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19/10/2012

Odontologia do Esporte é só protetor bucal?

Muito se fala na Odontologia do Esporte sobre os protetores bucais, porém, esta área não se restringe apenas ao estudo e indicação destes.

Segundo Moura (2004), a Odontologia do Esporte reúne profissionais de diversas especialidades odontológicas, caracterizando seu enfoque multidisciplinar, como periodontia, endodontia, próteses e implantes, oclusão, ortodontia/ortopedia e cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial.

A metodologia para o tratamento odontológico dos atletas inclui exames radiológicos e busca identificar a presença de focos dentários, que podem diminuir a resistência orgânica do atleta; lesões cariosas tentando-se evitar a dor e a progressão da doença, hábitos viciosos que ocasionem abrasão, más oclusões, e demais problemas que possam originar deficiências de mastigação, comprometendo a nutrição adequada, ou na articulação têmporo-mandibular.

Soma-se a estes fatores a existência de terceiros molares impactados, que podem deixar a mandíbula mais suscetível a traumas e fraturas na região do ângulo, a respiração bucal, que diminui o rendimento do atleta em até 20%, traumas e fraturas da face, que podem causas hemorragias e comprometer ossos faciais e estruturas anatômicas importantes como cavidade nasal e seios maxilares (Dias, 2005).

Segundo Ferrari (2000), o tempo de recuperação de lesões no atleta aumenta quando o profissional possui lesões na boca, uma vez que este tipo de ferimento leva até duas vezes mais tempo para ser recuperado, pois o sistema de defesa do organismo divide-se em dois.

O descuido com os dentes, uma vez que a aspiração das secreções purulentas, resultado de bactérias e células em decomposição junto com a respiração ofegante do atleta, pode facilitar a penetração desses elementos na circulação sanguínea e pulmões, inflamando os tecidos pulmonares e diminuindo a capacidade respiratória, expondo o atleta a bacteremias (presença de bactérias no sangue).

Neste contexto, a doença periodontal destaca-se, pois cria certas condições bucais como a queda da inserção gengival, podendo liberar endotoxinas na corrente sanguínea e bactérias presentes nas bolsas periodontais.

Outro perigo são as bactérias presentes no sangue que podem alojar-se em válvulas cardíacas danificadas ou anormais, resultando em endocardite bacteriana e, a partir desta doença podendo surgir outras infecções como pericardite supurativa, abcesso miocárdico, miocardite, abcessos em rins, baço e cérebro (Dias et al., 2005).

Vilas (2005) explica que, durante os exercícios, a circulação aumenta assim como a temperatura corporal. Como a polpa do dente está numa câmara fechada, se ele estiver infeccionado, a pressão interna na polpa do dente causa dores latejantes que desviam a atenção do atleta.

Outro fator a ser considerado são as bebidas hidroeletrolíticas, que possuem o propósito inicial de repor líquido e sais minerais para desportistas. Eles possuem potencial erosivo e cariogênico sobre os dentes, devido à presença de açúcares e ácidos nessas bebidas (Bonfim, A. et al., 2001; Venables, M. C. et al, 2005).

O cirurgião-dentista caracteriza-se então como profissional mais capacitado para resolver tais problemas, transmitindo mais segurança, habilidade e conforto aos esportistas. Porém, existe a necessidade de ser um profissional especializado, que entenda e acompanhe o âmbito desportivo e mantenha-se atualizado (Barberini, 2002).

Alguns aspectos do tratamento odontológico em atletas diferem do tratamento dado a pessoas comuns. O dentista deve equilibrar o tratamento com a agenda de treinos e competições bem como prestar atenção na medicação prescrita que não deve interferir no exame antidoping (Moura, 2004).

A literatura relata maior utilização dos protetores em determinados esportes do que outros, por exemplo, nos esportes de luta, rúgbi, hóquei, etc. O uso de protetores bucais já é mais largamente explorado do que no futebol ou no basquete.

Araújo (2000) observa que a população tende a considerar a odontologia como um tratamento cosmético e não médico, quase sempre comparando o trabalho do profissional de odontologia ao de um cabeleireiro ou manicure, não conhecendo a real dimensão de um problema bucal.

É importante ressaltar que o trabalho do cirurgião-dentista não se restringe ao consultório e que esse deve estar presente durante as práticas desportivas (Barberini, 2002).

Hoje em dia eventos esportivos são acompanhados por equipes de saúde, mas como o cirurgião-dentista não está presente, não se pode classificar como uma equipe de saúde efetivamente, pois do âmbito da saúde bucal os atletas continuam desprotegidos.

As funções dos profissionais da saúde no âmbito desportivo abrangem desde o atendimento preventivo de doenças, tratamento e recuperação de lesões, constantes reavaliações, cuidados com automedicações, incentivar a boa alimentação e a qualidade de vida. (Mello, 2010).

Segundo Toscano (2009), a odontologia do esporte já faz parte do currículo escolar de várias universidades norte-americanas, contando também com publicações a respeito de diversas revistas odontológicas e médicas de países como França, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, Austrália, Itália, Alemanha, Finlândia, República Tcheca e Canadá, e também integrando documentos do Comitê Olímpico Internacional, quando trata especificamente da prevenção de concussão, durante a prática esportiva.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, C. S.; Odontologia Desportiva – Atendimento odontológico aos jogadores das seleções brasileiras de futebol, Medcenter Odontologia, 2000. Disponível em:

BARBERINI A. F.; AUN C.E.; CALDEIRA C. L. Incidência de injúrias orofaciais e utilização de protetores bucais em diversos esportes de contato. Revista de Odontologia – Unicid, vol. 14, n° 1, jan/abr, 2002.

BONFIM, A., COIMBRA, M., MOLITERNO L. Potencial erosivo dos repositores hidroeletrolíticos sobre o esmalte dentário: Revisão de Literatura. Revista Brasileira de Odontologia, vol. 58, nº 3, 164-168, mai/jun, 2001.

DIAS, R. et al, Problemas Odontológicos X Rendimento Esportivo. Revista de Odontologia da Universidade de Santo Amaro, vol. 10, nº 2, p.28 – 31, jul./dez. 2005

FERRARI, C. H. Dental trauma and level of information: mouthguard use in different contact sports, Dental Traumatology, São Paulo, vol. 18, p. 144-147, junho, 2002

MELLO, A. B.; MARTAO, F. M., Odontologia do Esporte: Como atuar em equipe na prescrição de medicamentos?, FIEP Bulletin, vol. 80 – special edition, 2010. Disponível em: < http://fiepbulletin.net/index.asp?a=trabalho_ler.asp&id=989&ido=p> Acesso em 18/05/2011.

MOURA, A.P.F.; Odontologia desportiva e o desempenho dos atletas, Hospitalar, 2004. Disponível em:

TOSCANO, R. Odontologia Desportiva na luta pelo reconhecimento. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo, vol. 21, nº2, mai/ago, 2009. Disponível em:

VENABLES, M. C. et al, Erosive Effect of a New Sports Drink on Dental Enamel during exercise, Medicine and Science in Sports and Exercise, ed. 37, vol. 1, p. 39-44, 2005. Disponível em: < http://www.medscape.com/viewarticle/497801> Acesso em 18/05/2011.

VILAS, J. Boca sã, corpo são, Centro Ortodôntico e Estética Bucal, 2005. Disponível em: Acesso em 12/09/2010

*Cirurgiã-Dentista

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