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24/02/2015

O treino contextualizado no futebol: prioridade ou totalidade?

No futebol como em outras modalidades esportivas voltadas para o alto rendimento, o treino surge como ponto crucial da preparação das equipes para atuação em ambiente competitivo. Tratando-se do futebol brasileiro e do fatídico jogo contra a seleção alemã na Copa do Mundo de Futebol de 2014, a má atuação da seleção nacional trouxe a tona uma enxurrada de apreciações vinculadas à preparação dos futebolistas brasileiros, tanto em curto, como em longo prazo.

Dentre essa disposição, as condições do treino estabelecidas pelos treinadores brasileiros, tanto nas equipes formativas, quanto no grupo profissional foram fortemente questionadas. A preparação vinculada aos aspectos tático-técnicos foi tema de muitas considerações, reportando-se especificamente na falta de coerência entre o modelo de jogo e os procedimentos de treino.

Nessa relevância, o treino realizado em consonância com o modelo de jogo da equipe visa à criação de hábitos de ordem individual e coletivo, assim elevando o nível organizacional da equipe em meio à complexidade sistêmica do jogo. O desenvolvimento de competências específicas do futebol surge como ponto prioritário no treino, no qual o jogador deve compreender os comportamentos utilizados pela equipe em momentos defensivos e ofensivos, sem e com a posse da bola e nos mais diferentes setores do campo, bem como atrelados a oposição do adversário.

Com esse propósito, emanam algumas propostas de ensino e treino esportivo (Teaching Games for Understanding – TGfU, BUNKER e THORPE, 1982 – Inglaterra; Tactical Decision Making Approach – JOHN et al., 2000 – França; Tactical Approach – CARMEL e AGARWAL, 2001 – EUA; Game Sense – LIGHT, 2004 – Austrália; Game Concept Approach, ROSSI et al., 2007 – Singapura) que vinculam o jogo como mote balizador do processo, buscando aproximar situações específicas do jogo para o ambiente de treino. No caso do futebol, a Periodização Tática (Portugal) surge como uma nova perspectiva de treino no âmbito nacional, mas que ainda não se consolida no campo prático.

A periodização tática visa desenvolver o treinamento atrelado aos propósitos inerentes ao modelo de jogo da equipe, ampliando o conhecimento através da construção de princípios de ação em meio à funcionalidade do jogo. No contexto do futebol brasileiro, a inserção da periodização tática no campo prático ainda é dificultada, devido principalmente às condições operacionais e culturais.

Todavia, a periodização tática compreende na sua totalidade, o treinamento de conteúdos específicos do jogo e vinculados ao modelo de jogo da equipe, visualizando os jogadores como sistemas lineares, no qual potencializam conhecimentos e competências, criando hábitos e logo os reproduzindo no jogo. No entanto, o comportamento humano não se dissipa de forma linear, pois sua interação com outros indivíduos e em variados ambientes cria perturbações e modifica suas ações.

A operacionalização do treino contextualizado com o modelo de jogo certamente irá desenvolver comportamentos importantes para atuação dos jogadores no âmbito competitivo. No entanto, o jogo não permeia somente por nuances de previsibilidade, aloca-se em momentos menos previsíveis, no qual as soluções para as diversas situações-problema podem estarem “suspensas” na variabilidade do contexto.

Nesse sentido, o treino deve permitir o desenvolvimento de atividades fora das particularidades do jogo, no qual os jogadores estabeleçam diferentes relações interpessoais, aguçando o prazer e a motivação para o enfrentamento da rotina de treinos e jogos. 

Para tanto, a criação de hábitos para um “jogar” organizado, estimulado a partir do treino contextualizado deve ser o aspecto prioritário, mas não totalitário, pois a complexidade do jogo interpõe as situações controláveis e condiciona-se também por outras influências internas e externas ao seu cerne processual.

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