O ´sujeito-torcedor´ nas audiências de televisão

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Especialmente no Brasil, o futebol é visto por muitos autores como um fenômeno cultural presente na vida cotidiana de nossas sociedades. Roberto Da Matta, Luiz Henrique de Toledo, Edson Gastaldo e Ronaldo Helal, entre outros estudiosos do campo, apontam que esse fator ultrapassa largamente os elementos presentes nas quatro linhas do campo, sendo fator de intervenção e mobilização coletiva em ruas, praças, bares e também na esfera privada de muitos lares e famílias.

Quem não conhece sujeitos que transformam as noites de quarta-feira ou as tardes de domingo como horários sagrados e reservados ao futebol? E não estou me referindo à prática do esporte propriamente dita, mas a práticas de consumo, ao processo ritualístico de acompanhar as partidas pela telinha da televisão. Certas competições de ampla cobertura midiática, como as Copas do Mundo e também o Brasileirão, são grandes eventos que nos mostram de maneira mais clara a construção desse papel de “sujeito-torcedor” ao se tornarem ocasiões na qual o receptor faz uso de suas reservas identitárias pelos times do coração ou pelas seleções nacionais.

Assistir a uma partida de futebol pela televisão torna-se uma experiência configuradora de sentidos às audiências ao reconhecermos essa atividade como uma prática simbólica, a qual é explicitada no ato de gritar, chorar, rir, xingar, reclamar do juiz, esbravejar do técnico, beijar o escudo do time, discutir e brincar com o torcedor rival. Ou seja: o “sujeito-torcedor” se manifesta de acordo com seu grau de participação e leitura diante das imagens da televisão.

Ainda que sumariamente, o livro “Negro, Macumba e Futebol”, de Anatol Rosenfeld, pode nos ser útil no debate sobre algumas das reações do torcedor. O autor comenta que o torcedor, como o próprio nome já diz, é aquele que se torce, se retorce, se contorce, imitando os gestos dos jogadores e expressando a tensão do embate que se desenrola em campo. Sendo assim, a descrição do torcedor e da possível construção da identidade “momentânea” desse sujeito nas transmissões televisionadas é primordial para entendermos como se funda a interlocução entre os dois pólos.

Inicialmente, podemos buscar esse papel de “sujeito-torcedor” na tessitura configurada através dos usos (ou consumos) que esses indivíduos fazem dos meios, ou em nosso caso, das transmissões das partidas de futebol pela televisão. Nesse sentido, o sociólogo inglês Roger Silverstone (1996) confere à televisão a idéia de forma simbólica que opera através dos seus programas e se constrói nos usos que os receptores fazem dos meios. Esse reconhecimento da audiência como leitora e usuária dos textos (esses plurais e configuradores de sentidos) é o que nos interessa aqui. Ou seja, o sentido de análise das audiências televisivas não está em avaliar a dicotomia existente entre audiência passiva/ativa – entendo que a recepção é ativa pelo simples fato de ligar o aparelho de televisão e lidar com escolhas, necessidades e intenções -, mas em perceber qual é o tipo dessa atividade, o quanto ela é significativa e em que medida ela promove rupturas ou mesmo continuidades.

Silverstone (1996) menciona ainda que a relação do sujeito com a televisão extrapola o simples processo cognitivo (de aquisição do conhecimento), já que dimensiona outros aspectos ligados com a representação como o compartilhamento simbólico e intersubjetivo, ou seja, no encontro com os demais “sujeitos-torcedores” no interior da vida social. Portanto, a importância de análise do contexto social como fator de tessitura entre o meio e a audiência também é importante para perceber que a contribuição está justamente na interseção entre os sujeitos receptores (que negociam e interpretam os propósitos do emissor, promovendo usos particulares dos produtos consumidos) com os meios (esses considerados como instâncias provedoras de textos múltiplos e híbridos).

Vale lembrar também que as audiências são entidades mutantes, que transitam e vivem em dinâmicas de tempos com arranjos múltiplos e superpostos, sendo constituídas em diferentes espaços para além da domesticidade do lar. Os espaços urbanos, tais como as praças públicas, restaurantes, bares ou mesmo os locais de trabalho, surgem dessa forma, como locais de observação desses fenômenos comunicativos. Sendo assim, o “sujeito-torcedor” descrito dessa maneira traduz o ato de torcer em uma experiência real e compartilhada, entremeada em redes de significados, em narrativas e nos textos do cotidiano configurados pela ação baseados em escolhas e ajustamentos.

Portanto, o tratamento das audiências de televisão como entidades individuais e sociais complementares traz consigo a percepção de que a perspectiva cultural, ou seja, dos sistemas simbólicos compostos (da representação), não pode ser desprezada quando nos atemos para a análise das atividades desempenhadas pelos receptores em seus distintos contextos sociais. A audiência enquanto produção é um ato com dimensão prática. Os sujeitos receptores são atores que participam do processo comunicativo como construtores. A recepção é interativa e se conforma em uma constante partilha de práticas culturais (Silverstone, 2002).

A vida desses sujeitos que coletivamente compõem as audiências televisivas é atravessada cotidianamente por imagens, representações, formas e linguagens. Essa composição advinda do meio e compartilhada intersubjetivamente pelos indivíduos configura um “sistema estruturado de signos, uma estrutura geral que ordena formas de dizer”. (França, 1996, p.33). Se compreendermos que a televisão é essa instância configuradora de sentidos na vida dos sujeitos, estamos localizando a atividade como prática de interlocução entre os meios e os receptores.

Pensando no recorte das partidas de futebol televisionadas, acredito que a intervenção desses sujeitos que reordenam os sentidos partilhados através desse processo interativo se torna um objeto de estudo científico ao articular a identidade de “sujeito-torcedor” no palco de experiências do mundo social. E as ciências humanas necessitam de maiores respostas diante da importância e crescimento de tais questões.

* Jornalista e Especialista em “Imagens e Culturas Midiáticas” pela UFMG. Coordenador do Cepif (Centro de Pesquisas Interdisciplinares do Futebol) e Bolsista AT CNPq do Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Publica (EME) do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG. Contato: andrempaim@yahoo.com.br.

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Notas

[1] Determinadas pesquisas de audiência apontam que as transmissões de partidas da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coréia, chegaram a índices de 97% dos televisores ligados por todo o país, além de cotas de patrocínio girando em torno de U$ 16 milhões (Gastaldo, 2005).

Bibliografia

FRANÇA, Vera Veiga. Narrativas televisivas: programas populares na TV. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
GASTALDO, E. L.; LEISTNER, Rodrigo; SILVA, Ronei Teodoro da; MCGINITY, Samuel. Futebol, Mídia e Sociabilidade: uma experiência etnográfica. Cadernos Ihu Idéias, São Leopoldo, v. 43, p. 1-20, 2005.
ROSENFELD, Anatol. Negro, macumba e futebol. Campinas, SP: Unicamp; São Paulo: EDUSP, 1993.
SILVERSTONE, Roger. Televisión y vida cotidiana. Buenos Aires: Amorrortu editores, 1996.
SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2002.

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