Universidade do Futebol

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16/07/2018

Os 11 mandamentos para um Departamento de Futebol e seus treinadores

1) Importa que os treinadores e jogadores treinem e treinem como se joga, ou seja, de modo competitivo tendo em conta os fatores de rendimento físico-biológicos, técnico-táticos, psicológicos e morais. É importante manejar e saber interpretar dados como, por exemplo, a frequência cardíaca porém, é tão importante quanto isso aceitar que há dimensões não quantificáveis de subjetividade fundamental, como a liderança, o comportamento moral ou a capacidade de comunicação de um treinador. “É o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser”.

2) “Devemos saber combinar inteligência instrumental-analítica, donde nos vem o rigor científico, com a inteligência emocional-cordial, donde derivam as imagens e os mitos” (BOFF, 1997). Devemos eliminar a ideia de que tudo na natureza se explica através das leis gerais da mecânica, que leva à ideia de homem-máquina e de que o trabalho deve ser analítico e quantitativo. Aliás, o termo Educação Física que pretendia “educar o físico” para que o mesmo se tornasse perfeito, próximo do funcionamento de uma máquina.

3) A motricidade humana é a energia do homem para o movimento intencional da transcendência (ou da superação). No lugar da atualmente muito falada periodização tática, o professor propõe uma periodização antropológica e tática, onde a preparação intelectual, emocional e moral do atleta, integra a periodização tática. O futebol não deve estudar-se como um saber singular, mas como uma atividade humana, levando em consideração a intersubjetividade relacional dos seus intervenientes.

4) A Ciência da Motricidade Humana, apresentada pelo professor Manuel Sérgio na sua Tese de Doutorado em 1986, estuda o ser humano no movimento intencional da transcendência/superação, é de fato uma ciência hermenêutica-humana (uma ciência que interpreta o humano). O que realmente importa não é o salto, o drible ou o arremate, mas sim a pessoa que salta, dribla ou arremata. Todo o real é relacional. Uma relação fraterna com os outros é, para o psiquiatra, o que o oxigênio é para a vida. Se, na escola se dá importância à leitura, escrita e/ou uso do computador deveria dar-se, também, igual atenção a uma “alfabetização relacional”, isto é, uma gramática que nos ajude a criar e sustentar relações humanas. A matemática não consegue resumir o jogador na sua complexidade emocional e social. Os treinadores devem saber, mais que ninguém, que se não existir uma cultura de relação não existirão jogadores motivados, nem uma verdadeira equipe, nem resultados. O atleta é o meio e a vitória é o fim. O futebol é um fenômeno cultural complexo.

5) A preparação dos jogadores e da equipe técnica para a alta competição deve ser realizada através de um modelo de jogo que torna o elemento regulador das variáveis físicas, técnicas, táticas e psicológicas. A complexidade humana determina que na origem de sistemas esplendidamente organizados, é a incerteza e a subjetividade que predominam. Na preparação de uma equipe, não basta o espírito de geometria do treinador, onde tudo se encontra matematicamente certo e previsível. É necessário, também, o espírito de sutileza, no qual a intuição, a emoção e o “mundo da vida” permitem uma visão mais perspicaz e verdadeira do “fenômeno futebol” do que o saber dos livros. A complexidade não se resume a um conjunto de teorias, mas de vivências e de teorias. A cultura é a aliança do saber e da vida, ou seja, para ser-se culto não basta a mediocridade aliciadora dos que só são práticos, nem a retórica enfadonha dos apenas teóricos. A cultura é prática que a vida confirma e é vida que a teoria sabe antecipar.

6) Um bom gestor de recursos humanos e de conhecimento deve conseguir otimizar o rendimento das pessoas que estão ao seu redor. Liderar não significa silenciar a opinião dos outros com ordens, mas sim guiar, fomentar o desejo de aprender e evoluir, formando indivíduos autodidatas. Desenvolver as capacidades de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal enriquece e amplia a cultura tática da equipe, com a inteligência e a personalidade de cada um dos jogadores. No esporte de alto nível, para se ser eficaz e produtivo, não se pode inibir ou dificultar o que o jogador tem de mais autenticamente seu. Os grandes momentos da vida fazem parte da esfera da imaginação, e não da impessoalidade de generalizantes imposições.

