Universidade do Futebol

Rodrigo Azevedo Leitão

14/10/2012

O ritmo de transmissão da posse da bola e o jogo de futebol

Em algum momento da nossa “vida escolar” – não me lembro ao certo o momento exato – aprendemos que “velocidade” é uma grandeza física vetorial, que possui direção, sentido e módulo, e que diz respeito ao quanto se desloca um objeto (corpo, coisa, algo) no espaço, em determinado intervalo de tempo.

Em outras palavras, ela se refere à distância percorrida por alguma coisa, em uma unidade de tempo.

Já debatemos aqui neste espaço duas vezes, algumas ideias a respeito do conceito de velocidade no jogo de futebol.

Como a partida de futebol é um jogo tipicamente de passes (fundamento mais frequente em um confronto), e como a velocidade no jogo é assunto do meu maior interesse, tenho estudado, integrando as duas coisas, o quanto jogadores de diferentes equipes de futebol transmitem a bola entre si por unidade de tempo.

Claro que esse meu interesse não tem fim nele mesmo. Ele tateia algo maior, mais essencial – tenta entender possíveis relações entre diferentes ritmos de transmissão da posse da bola com o número de finalizações e êxitos das equipes.

A bola, durante as partidas de futebol, se move quase que o tempo todo. Ou porque um jogador a está conduzindo, ou porque a está dominando, passando, chutando, etc.

O fato é que de certa forma, as equipes em geral, apresentam uma movimentação da bola por unidade de tempo, que lhes é típica.

Da mesma maneira, o quanto cada jogador intervém diretamente sobre a bola durante o caminho que ela percorre (com passes, cruzamentos e lançamentos), por unidade de tempo, não só interfere na distância total percorrida por ela, mas também no número de vezes que ela troca de direção.

E isso também, é algo que tem se mostrado típico para as equipes.

Claro que, em análises realizadas em campeonatos de países diferentes, já há algo que os caracteriza em termos de tipicidade. O mesmo acontece quando analisamos categorias (etárias) diferentes no futebol de base.

Porém, para avançarmos o debate, por hora, vamos nos atentar ao número de passes (ou melhor, fundamentos de transmissão da posse da bola) por unidade de tempo, realizados pelos jogadores.

Deixemos de lado, quanto (em distância) a bola se move em um jogo – retomarei esse assunto futuramente – e quais também são as características dessa variável de acordo com a cultura futebolística que a expressa.

O fato é que, de qualquer maneira, algumas (poucas) equipes chegam a uma impressionante média de um passe a cada 2,5 segundos – enquanto em outro extremo, algumas equipes (poucas também) realizam um passe a cada 8,4 segundos.

Em geral, por exemplo, no Brasil, algumas das equipes tradicionalmente mais fortes apresentam média de um passe a cada 4,2 segundos (o que, em princípio, parece ser um bom valor).

Jogadores que habitualmente conduzem muito a bola, que dão muitos toques nela antes de fazer um passe, ou que para controlá-la precisam fazê-la parar de se movimentar, são os principais motivos para equipes com médias altas (de passe por unidade de tempo).

Aparentemente (segundo os achados iniciais), equipes que têm um ritmo mais acelerado na transmissão da posse da bola (e que tem bom aproveitamento nos passes) tendem a controlar melhor o jogo, construir melhores condições para finalizar a gol e, principalmente, ter mais êxitos em seus confrontos.

Um ritmo mais acelerado, com sucesso no aproveitamento da transmissão da posse da bola, só é possível como característica típica de uma equipe se for a expressão de um comportamento condicionado nos treinamentos (caso contrário será resultado dos “ruídos sistêmicos” externos à equipe).

E quando um jogador consegue, com excelência, condensar o hiato entre o pensar e o agir (transformando-os em uma coisa só) estará se habituando a encontrar mais rapidamente soluções (linhas de passe) e antevendo problemas.

É como se sua percepção, alterada em favor do jogo, fizesse com que ele (o jogo) passasse a acontecer em uma velocidade menor para o jogador (e maior para o observador externo – incluindo como observadores externos, os adversários).

Mas isso é assunto denso, que merece tempo no espaço e muito espaço no tempo.

Então para não atropelar as coisas, e seguir em uma velocidade maior do que a recomendada, deixemos esse assunto (o da percepção vs velocidade) para uma outra coluna.

Por hoje é isso…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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