Universidade do Futebol

Colunas

17/02/2020

O treino para o futebol brasileiro

Um dia o ex-craque Pedrinho, hoje comentarista de futebol do Sportv, me perguntou:

 Se já treinamos há tempos com os mesmos tipos de treinos que os europeus, porquê não jogamos taticamente como eles?

Ainda não cheguei a conclusões que encerram verdades claras para responder a isso, mas passei a ser mais observador na montagem e aplicação das minhas tarefas e de outros profissionais que tive oportunidade de acompanhar de perto.

Como lidamos com o treino? O quê, conscientemente, acreditamos estar transferindo do treino para o jogo? O quanto valorizamos o treino enquanto ferramenta transformadora do jogo?

Em um bate-papo sobre treinamento, um amigo do futebol me disse certa vez: – você acredita muito no treino, mas não é só isso que ganha jogo! Tem muita “sacanagem” à volta do futebol que a gente precisa estar atento!

Eu esperava que ele fosse me dizer algo sobre metodologia de treino, perfil de atleta, cultura de jogo, etc., mas veio com mais essa “preciosidade”!

Desde que estou no futebol escuto que o treino deve ser praticado com alegria. O ambiente do treino deve ser descontraído, dentre outras coisas.

O esporte é sinônimo de alegria em várias circunstâncias. Mas no alto nível, sob a pressão que sofrem seus protagonistas, não se pode considerar o treino dos seus fundamentos um palco para diversões.

Um parêntese que corrobora com a nossa reflexão: Leonardo, atualmente dirigente esportivo de clubes europeus, disse certa vez:

– O jogador médio europeu é melhor treinado que o jogador médio brasileiro!

Qual seria o alcance dessa fala?

Quando o Leonardo diz “jogador médio”, não dá maiores referências sobre o que isso significa. Acredito que jogadores médios são quase a totalidade daqueles que vemos praticando o futebol profissional pelo mundo. Exclui-se os “diferenciados”, que estão em dois ou três níveis na parte superior da pirâmide e os “medíocres” que nem chegam a competir profissionalmente. Os que vemos competindo por todos os clubes do Brasil e do mundo são os “jogadores médios”.

É claro que entre os médios poderíamos distinguir níveis qualitativos diferentes, e acho até que é neste ponto que podemos encontrar a reflexão do Leonardo. O desenvolvimento do talento esportivo, assim como em outra área qualquer da performance humana, depende fundamentalmente do treino e nos parece que o jogador europeu está mais consciente e melhor adaptado a isso.

– Como os times brasileiros encaram o treinamento em suas semanas de trabalho?

Geralmente com alegria além da conta. Se, após uma sessão de treinos, perguntarmos aos jogadores brasileiros o que treinaram, poderemos nos assustar com algumas respostas. Há jogadores que não saberiam dizer o que fizeram.

Tá tudo relacionado ao nível de concentração que levam para o treino e também à cultura do que consideramos treinamento e sua importância no futebol. Costumamos ir a campo “brincar ao invés de treinar”, pois interpretamos mal o conceito de alegria no treino. Podemos ir alegres para todas as sessões de treinos da semana, pois estamos “fazendo o que gostamos”, mas precisamos estar “sérios e concentrados” para usufruir da riqueza instrutiva que cada uma delas nos traz.

Como podemos cobrar na fase adulta um nível de jogador diferente do que os que encontramos no futebol brasileiro?

As respostas a esta e outras perguntas podem estar na qualidade e/ou seriedade dos treinos que praticamos.

Isso é muito abrangente! Não me refiro a fazer um treino bonito e moderno como fazem os melhores treinadores e/ou equipes do mundo. Isso já fazemos, como bem disse o Pedrinho. Muito menos, que jogadores e equipe estejam sérios e tensos para treinar.

O quê estamos treinando? O quê os jogadores e as equipes estão absorvendo dos treinos? O quê isso tudo que treinamos tem a ver com o jogo que queremos construir? Será que os treinadores saberiam responder a essas perguntas com a consciência investigativa que precisa ter?

O treinamento para alta performance deve começar sério já nas primeiras idades de descobrimento e desenvolvimento dos talentos.

E o mais contraditório nisso tudo e que talvez venha perturbando o nosso entendimento do que seria a alegria no treino, é que na pequena idade “o talento se desenvolve brincando” e precisa “treinar brincando”, mas TREINAR brincando!!

Quer coisa mais séria que a garotada jogando uma “pelada de rua”, ou de futsal, ou num jogo de várzea?…

Alegria e ousadia é o que queremos dos nossos jogadores e jogo. Mas, se não treinarmos seriamente os fundamentos que desenvolvem o talento e o jogo nunca mais seremos alegres e ousados em nossa maneira de jogar. Principalmente neste perfil de jogo que hoje é praticado!

O futebol do passado era técnico e o moderno é tático. A mente dos nossos jogadores têm de estar presente em treinos e jogos para “a coisa funcionar”. Esse é o ponto!

Antes de um treino, após mencionar palavras do Van Gaal sobre a “importância de se treinar o cérebro e não somente as pernas dos jogadores”, perguntei a um dos meus comandados o quê o treinador holandês queria dizer com essa frase?!

– Ahm?! O quê?! Desculpe, professor! Eu não prestei atenção no que você estava falando!!!

Onde estava “a cabeça desse jogador” para iniciar uma sessão de treino, com vários itens do nosso jogo a serem desenvolvidos? E o mais sério é que se tratava de uma equipe adulta!

Este jogador e muitos outros vão aos treinos à espera que a bola comece a rolar para que possam “brincar”! Foi isso que aprenderam desde criança e está na cultura do nosso futebol. Aí, as coisas mudam no mundo e não conseguimos acompanhar, ou queremos que elas voltem a ser como antes.