7) O corpo e o espírito não são duas substâncias inteiramente distintas, porque é o ser humano na sua integralidade que sente, quer, pensa, joga e se movimenta. No futebol, há mais trabalho do que jogo, o treinamento destina-se à complexidade humana, isto é, a todos os elementos que simultaneamente a compõem, à construção do espírito de grupo e a uma verdadeira equipe. Porque o atleta de alta performance passa a ser reconhecido, torna-se culto, tem os seus feitos enaltecidos, muitas vezes até ao exagero, o treinador deve pô-lo de sobreaviso contra as diversas tentações que o vão rodear, inevitavelmente, e que despertam a sua vigorosa vaidade de rapaz sadio.O treinador é o conselheiro que deve acentuar que o “treino invisível” também faz parte do processo de treinamento.A periodização deve ser antropológica e tática.

8) Há sempre muito o que fazer, estudar e organizar. A estruturação de um departamento de futebol deve obedecer e seguir os princípios que tornam possível a produtividade, a eficácia, o gerenciamento e a abertura à mudança, para ter um futebol em consonância ao conhecimento atual.

9) O conhecimento resulta da reflexão acerca da informação proveniente da cibernética (ciência que estuda os mecanismos de comunicação e de controle nas máquinas e nos seres vivos), livros, revistas, diálogo com especialistas, reflexão sobre a própria prática e/ou sobre a dos outros e de um permanente desejo de aprender. Essa informação pode ser recolhida, compilada e disseminada num Departamento de Inteligência Competitiva de um clube, de acordo com os interesses do departamento de futebol. Deve-se ter atenção na complexidade do treinamento que envolve também a relação com outros profissionais, tais como os auxiliares, preparadores e recuperadores “físicos”, o departamento médico, o departamento de scouting e análise de jogo e os laboratórios.

10) No futebol altamente competitivo, o fenômeno é evidente: o que conta verdadeiramente é o resultado final das competições. Nesta área do conhecimento, um treinador, só é sábio se liderar equipes vencedoras. Caso contrário, será sempre visto com um brilho malicioso no olhar e/ou com uma recusa cortante que chega a afogar a voz na garganta dos exaltados. Por outro lado, os jornalistas e comentaristas influenciam a opinião do povo pois a opinião pública é aquela que se publica. Para lidar com isso, é essencial que se tenha uma política de educação no departamento de futebol, e educação não significa ir à universidade já que muitos universitários não sabem investigar por apenas os ensinarem a repetir maquinalmente o que escutavam nas aulas dos “Mestres”. “Nós médicos, dizemos constantemente aos nossos doentes: faça exercício físico, não coma açúcar, não coma sal, etc., e esquecemo-nos de lhes dizer que o primeiro fator de saúde é este – que a vida tenha sentido para nós. É preciso treinar a mente com a mesma disciplina e convicção com que se treina o corpo. E como? (…) autocontrolando-nos, auto motivando-nos, autocriticando-nos (…)”(VIKTOR FRANKL in SÉRGIO, 2015). A crença gera biologia.

11) O jovem que pretende ser jogador de futebol deve ser ensinado para a autonomia, afim de conseguir separar o bem do mal e procurar imitar a atividade que tem efeitos positivos, a honestidade e a capacidade de prestígio social e esportivo. A aspiração a sermos mais autenticamente humanos deve estar na ideia, no ideal, na proposta de cultura esportiva do departamento de futebol. O futebol é também ciência, ele é um ato cultural e, como tal, exige um pensamento crítico e inventivo, muito além do pensamento puramente formal.

 

 

* Preparador e Recuperador Físico / Sócio Diretor Estúdio Refit Reabilitação e Fitness / Certificação Exos

** Treinador de Futebol UEFA A / Mestrado em Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa

 

Bibliografia

SÉRGIO, M. O Futebol e Eu.Lisboa: Manuel Sérgio e Prime Books, 2015.

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