Universidade do Futebol

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22/02/2014

O treino das capacidades psicológicas no futebol

O ensino e o treino de futebol têm como principal objetivo o desenvolvimento de jogadores inteligentes, que estejam aptos a utilizar suas qualidades de forma adequada (em favor dos objetivos da equipe) para resolver os problemas impostos pelo meio instável que é o jogo de futebol. O treino das competências psicológicas implica na aprendizagem ou aperfeiçoamento de competências cognitivas, psicológicas específicas e estratégias para a competição, com o objetivo de melhorar as respostas dos jogadores frente às dificuldades impostas pelo jogo de futebol (Cruz e Viana, 1996).

Para Nerin (1986) e Zeyfang (2001), os fatores cognitivos e emocionais desempenham um papel determinante na prestação esportiva dos jogadores e das equipes de futebol, justificando a importância das capacidades psicológicas no desempenho esportivo. Segundo Houlier & Crevoisier (1993), as capacidades psicológicas não recebem tanta atenção quanto às dominantes físico-motora, estratégico-tática e técnica no processo de treinamento no futebol. De acordo com Pacheco (2005), é necessário desenvolver programas contínuos de treino para que as competências psicológicas possam ser aprendidas e desenvolvidas.

Além das capacidades cognitivas, o treino mental tem como objetivo melhorar o controle emocional, a capacidade de concentração, o controle da atenção, o reforço da autoconfiança e elevar os índices de motivação (Raposo & Aranha, 2000). Para Silvério & Srebro (2002), o treino mental e o rendimento dos jogadores de futebol são influenciados principalmente pela motivação, concentração, autoconfiança, stresse e controle emocional, já que os jogadores de futebol são seres humanos e naturalmente apresentam reações emocionais durante o jogo que precisam ser controladas.

Em minha opinião, as competências psicológicas são de fundamental importância para o treino do futebol. Acredito que todas as competências psicológicas acima citadas (motivação, autoconfiança, stresse, controle emocional, capacidade de concentração e controle da atenção) possam ser trabalhadas dentro de campo através dos exercícios de treino, principalmente a parte cognitiva específica do jogo de futebol que se relaciona com a dominante estratégico-tática.

Os exercícios de treino devem contemplar situações em que as dominantes físico-motora, estratégico-tática, técnica e psicológicas estejam, sempre que possível, presentes simultaneamente, como acontece no jogo. A dominante estratégico-tática é, para mim, a mais importante no processo de treino da equipe, mas precisa das outras dominantes para “funcionar” em campo.

Normalmente o que as equipes fazem é treinar separadamente cada dominante:

– Dominante técnica: principalmente com treinos técnicos repetitivos focando no aperfeiçoamento do gesto técnico.

– Dominante físico-motora: principalmente com treinos físicos descontextualizados, onde quase não há, ou simplesmente não há tomadas de decisão.

– Dominante estratégico-tática: principalmente com orientações táticas onde o treinador manda e o jogador faz sem pensar. Quem treina desta forma, joga desta forma. É muito comum nos jogos o treinador ficar gritando na beira do campo o jogo todo o que a equipe deve fazer, pois os jogadores não estão habituados a pensar e executar, mas sim em ouvir e executar. Assim se treina, assim se joga…

– Dominante psicológica: normalmente fica excluída do treino de campo e é tarefa do (quando há algum) psicólogo do desporto.

Com relação ao psicólogo do desporto, acho de suma importância que as equipes tenham um profissional da área para dar suporte aos jogadores e ajudar melhorar o rendimento esportivo da equipe, mas recomendo o uso do profissional principalmente para tarefas de cunho sociocultural e não deixar a maioria da preparação psicológica da equipe em sua responsabilidade.

A motivação, autoconfiança, stresse, controle emocional, capacidade de concentração e controle da atenção podem e devem ser treinadas diariamente em campo através dos exercícios de treino, intervenções do treinador, relacionamento com a comissão técnica e os demais jogadores da equipe. A criação de um meio de treino complexo e rico em aprendizagem e troca de experiências, é uma excelente ferramenta para o treinador trabalhar estas capacidades psicológicas dos jogadores.

A parte psicológica cognitiva relacionada com as tomadas de decisão em jogo, têm que ser em sua esmagadora maioria trabalhada em campo em contexto de jogo. Um material de suporte visual (vídeo, quadro tático, slides…) é interessante e tem sua importância, mas os jogadores normalmente têm grande dificuldade em se manterem concentrados por muito tempo sem a bola estar presente, por isso recomendo que a maioria do trabalho com esta finalidade seja feito em campo, com a bola rolando, como acontece no jogo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CRUZ, J., VIANA, J. O treino das competências psicológicas e a preparação para a competição. Ed. Braga: 1996.

HOULIER, G., CREVOISIER, J. Entraineur competence et passion, le détails qui font gagner. Canal + Èditions, 1993.

NERIN, J. Le discours d´avant match en sports collectifs. Déterminantes et contenu. L´exemple du Volley, du Basketball, du Handball et du Rugby. Mémoire pour le diplôme de L´institut National du Sport et de L´Education Physique. Ed. Paris: 1986.

PACHECO, R. Segredos de Balneário: A palestra dos treinadores de futebol antes do jogo. Ed. Prime Books: 2005.

RAPOSO, V., ARANHA, A. Algumas considerações sobre o treino mental, In: Júlio Garganta (ed.), Horizontes e órbitas no treino dos jogos desportivos. FCDEF-UP: 2000.

SILVÉRIO, J., SREBRO, R. Como ganhar usando a cabeça: Um guia de treino mental para o Futebol. Ed. Quarteto: 2002.

ZEYFANG, C. As capacidades volitivas no desporto. Ed. Lisboa, 2001.

*Alberto Tenan é mestrando em Treino Desportivo (ULHT – Lisboa)

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