É tudo muito sutil, mas importante também!

Será que devemos imputar à cultura do futebol brasileiro todas as responsabilidades dos nossos erros? Cultura se quebra e se reconstrói! É fácil? Nada nunca foi fácil, mas o homem sempre fez, quando quis!

As palavras do Leonardo batem fundo em nossas mentes e são realidade absoluta quando assistimos a qualidade do jogo que ainda jogamos: muitos erros nas tomadas de decisões táticas, na execução dos gestos técnicos e na organização do jogo.

Este é um dos temas que mais aguçam as minhas reflexões!

Não fique triste futebol brasileiro! Tem coisas boas acontecendo pra mudar isso e para melhor!

Abraço!

 

Comentários

  1. Luiz Mendes de Lima disse:

    O Prof. R.Drubscky é um daqueles colunistas, aqui do UdoF, cujos escritos e idéias são de um extraordinário “poder provocativo”. Aliás, os que escrevem com frequência neste site são um ponto de destaque do Universidade e que infelizmente não estou valorizando como deveria, pois minha visita é esporádica. Juro que vou corrigir esta minha lacuna.
    Quanto aos aspectos suscitados pelo Prof. -são vários e instigam a análise- destaco este aqui: – O quê os jogadores e as equipes estão absorvendo dos treinos? O quê isso tudo que treinamos tem a ver com o jogo que queremos construir?
    Minha opinião -a de alguém que não é do ramo, pois sou engenheiro com certo interesse no jogo, apenas- é esta: os jogadores estão absorvendo quase tudo do pouco que os treinos podem oferecer. E se o “jogo que queremos construir” for o jogo fluente, produtivo e “vencedor”, os treinos não são o bastante. Como não é o bastante o esquema tático, o preparo físico, a “ideia de jogo” do treinador e quejandos.
    Não quero parecer um iconoclasta e destruir as crenças e a fé que são depositadas no poder de um treinamento, no futebol. Sim, a repetição pode levar à perfeição. Mas estamos falando de um jogo, de um esporte coletivo cuja dinâmica se exerce na forma de uma trama, de uma teia, de uma web. E dinâmicas assim, são caprichosas, operam longe do comportamento linear, do repetitivo e do previsível.
    Agora, caro Prof., vejamos por outro lado. Acredito, sim, que tudo aquilo que se passa no ambiente das comissões técnicas é realmente muito parecido com o trabalho de um cientista. Ora, se o objeto ou o fenômeno é da ordem do complicado(complexo?), pois envolve muitos fatores ou variáveis -um estatístico chamaria de graus de liberdade- o melhor mesmo é tentar uma simplificação ou um expediente qualquer que reduza sua complexidade. Para isso, erigimos um modelo representativo e, depois, acreditamos que através desse modelo podemos operar sobre o objeto integral. No caso do jogo de futebol, já temos o esquema tático -de uma simplificação extraordinária- e, principalmente, a figura do treino, tido e havido como o simulador do jogo por excelência.
    Vejamos! No treino temos um campo de verdade, traves e gol de verdade, a bola é de verdade e os jogadores são de carne e osso. Então, por que não acreditar que através de frequentes e intensos treinamentos não poderíamos simular qualquer jogo? Por que não acreditar, consequentemente, que aquilo que acontece durante o treino não possa ser reeditado no jogo, de per se?
    Dizem que o diabo faz a panela mas não faz a tampa. Infelizmente as coisas não funcionam assim. Começa que o treino tem uma debilidade -um calcanhar de Aquiles, digamos- incontornável: o adversário é de mentirinha, de faz de conta. Treina-se com um e joga-se com outro. (E este engenheiro nem precisa discorrer sobre as sentenças mortais de um famoso jogador e de outro famoso treinador que atestam: treino é treino e jogo é jogo!).
    Para arrematar! Um dos cânones da bíblia futebolística(sic) garante que “cada jogo tem sua própria história!”. Ora, se um jogo é totalmente diferente de outro, de sua própria espécie, por que haveria de assemelhar-se a um reles treino?
    Quando resolvi investigar o jogo de futebol -comecei lá, em 1985, quando os computadores pessoais começavam a dar as caras por aqui- fui beber de outra vertente. Na verdade, o caminho que trilhei não é novo, nos meios esportivos. Existem cerca de uma dúzia de sinônimos para nomeá-lo, mas eu gosto de chamá-lo usando a linguagem do boleiro: o “encaixe do time”. Então, apoiado em um certo ponto de vista dos antigos cibernéticos, eu digo que não sei exatamente o que é um jogo de futebol, esta “caixinha de surpresas”. Mas eu sei o que ela faz.
    Enfim, não vejo muita gente do futebol estudando o encaixe do time, o entrosamento, o conjunto, a sintonia, o ritmo, o padrão de jogo, etc, etc. Só se fala em ideia de jogo, jogador diferenciado ou protagonista, esquema tático, preparo físico, entrega, obediência tática, etc, etc. Gostaria de dizer que tenho algumas garrafas vazia pra vender(sic) – como diria o saudoso “China” , o jornalista esportivo Juarez Soares – e estou à disposição ao intercambio de idéias.

  2. msbjj2019 disse:

    O futebol Brasileiro realmente chegou em uma situação acomodada, em questão de treinamento infelizmente nos dias de hoje em que todos os times do mundo treinam, não dar mais pra brincar, como no passado de Pelé, Rivelino, Zico etc Hoje deveriamos levar mais a sério, se quisermos ser ainda Campeão do Mundo.

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