encerramento, o ursinho chorou: lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Sei muito bem que o urso não tem rosto, urso tem é focinho, mas seria feio dizer: lágrimas escorriam pelo seu focinho. Do jeito como as coisas vão, em breve se dirá que os bichos têm rosto e os homens têm focinho. Aí chega o primeiro dia. Vai-se a fraternidade. Agora é briga. Briga pelo pódio. O pódio é motivo de briga. Nas Olimpíadas não há lugar para fraternidade, porque fraternidade significa todo mundo junto brincando de roda e nos Jogos Olímpicos não há cantigas de roda. No pódio só cabem três. Cada atleta quer mesmo é que o outro se dane. Ah! A suprema felicidade do velocista dos cem metros, quando sabe que o recordista baixou no hospital acometido de uma súbita cólica renal, na véspera das finais. E as ginastas rezam, enquanto as adversárias executam os seus números: Tomara que ela escorregue…” (ostra feliz não faz pérola, Planeta, São Paulo, 2008, p. 141).

Não sei se do legado literário que Coubertin nos deixou não possa fazer-se o resumo seguinte:

-O olimpismo é uma religião, um livre acto de consciência, responsavelmente assumido.

-O atleta olímpico faz parte de uma elite que resulta da igualdade de oportunidades.

-O olimpismo revivesce nos ideais de cavalaria, porque pretende reabilitar a coragem ao serviço de uma espiritualidade que lhe dá sentido.

-A trégua olímpica há-de reflectir um homem, fisica e psicologicamente ágil e forte, capaz de converter-se e de converter os outros à causa da Paz. Só os fortes constróem a Paz.

-O olimpismo, embora não queira crucificar a vida na cruz do conceito (acusação de Garaudy a Platão, no seu livro Palavra de Homem) não esquece que estará para breve o colapso do Desporto, se este não assumir os vários domínios da vida humana, incluindo a literatura e os outros meios de comunicação artística.

Só que o individualismo (e, por extensão, a alta competição) forma o código genético da filosofia utilitarista e da democracia neoliberal, em que estamos imersos. Faço minhas as palavras do Prof. Carlos Diáz, na sua Breve historia de la filosofía (Encuentro Ediciones, Madrid, 2002):

“La posmodernidad se mueve a gusto en lo que llama egoísmo asociativo, individualismo responsable o simplemente ética de los negocios. Buena ética, hacer buenos negocios, good ethics make good business, la bonne affaire de l’éthique y otros eslóganes similares abundan por Europa” (p. 260). A crise financeira que se abateu sobre o mundo todo mostrou que não há mesmo ética nos negócios. Até por esta razão muito simples: se o neoliberalismo rejeita, como discurso infecto ou bafiento, qualquer anseio totalizante e solidário do mundo social, tudo é visto de forma a reafirmar-se a autoridade indiscutível do capital sobre o trabalho e o seu direito a gerir e a governar a produção social das riquezas.

Um outro ponto me interessa salientar: o mercado apresenta-se, hoje, como o fundamento fiável da democracia e, assim, a política desliza para infrapolítica onde as preocupações com o bem comum são olhadas com um olhar lateral. A política como forma exigente de viver um compromisso sério, ao serviço dos outros, designadamente os mais necessitados, é bandeira que o neoliberalismo dificilmente desfralda.

Aqui, poderá levantar-se o olimpismo como contra-poder ao poder das taras dominantes, como foco irradiador de um mundo novo, que tente erradicar da face da Terra um individualismo sinónimo do mais empedernido egoísmo. Foi isso o que Coubertin tentou fazer, embora a “episteme” do seu tempo e as marcas de classe da sua prática. Façamos, com o espírito de Coubertin, o que Coubertin não podia, não sabia fazer…


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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