O que a NBA ensina e o que a NBA tem para aprender

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A HSBC Arena, no Rio de Janeiro, sediou no último sábado o primeiro jogo da NBA na América do Sul em todos os tempos. O espaço recebeu um confronto entre Washington Wizards e Chicago Bulls, válido pela pré-temporada da liga profissional de basquete dos Estados Unidos, e o evento serviu para criar sensações dicotômicas. Além de ter ensinado muito, a organização da competição recebeu enormes lições no Brasil.

A primeira grande lição da NBA aos brasileiros começou, na verdade, muito antes do jogo. A liga escolheu times que têm relevância no Brasil – os Bulls pela torcida, os Wizards pela presença do pivô brasileiro Nenê – e iniciou há pelo menos seis meses um plano de divulgação do evento.

Outra aula da NBA foi dada nos dias que antecederam a partida. Os dois times chegaram ao Brasil no início da semana e fizeram um intenso roteiro. Os jogadores foram, por exemplo, ao Cristo Redentor e ao Morro do Alemão. O segundo passeio foi usado para promover o “NBA Cares”, programa assistencial da liga.

O ápice dessa programação foi o “Dia do Torcedor”, promovido na última quinta-feira. Os times se apresentaram na HSBC Arena e abriram o espaço para cerca de 4 mil torcedores. Dois garotos que estavam nas arquibancadas ainda foram convidados para entrar na quadra e tentar arremessos de três pontos.

Para completar, Bulls e Wizards tiveram agenda atribulada de compromissos com veículos de mídia. O atendimento a diferentes plataformas incluiu jogadores, ex-jogadores e dirigentes da NBA.

O roteiro foi muito bem montado, portanto. A NBA soube promover o jogo e maximizar a exposição relacionada a ele. A partida no Brasil serviu como mote para a liga interagir com a mídia, promover aspectos que importam a ela e mostrar pontos turísticos locais – afinal, isso serviu para valorizar o investimento do Rio de Janeiro no evento e reforçar o caráter único da partida.

No sábado, a NBA completou a aula ao montar um verdadeiro show para o público que foi à HSBC Arena. Houve apresentações de mascotes, dançarinos e cheerleaders. A partida contou com ações no telão e na quadra. Todo o entorno foi bem montado.

E aí começaram os pontos em que o controle fugiu das mãos da principal liga de basquete do planeta. O show que precedeu a partida foi acompanhado por uma HSBC Arena vazia. Até o fim do segundo quarto havia enormes clarões no ginásio, que teve 13.635 espectadores.

Arnon de Mello, presidente da NBA no Brasil, disse que a liga ficou satisfeita com a experiência proporcionada a quem entrou na arena e que o atraso do público foi causado por problemas fora do equipamento. Houve uma clara divisão entre o que os torcedores vivenciaram dentro e fora do ginásio.

Como gestora do evento, a NBA tem razão ao dizer que não pode assumir a culpa por problemas estruturais da cidade. No entanto, é impossível dissociar as coisas para quem vai ao jogo. O público paga por uma experiência completa, que começa na compra do ingresso e acaba no retorno para casa.

Uma lição que o jogo de sábado oferece, portanto, é que a gestão de um evento precisa ser sistêmica. É fundamental que a organização se preocupe com detalhes, mas a partida precisa ser abordada como algo muito maior do que os 90 minutos. É o que a NBA fez com maestria até o dia da partida.

A realização de um evento esportivo precisa de suporte de autoridades locais. A partida depende de apoio logístico em aspectos como trânsito e entrada de torcedores.

Além disso, a organização precisa se esforçar para minimizar o impacto de problemas externos. O Botafogo fez isso há dois anos, quando instituiu shows gratuitos antes dos jogos a fim de reduzir as filas que se formavam no Engenhão.

A NBA também tinha uma programação antes da partida. O que faltou à liga foi entender quais atrações fariam a chegada do público à HSBC Arena ser paulatina e menos atribulada.

Entre as pessoas que chegaram cedo, chamou atenção a animosidade. Nenê foi vaiado quando aquecia e quando pegou o microfone para falar uma mensagem de abertura da partida. O jogador Leandrinho e o cantor Naldo, que estavam na torcida, também sofreram com apupos do público quando apareceram nos telões.

A situação ficou ainda pior porque o ex-jogador Oscar Schimdt, que estava na torcida, foi ovacionado pelo público. E porque o “Mão Santa”, interpelado por jornalistas sobre as vaias, endossou as críticas a Lendrinho e Nenê, jogadores com histórico conturbado na seleção brasileira.

“Quer que eu diga o quê? Há anos eu venho dizendo. Ele [Nenê] vem aqui falar de país? Que país ele tem? Sobretudo sobre ele e o Leandrinho, não tenho nem o que dizer. O povo não esquece”, declarou Oscar.

Neste ano, Leandrinho e Nenê estiveram entre os jogadores que pediram dispensa da seleção brasileira que disputou a Copa América de basquete. O Brasil perdeu todos os jogos, foi eliminado ainda na primeira fase e agora depende de um convite para disputar o Mundial da categoria.

Leandrinho e Nenê tiveram problemas físicos, mas as dispensas também refletiram negociações mal conduzidas com as equipes que eles defendem na NBA. “Isso não me abala. Estou calejado. É coisa de gente egoísta, mesquinha e pobre de espírito”, disse o pivô do Washington Wizards depois do jogo de sábado, quando questionado sobre as vaias e as declarações de Oscar.

Responsáveis pela organização da liga admitiram que as vaias foram frustrantes. A NBA esperava uma torcida participativa e simpática, sobretudo pela presença de um brasileiro na quadra.

A reação do público, contudo, é um reflexo claro de uma escolha feita pela própria NBA. O Washington Wizards não está entre os times mais fortes da competição, e o principal atrativo da franquia no Brasil era a presença de Nenê, um pivô que está nos Estados Unidos desde 2002 e tem histórico raso no país natal.

Entre os brasileiros que estão na NBA, Leandrinho causaria reação parecida. Tiago Splitter (San Antonio Spurs) talvez não fosse vaiado, sobretudo por ter um histórico de participações na seleção brasileira, mas é pouco carismático. A única opção da liga seria ter no Brasil o Cleveland Cavaliers do pivô Anderson Varejão.

Varejão também teve problemas com a seleção brasileira no passado e é outro que pediu dispensa da Copa América. No entanto, o pivô é extremamente carismático, o que o transformou em personagem até nos Estados Unidos.

A NBA deu várias lições ao esporte brasileiro em toda a fase que precedeu o jogo de sábado. Depois da realização da partida, porém, está claro que a liga também recebeu dois grandes ensinamentos: é impossível ignorar os problemas externos ao planejar um evento e nenhum campeo
nato pode ser maior do que seus ídolos.

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