Universidade do Futebol

NF-FMH

23/02/2012

Olhar não é ver…

Meus caros,

Em primeiro lugar, quero agradecer a oportunidade que me foi concedida para me iniciar nesta nova aventura, a da escrita.

Assim sendo, peço desde já a compreensão para algo que, à luz de quem tem o hábito, o treino e o saber de passar para o papel as ideias, possa estar menos bem.

Porque como em tudo na vida, é preciso talento e muito treino. E este é o meu primeiro jogo, para o qual tenho treinado bastante, mas, sinceramente, ainda não me sinto 100% para ele. Mas como o campeonato está a começar, tenho que entrar em campo e dar o meu melhor. É o que farei.

Tenho como objetivo tornar este espaço num local de troca de experiências, de antecipação, de proatividade e não de débito teórico sobre o tema das observações no futebol.

Para que tal aconteça, deixarei o meu contato eletrônico para que possamos trocar ideias, colocar questões e alimentar este espaço com a luz que derive dessa salutar discussão.

No meu entender, deve-se dividir a “observação” em dois a observação de atletas e a observação das equipes adversárias. E penso invocarem talentos e trabalhos também eles distintos. O departamento de observação de atletas, de novos talentos, vulgarmente designado de departamento de prospecção e o departamento de scouting, que analisa as equipes adversárias.

Relativamente à primeira, penso que este departamento deve funcionar segundo duas égides, a direção e o treinador. Por quê? Porque no meu entender, em primeiro lugar, deverá estar a cultura de clube, que é gerida pela direção, e o rendimento desportivo atual e de médio prazo, este gerido pelo treinador.

Por exemplo, se trabalhamos no departamento de prospecção de um clube que tem, como cultura, encontrar, contratar, formar e vender jovens, penso ser, da maior importância, direcionar e filtrar todo o nosso trabalho para faixas etárias do nosso interesse. Certamente que um bom atleta com 28 anos de idade não irá ser interessante, à luz da cultura de clube e, logo aí, já estamos a trabalhar de forma orientada, concentrando toda a nossa energia para os atletas mais jovens em campo, num determinado jogo.

Saber filtrar, é uma das mais difíceis tarefas de um bom observador. De forma que não se disperse durante o seu trabalho, e não acabe a fazer trabalho em vão.

Depois, as conversas e as reuniões com o treinador orientam, filtram ainda mais, porque se o treinador quer laterais ofensivos, não vamos perder tempo, quando encontramos um lateral sólido defensivamente, mas pouco atrevido em termos ofensivos.

Relativamente ao segundo departamento, penso que este deve trabalhar única e exclusivamente com a equipe técnica e deve ter um elemento que trabalhe inclusive como adjunto, colaborador do treinador, para saber quais as ideias, o modelo de jogo, etc.

Assim, quando estiver a observar e analisar a equipe adversária terá já em linha de conta eventuais pontos fracos e fortes da sua própria equipe. Penso que um bom observador, neste caso, não faz apenas a observação do rival, mas vai mais além, dando indicações de quais são os pontos fracos da mesma e quais os pontos fortes a ter em atenção. Daqui nasce a estratégia para o jogo, que será treinada durante a semana de trabalho pelo treinador.

Concentremo-nos no primeiro departamento, da prospecção.

Fazer prospecção e detecção de talentos não é para todos – é preciso saber e trabalhar muito. É preciso ver…

Todos nós olhamos, é um ato fisiológico, mas só vemos o que a nossa sabedoria nos permite. Se colocarmos 100 observadores do mesmo jogo, iremos ter 100 diferentes relatórios; por vezes, ao lê-los, até parece que existiram 20 jogos diferentes no mesmo jogo. Isto acontece e acontecerá sempre, porque cada um de nós tem o seu passado e a sua sabedoria e aqui é que entra o “ver”, a junção do ato fisiológico “olhar” com a sabedoria. Deve-se procurar constantemente informação e, acima de tudo, trocar ideias com jogadores, treinadores, observadores, agentes, etc., pessoas que fazem o futebol.

E nestas conversas não deveremos ter medo de assumir a nossa opinião, com critério, é claro. Justificar é fundamental.

Quantos de nós ouvimos e por vezes até caímos no erro de dizer “aquele jogador é espectacular, joga muito”. Mas, afinal de contas, quem ouve tal comentário, tal análise, o que fica a saber? Nada.

Mas se dissermos ou se nos disserem: “o jogador X é ponta direita, é rápido, é destro, procura espaços interiores entre linhas para receber, sai da marcação, com bola procura a tabela frontal ou com bola tenta recepção orientada de costas e depois entra no 1 x 1 ou em tabelas com avançados para fazer 2 x 1; no processo defensivo acompanha lateral ou fecha espaço interior para criar superioridade numérica no meio campo, etc.”, aqui, sim, já conseguem visualizar o atleta.

E, desta forma, quem ouve certamente começará a fazer perguntas pertinentes que nos obrigarão a recorrer à memória ou aos nossos dados para saber se o atleta, naquele jogo, ou conjunto de jogos observados, manifestou tais atitudes. Assim, na próxima observação, com toda a certeza terá mais um critério de avaliação a acrescentar. Assim se cresce: praticando, treinando a observação.

Ver o jogo, sentir o atleta, o seu toque, a sua reação à perda da bola, etc. Só no campo se olha e quanto mais sabedoria tiverem, mais vêem.


*Hélder Fontes é treinador adjunto da seleção nacional de futebol da Guiné-Bissau

Contato: heldermof@gmail.com

Comentários

Deixe uma resposta