Universidade do Futebol

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11/11/2011

Onde aprender a jogar futebol?

Pelé, maior jogador de futebol da história, Garrincha o craque das pernas tortas e Romário, o mito da grande área, chegaram à seleção com um nível altíssimo de futebol; aprendido onde? Nas peladas e brincadeiras de rua (FREIRE, 2002). Falamos isso, por que nos últimos anos temos observado a proliferação de escolinhas de futebol por todo o país, muitas destas com professores ex-atletas que fazem a promessa de ensinar futebol às crianças. Desta forma, estamos descrevendo a história de um destes garotos que sonha em ser jogador de futebol, ou simplesmente aprender a jogar futebol.

“Betão foi um ex-jogador de futebol, foi craque, passou pela seleção, conhecido no mundo inteiro, pois durante o auge de sua carreira era o jogador a ser admirado pela maioria dos jovens que acompanhavam seu futebol sem piscar. Mas ao encerrar a carreira, como ex-jogador, Betão precisava de outra forma de renda financeira, porém a única coisa que Betão sabia fazer era jogar futebol. Assim, ele teve uma ideia: Betão abriu uma escola para crianças e jovens aprenderem a jogar futebol.

A ideia de Betão estava fundamentada no fato de que os parques, os campinhos e as ruas, todo o espaço que a molecada brincava de bola, estava sendo tomado por prédios e carros. Betão não sabia, mas sua ideia iria ser a moda anos mais tarde. Com renome de ex-craque da bola, a criançada queria entrar na ‘escolinha de futebol do Betão’. Todos eles queriam aprender com o ídolo como ser um craque, como jogar no Flamengo e na Seleção Brasileira, como dar dribles e fazer golaços. Para entrar na escolinha era só levar a chuteira e o dinheiro da mensalidade, que por sinal era alto pra um moleque de baixa renda.

Carlinhos adorava futebol, seu sonho era ser um jogador. Porém, seus pais deixavam Carlinhos trancafiado dentro de seu apartamento, sem o deixar descer para jogar com a galera que jogava na rua, onde ele acompanhava pela janela cada lance. Ele gostava mesmo é de ver o Zeca jogar, um garoto ligeiro e habilidoso que driblava todo mundo, fazia gol toda hora, era o craque da molecada.

De tanto pedir para os pais dizendo que todos os seus amiguinhos faziam e que ele queria muito jogar bola, Carlinhos foi matriculado na ‘escolinha de futebol do Betão’. Chegando ao campo com sua chuteira, logo viu mais ou menos 50 ‘jogadores de futebol’, em colunas atrás de cones. Betão, o professor, então explicou que eles iriam chutar para o gol: seria uma atividade de aproximadamente quinze minutos para desenvolver a habilidade de chute a gol. Os garotos se empolgaram, todos eles queriam fazer golaços iguais aos da televisão. Carlinhos não era diferente, estava ansioso para seu primeiro chute.

A coluna andava lentamente até que chegou sua vez, porém, Betão rolou a bola forte demais, Carlinhos não conseguiu dominar e teve que correr atrás da bola, perdendo a vez de chutar, e como o tempo era curto, Betão não pode ‘perder tempo’ com um aluno. Ele apenas mandou Carlinhos voltar para o final da coluna. Carlinhos ficou frustrado e teve que esperar mais um tempão para chutar novamente. Quando sua vez chegou, era outra chance de fazer um gol, agora a bola veio certinha e Carlinhos fez um golaço no ângulo. Esperando uma comemoração de seus colegas e do professor, recebe um apito e uma ordem para tomar água e deixar as bolas.

Mas Carlinhos não desanimou e foi para a coluna novamente na atividade que era driblar os cones e passar para o colega. Lá foi Carlinhos driblando, o que em sua imaginação eram zagueiros altos e fortes que ficavam no chão com seus dribles desconcertantes, porém ele driblava na verdade eram cones imóveis, repetindo umas três vezes apenas. E assim terminava sua aula na ‘escolinha de futebol do Betão’. Betão, que por sinal era apenas um ex-jogador que adquiriu seu conhecimento através da vivência dentro do meio esportivo, do passa e repassa onde passaram para ele e ele está repassando, sem fazer uma análise crítica de cada atividade, sem usar a criatividade, sem usar a imaginação e um conhecimento específico. Betão estava feliz com suas aulas, pois estava lotada de alunos. Porém, os alunos que já estavam acostumados com o mesmo tipo de ensino dentro das salas de aula, agora terão que se acostumar com o mesmo ensino para ‘aprender’ futebol.

