Universidade do Futebol

Gief

13/08/2007

Olhares estrangeiros

“(…) a viagem acabou redundando em desastre pessoal.
Voltei do nordeste brasileiro com uma febre
tropical não-identificada e passei 45 dias no
Hospital Yale-New Haven.
Jurei que nunca mais voltaria à América Latina.”
Janet Lever (1983; p.17)

O jogo só acaba quando termina. Será? Talvez o jogo nunca acabe, pois continua ser objeto de discussão dos jornalistas nas intermináveis mesas redondas televisivas, dos torcedores nos dias seguintes à partida ou mesmo continuará nos sonhos do jogador que desperdiçou aquela jogada decisiva, um pênalti no final do jogo ou que tomou um inesperado “frango”. Do mesmo modo, um livro ou uma tese talvez nunca recebam um ponto final definitivo, pois o autor poderá conjeturar diferentes abordagens ou usos das mesmas idéias ou essas ainda inspirarão novos trabalhos, dando continuidade ao jogo.

Contudo, há, obviamente, um final arbitrário nos dois casos: a entrega da tese para avaliação e o apito final do arbitro. No caso do jogo intelectual, poucas vezes sabemos como foi o desenvolvimento do jogo, principalmente antes do seu pontapé inicial. Ou seja, temos os livros em mãos, mas poucos autores tornam público os meandros do processo de reflexão e textualização do livro: os desafios, as dificuldades e as armadilhas do trajeto.

A socióloga norte-americana Janet Lever reproduz esse trajeto na introdução[1] do seu livro A Loucura do Futebol[2], direcionando seu olhar estrangeiro ao futebol brasileiro, ainda com certa 2atualidade[3]. Pretendo, independente dos elogios, críticas e discordâncias teóricas, abordar os buracos e atalhos da estrada percorrida em sua pesquisa, pois a partir deles é possível compartilhar da forma mais cabal de questões[4] que continuam a desafiar trabalhos sociológicos sobre futebol.

O sociólogo alemão Georg Simmel definiu o estrangeiro[5] como o indivíduo que está, ao mesmo tempo, perto e longe: próximo fisicamente, mas distante socialmente. Essa relação de proximidade e distância seria marcada pela mobilidade e objetividade, “uma forma específica de interação” (1983[1908], p.183) que permitiria ao estrangeiro criar relações com um grupo, mesmo não tendo uma forma mais íntima de ligação com ele. Por não pertencer ao lugar e ao grupo, o estrangeiro poderia vivenciar, segundo Simmel, distintas formas de interação: estranhamento, aproximação, alianças, afastamento e conflito.

Como estudante e pesquisadora estrangeira, Janet Lever estava numa situação de estranhamento, o que lhe permitiu ter um olhar objetivo – próximo e distante ao mesmo tempo – sobre o futebol brasileiro e a vida social do país de modo geral. Esse estranhamento, não por acaso, é um aspecto essencial na pesquisa antropológica: tornar o familiar em estranho e o estranho em familiar. Condição que ganha novos desafios nas etnografias em sociedades contemporâneas, pois se tem a tarefa de estranhar, em certos casos, contextos e grupos próximos e conhecidos, por exemplo, as torcidas organizadas e o cenário futebolístico da sua cidade.

A autora esteve no Brasil por três vezes entre o final da década de 1960 e começo de 1970, acompanhando por mais de uma década o futebol brasileiro: uma primeira temporada no Brasil, em 1967, num programa de intercâmbio estudantil em Curitiba, quando, ainda na graduação, escreveu um ensaio inicial sobre o futebol brasileiro; uma segunda empreitada, no ano seguinte, quando veio com o objetivo de escrever sua tese de formatura; e, enfim, na terceira viagem, já como estudante de pós-graduação, retornou ao Brasil em agosto de 1969 para ampliar o escopo da pesquisa tendo como foco a sua dissertação.

Entretanto, o resumo acima não deve mascarar os pequenos passos da experiência vivida por Janet Lever no Brasil. No jogo de estranhamento do estrangeiro num contexto desconhecido, a autora enfrentou tradicionais barreiras, as mesmas em certos casos permeáveis em outros intransponíveis, revelando o aspecto situacional dos espaços por onde circula o próprio pesquisador.

“Meu estudo sobre o futebol brasileiro desenvolveu-se de maneira anti-convencional, a pesquisa sendo muitas vezes acidental.” (p.13) Já na primeira frase do livro, a autora problematiza sua identidade de pesquisadora – estrangeira, mulher, estudando futebol – e reconhece que essa identidade inicialmente abriu portas[6], angariando assim ricos depoimentos de profissionais da área (jogadores e treinadores), especialistas (jornalistas e cronistas esportivos), torcedores (incluindo chefes de torcidas organizadas) e dirigentes de futebol. A novidade – estrangeira, mulher, estudando futebol – gerou convites para programas de televisão e coberturas de partidas oficiais, além de um curioso ingresso em espaços há muito reservados:

“Diretores de clubes permitiam-me comparecer a suas reuniões, levavam-me para drinques depois, conversavam livremente na minha presença. Diretores de um clube discutiram o suborno de um juiz, outros admitiram subornar jogadores adversários para perderem partidas decisivas. Esses homens não me levavam a sério ou subestimavam a minha compreensão cada vez melhor da língua e a minha capacidade de beber.” (p.16)

Tais convites foram recebidos como oportunidades para estudar o futebol com um olhar próximo, mas ao mesmo tempo distante, pois a autora não chegava a ser uma personagem “de dentro” do espetáculo. Portanto, a autora usufruiu de inesperados benefícios na realização de sua pesquisa. Porém, isso não era regra, já que havia também conseqüências negativas no fato de uma mulher estudar o futebol. Janet Lever cita freqüentes e intermináveis momentos em salas de espera. “Atribuí o descaso pelos encontros marcados ao meu sexo e à minha altura, de pouco mais de um metro e meio, mas também ao temperamento latino.” (p.18)

Na sua busca pelas raízes da paixão (ou loucura!) dos torcedores e da sociedade brasileira[7] pelo espetáculo futebolístico em geral, Janet Lever presenciou momentos que despertariam a inveja de qualquer brasileiro apaixonado por futebol: visitou a seleção brasileira no Rio de Janeiro, durante a fase de preparações para a Copa do Mundo de 1970 e esteve no México durante o torneio, quando realizou entrevistas com torcedores. Para isso, teve que driblar momentos incômodos e embaraçosos com os quais todos temos de lidar quando estamos em lugares e contextos (muitas vezes na nossa própria cidade) que nos são estranhos, onde somos um pouco mais que estrangeiros. No mais, quando o jogo acaba ou quando o livro está pronto, ficam as superações.

“Apesar do meu temor de outra febre, propus o Brasil como o local do meu
estudo sobre o torcedor (…) Queria ouvir os brasileiros descrevendo
o que o tricampeonato representava para eles”. (1983; p.18)

Sugestão de bibliografia:

LEVER, Janet A Loucura do Futebol, Rio de Janeiro: Record, 1983.
RAMOS, Roberto Futebol: Ideologia do Poder. Petrópolis: Vozes, 1984.
SIMMEL, Georg. “O estrangeiro”, p. 182-188 de Moraes, E. (org.). Sociologia: Simmel. São Paulo, Ed. Ática, 1983 [1908].

* Mestrando em Antropologia Social pela USP – Universidade de São Paulo, membro do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol) e do Geac (Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade – FFLCH/USP). enricospaggiari@yahoo.com.br

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