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15/01/2008

Os efeitos da altitude no rendimento dos futebolistas

Durante a temporada de 2007, os dirigentes da Fifa (Federação internacional de futebol) deliberaram pela não realização de jogos internacionais acima de 2.500 metros do nível do mar. Decisão essa que afetou especialmente o futebol da América do Sul, que freqüentemente realiza jogos entre as seleções que compõe a Conmebol (Confederação sul-americana de futebol) em cidades como Bogotá (2.600 metros), Quito (2.800 metros) e La Paz (3.700 metros).

Desde 400 anos antes de Cristo existem relatos de problemas associados à altitude, os quais são relacionados tanto à redução da temperatura ambiente quanto às limitações impostas pelo ar rarefeito. As descobertas iniciais que permitiram o nosso conhecimento atual sobre a pressão de O2 são creditadas a três pesquisadores; Torricelli (1644), Pascal (1648) e Lavoisier (1777).

As discussões sobre os efeitos da altitude no rendimento de atletas tiveram seu início nos Jogos Olímpicos de 1968, cuja sede foi a Cidade do México, México, a 2.240 metros do nível do mar (Willmore e Costill, 2001).

Os efeitos imediatos da altitude sobre o organismo humano podem ser classificados em três categorias: respostas respiratórias, cardiovasculares e metabólicas. Essas manifestações ocorrem de forma muito individualizada em função das características de casa pessoa (Katch et al., 2003). As respostas respiratórias ocorrem de forma a não permitir que ocorra a falta de O2 para os músculos e os diversos sistemas do organismo, e se resumem ao aumento da ventilação pulmonar com o objetivo de disponibilizar o maior volume de ar possível para a hematose (troca gasosa ao nível alveolar), redução da saturação da hemoglobina (de 98% para 92%) e redução do gradiente de pressão de O2 de 64 para 20mmHg, com conseqüente redução de 70% da taxa de difusão).

Com relação às alterações cardiovasculares, podemos destacar o aumento gradual do hematócrito (redução do volume plasmático com pequeno aumento das hemácias), redução do volume sistólico (redução do volume de sangue ejetado pelo coração em função do aumento da viscosidade do sangue), aumento da freqüência cardíaca de repouso e em atividade e redirecionamento da circulação pulmonar, de forma que ocorre o aumento da difusão sanguínea pelos ápices dos pulmões (em condições normais, a circulação pulmonar ocorre prioritariamente nas bases dos pulmões).

Já no aspecto metabólico, pelo fato de a altitude fazer com que o organismo trabalhe em condições de hipóxia, existe a tendência de maior produção de energia pela via glicolítica (sistema anaeróbio), o que reduz a capacidade de atendimento da demanda energética até o momento em que as reservas de substratos energéticos de repouso (ATP, ATP-CP e glicogênio muscular) atinjam níveis críticos, resultando na incapacidade de realizar trabalho muscular.

Todo o processo de ajuste do organismo à altitude pode provocar alguns desconfortos, sendo os mais comuns a falta de ar, dores de cabeça, náusea, tonturas e edemas pulmonares ou cerebrais. Atividades como futebol podem exacerbar esses sintomas e não devem ser realizadas sem a devida aclimatação ao novo ambiente, adaptação essa cujo tempo médio é de 20 dias (McSharry, 2007).

No que diz respeito ao rendimento do futebolista, jogar sem a devida aclimatação pode resultar em fadiga e incapacidade de raciocínio. Outro fator importante é a alteração da velocidade da bola em função do ar rarefeito, o que pode mudar a percepção do atleta em relação ao implemento.

Ainda com relação ao rendimento do futebolista, mas num contexto de equipe, McSharry (2007) realizou um estudo baseado em modelos matemáticos em que foram avaliados os resultados de dez seleções sul-americanas no período de 1900 a 2004. No total, foram avaliadas 1.640 partidas que ocorreram tanto em casa quanto em campo adversário e excluindo jogos que ocorreram em locais neutros.

Os times foram ranqueados e os modelos utilizados excluíram a influência de fatores como habilidade e estratégia. Foram analisadas a probabilidade de vitória, os gols marcados e sofridos.

Os dados são sugestivos de que existe uma grande vantagem de jogar em casa, com uma grande probabilidade de o time anfitrião vencer a partida quando comparados os dados de gols marcados (1,81) em relação aos gols sofridos (1,04), sendo que a porcentagem de vitórias em casa foi de 53,7%.

Outro dado interessante é a possibilidade de vitoria dos times provenientes de grandes altitudes em relação a seleções provindas de altitudes tidas como normais. Por exemplo, no caso de Bolívia contra o Brasil, a possibilidade de vitória do time da casa é de 0,825, porém, quando o mando do jogo é do Brasil (Brasil contra Bolívia), a possibilidade de vitória da Bolívia cai para 0,213. Lembrando que entre os campos em que os jogos ocorreram existe uma diferença de 3.695 metros.

Com base nessas informações podemos sugerir que os provenientes de locais de baixa altitude devem adotar diferentes estratégias para competir em condições de igualdade. Uma das estratégias indicadas é chegar ao local da partida poucas horas antes do evento, já que não haverá a possibilidade de aclimatação, torna-se importante salientar que essa alternativa é extremamente agressiva e pode resultar nos sintomas citados anteriormente.

Outra sugestão é permitir que os atletas se ajustem ao novo ambiente, o que seria menos agressivo à saúde dos jogadores e permitiria que a partida transcorresse em condições de “igualdade fisiológica”. E caso haja a possibilidade, a melhor maneira de aclimatar os jogadores às grandes altitudes é a subida gradual (de 300 a 600 metros por dia) antes da partida, com um repouso adicional a cada 1000 metros de subida.

Em nossa opinião, o posicionamento da FIFA em relação aos jogos em altitude é acertado. Porém, temos consciência de que essa discussão não se restringe aos aspectos relacionados à preservação da integridade física dos atletas, e sim em interesses políticos e financeiros que regem o local e horário de realização desses eventos.

Bibliografia

KATCH, FI; KATCH, VL; MCARDLE, W. Fisiologia do Exercício: Energia, Nutrição e Desempenho Humano. Guanabara Koogan, 2003.
MCSHARRY, PE. Effects of Altitude on Physiological Performance: A Statistical Analysis Using Results of International Football Games. BMJ, 2007.
WILLMORE, JH; COSTILL, DL. Fisiologia do Esporte e do Exercício. Manole, 2001.

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