Carlinhos voltou abatido para seu prédio, e quando chegou perto, viu Zeca e sua turma brincando de bola. Não tinha cone, não tinha professor, nem apito. Eles mesmos se organizavam, eles mesmos inventavam as brincadeiras. Estava uma roda e uma bola e ninguém a deixava cair, todo mundo jogava junto, sem fila, todo mundo se divertia e brincava. Cada jogada sensacional que Zeca fazia com a bola deixava Carlinhos com o queixo caído, ele queria fazer igual.

Carlinhos continuava indo para suas aulas de futebol na escolinha do Betão e sempre que voltava via Zeca jogando. Um dia Zeca botou os chinelos para representar a baliza, outro dia a bola furou e eles estavam jogando com uma bolinha de tênis; já em outro dia tinha um círculo e um no meio o qual tinha que roubar a bola. Quem fazia parte do círculo tinha que pensar rápido porque só poderia dar um toque na bola. Carlinhos não queria mais entrar em colunas todos os dias e driblar cones sem empolgação. Carlinhos queria jogar se divertindo.

Decidido Carlinhos parou de ir para a escolinha de futebol do Betão, e sem avisar seus pais, fingia ir, mas começou mesmo a brincar de futebol na rua com a turma do Zeca. Lá, sem eles saberem, eram desenvolvidas inúmeras capacidades motoras básicas para o futebol, tais como: equilíbrio, velocidade de reação, coordenação, agilidade, além dos fundamentos do jogo de futebol; apenas brincando de jogar, se divertindo, fazendo amigos.

Carlinhos e Zeca jogavam dois contra dois quando chovia e ia pouca gente, jogavam “futevôlei” quando tinha poças de água e não dava de rolar a bola, “golzinho fechado”, gol a gol, rebatida, paredão.

Um dia, então, na quadra do prédio, Carlinhos, que passou meses dizendo que estava indo para a escolinha do Betão, mas estava na escolinha da rua, estava jogando com os amigos, era o melhor do condomínio, driblava todo mundo e fazia gol toda hora – os menores eram fãs de Carlinhos. Então, seu pai, que estava todo orgulhoso do progresso de seu menino, decidiu que no outro dia iria conversar com Betão para parabenizá-lo pelo trabalho desenvolvido com seu filho. Assim, no outro dia, o pai de Carlinhos ligou para Betão e agradeceu, elogiou a dedicação dele com cada aluno, que seu filho havia evoluído muito em pouco tempo, que ele estava conseguindo ensinar tudo o que aprendeu.

Betão, aceitando as honras concedidas pelo pai de Carlinhos, nem sabia de quem o senhor estava falando, pois era só mais um aluno dos 500 que Betão tinha. Assim, Betão, que nunca planejou uma aula com dedicação, que passava as mesmas atividades sempre sem respeitar as características individuais dos alunos, não evoluía como professor, não contribuía para a evolução dos seus alunos e está por aí se gabando de um trabalho que não é dele, mas sim da própria rua.

Zeca e Carlinhos estão por aí brincando e aprendendo a jogar futebol, enquanto que os alunos de Betão estão driblando cones e jogando por jogar.

Esta história foi criada por um aluno do curso de graduação em Educação Física, a partir dos estudos das diferentes abordagens metodológicas de ensino existentes para o futebol. Além disso, ela visa alavancar a discussão sobre a utilização da metodologia tradicional e ensino do futebol de forma fragmentada, trabalhando os fundamentos de forma separada ao invés de ensinar as crianças a jogarem futebol a partir de atividades que contemplem o jogo e seus princípios.

Esse texto não visa dizer que não se pode aprender futebol a partir de escolinhas, muito menos que só na rua que se aprende a jogar futebol, porém é preciso uma reflexão maior sobre os procedimentos utilizados para o ensino do futebol em nosso país.

Texto inspirado a partir do livro “Pedagogia do Futebol”, do professor João Batista Freire (Segunda edição. Campinas: Autores Associados, 2003. 98 p.).

 

*Acadêmico da sexta fase do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade do Estado de Santa Catarina (CEFID-UDESC). Foi aluno da disciplina Metodologia do Ensino de Futebol ministrada pelo professor Juliano Fernandes da Silva.

Comentários

  1. edy disse:

    Vocês ensinam a jogar futebol?
    Se sim, a partir de quantos anos?

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