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10/12/2018

O que a Libertadores vende?

Disputada no último domingo (09), em Madri, a decisão da Copa Libertadores de 2018 foi um bom resumo de muitas das características positivas e negativas do principal torneio de clubes do futebol sul-americano. É difícil imaginar que isso aconteça, mas um olhar para todo o contexto do jogo em que o River Plate superou o Boca Juniors seria extremamente relevante para entender o que pode e o que precisa ser feito no continente. O momento seria ideal para uma autoanálise.

A decisão da Libertadores, afinal, foi disputada na Espanha depois de o ônibus que levava jogadores do Boca para a partida final ter sido apedrejado por torcedores do River. Não havia condições de realizar o jogo na Argentina e garantir a segurança dos atletas, o que é uma vergonha. Não houve uma punição condizente com um episódio dessa magnitude, o que é outra vergonha.

O River que chegou à decisão, aliás, disputou sete partidas da edição 2018 da Libertadores com um jogador em condição irregular. A situação foi notificada pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) em seu site, acompanhada de um aviso de que não haveria punição porque não houve denúncia em tempo hábil. Se existia possibilidade de o erro ser percebido por um rival, o texto encerrou. Depois, na mesma Libertadores, o técnico do River, Marcelo Gallardo, ignorou punição da Conmebol e foi ao vestiário orientar jogadores.

A Libertadores de 2018, portanto, coroou um time que usou um jogador irregular, comandado por um técnico que trabalhou a despeito de estar suspenso, cuja torcida atacou jogadores rivais – o regulamento não é claro quanto a isso, mas admitiria sanções como a suspensão da partida final. Se a Conmebol fosse dura, poderia ter dado o título ao Boca Juniors e aplicado uma punição exemplar ao River.

Em vez de punir o River Plate, a Conmebol escolheu lucrar. A ida da decisão a Madri tem a ver com motivos mercadológicos – era fundamental encontrar um local que bancasse a conta, o que alijou praticamente todas as possibilidades de manter a partida na América do Sul. Depois de flertar com Miami (Estados Unidos) e Doha (Qatar), a entidade que comanda o futebol no continente fez a escolha mais irônica. Chamada Libertadores para homenagear os heróis da independência das antigas colônias espanholas na América do Sul, a competição acabou sendo disputada na Espanha.

O jogo despertou interesse local, foi assunto na mídia espanhola e lotou as arquibancadas do estádio Santiago Bernabéu. Além disso, atraiu personalidades como o argentino Lionel Messi, que defende o Barcelona e esteve em um dos camarotes. Tudo isso num ambiente com “cara” de futebol sul-americano, com torcidas inflamadas muita vibração.

Em campo, porém, chamou atenção, sobretudo no primeiro tempo, o alto número de passes errados. Boca e River fizeram uma partida tensa e tentaram tocar a bola, mas mostraram muito mais competitividade do que proficiência no fundamento. Se sobrou emoção no segundo tempo e na prorrogação, faltaram aspectos como compactação, pressão sobre a bola em setores específicos e capacidade de movimentação entre as linhas dos rivais.

A decisão da Libertadores de 2018 expôs os problemas de gestão do campeonato como um todo, a falta de capacidade de gerir um evento e garantir a segurança dos atletas e o nível técnico. Em contrapartida, mostrou emoção em campo e nas arquibancadas num patamar superior à média dos principais jogos da Europa.

Além disso, a decisão da Libertadores disputada fora da América do Sul serviu apenas a interesses econômicos dos dirigentes sul-americanos e dos responsáveis por levar o jogo a Madri. Os responsáveis pela gestão do futebol no continente souberam transformar um momento de vergonha em uma oportunidade de faturar, mas não passaram nem perto de aproveitar essa chance. Não houve patrocinadores específicos para o mercado espanhol ou um trabalho de comunicação voltado a fortalecer as marcas de Boca, River e Libertadores na Europa, por exemplo. Não houve um projeto que soubesse quais atributos poderiam ser comercializados em âmbito global.

O futebol sul-americano não é o futebol europeu, mas tem muito a oferecer ao Velho Continente. Para isso, porém, é fundamental que os organizadores saibam o que vender e como vender. Mesmo que a oportunidade para isso seja uma das maiores vergonhas da história do esporte.

 

 

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