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07/04/2018

Os jogos ao redor da bola (rondos), que de “bobinho” não tem nada

Na forma lúdica do “bobinho” podemos estimular dezenas de comportamentos micro-táticos importantes

No Brasil existe um tipo de jogo, ou brincadeira popular, chamada “bobinho”, que pode ser visto não só no futebol, mas em diversas modalidades de jogos coletivos, como o futsal, basquetebol, voleibol e handebol. Além disso, pode ser encontrado na pedagogia de outros países. Em espanhol ou italiano são denominados como “rondo”, para os americanos é “pig-in-the-middle” ou “monkey-in-the-middle” (quando jogado com as mãos)e, para os ingleses, “rondo football” ou“fundamental & technical pratices” (nome técnico).

Nesse texto gostaria de discutir estes jogos/brincadeiras:

Características dos jogos ao redor da bola (“Bobinho”)

  • Os jogadores de ataque sempre estão em superioridade numérica.
  • Jogar ao redor da bola implica em buscar os companheiros mais próximos para interagir.
  • O espaço efetivo de jogo é delimitado pelos jogadores de ataque (ao redor da bola).
  • O objetivo é não deixar a bola sair deste espaço de jogo, nem ser recuperada pelos jogadores de defesa.
  • São jogados de forma lúdica e envolvem a participação de todos ao mesmo tempo.

No futebol, o “bobinho” é amplamente utilizado no contexto de ensino-vivência-aprendizagem-treinamento. Pode ser praticado no colégio, na rua, no clube, em escolas de esporte e outros lugares; que incluem desde a prática livre à deliberada; dos contextos do futebol de participação, formação, até o alto rendimento.

Cabe lembrar que muitos desses jogos, na verdade, são brincadeiras que surgiram na pedagogia não-formal (pedagogia da “rua”) e foram desenvolvidas e utilizadas na pedagogia do esporte.

Embora o nome popular no Brasil seja “bobinho” – fazendo referência ao(s) jogador(es) que fica(m) no centro – de “bobinho” esse tipo de jogo não tem nada.

O(s) jogador(es) do centro exercitam a capacidade de defender, pressionando, fazendo coberturas, antecipando/interceptando o passe, desarmando o atacante, além de outros subprincípios e sub-subprincípios de defesa, relacionados a ajustes do movimento.

Os jogadores ao redor da bola exercitam a capacidade de atacar, guiados pelo princípio operacional de manter a posse da bola. Para tanto, cumprem, a todo instante, princípios de mobilidade e apoio, além de subprincípios e sub-subprincípios relacionados a ajustes do corpo, que podem lhes garantir vantagens para o cumprimento da tarefa.

Jogadores em ambas situações estão interagindo com o jogo, com o espaço-tempo, com a bola e com o movimento do próprio corpo, dentro de uma zona denominada “centro de jogo” e estão entretidos em uma situação de jogo chamada “micro-tática”.

Entretanto, existe uma peculiaridade própria nestes tipos de jogos: os alvos para o ataque não são as balizas, e o desafio, portanto, não é fazer gol.

Isso ilude quem acredita que, por essa razão, estes jogos não são específicos. Na verdade, são sim, só que para outros fins, que não marcar gol.

A lógica do jogo nos leva a crer que só existe uma finalidade no jogo de futebol – fazer mais gols que o adversário – mas ao analisar cada fragmento do jogo, percebemos que as jogadas possuem necessidades diferentes. Inclusive, a maioria das ações ofensivas acontecem longe do gol.

Sendo assim, qual seria o alvo/objetivo, se não existe gol?

No meu entender, o alvo é o próprio companheiro. De preferência, o que estiver mais livre, melhor posicionado ou oferecendo uma “linha de passe” segura em relação ao posicionamento do(s) defensor(es), em melhor condições de receber a bola e seguir a jogada à outro companheiro.

Em suma, os jogos ao redor da bola, ou “bobinhos”, podem entrar na programação do treino de sua equipe. Não é somente uma forma lúdica, com demanda sócio-afetiva, como também pode estimular comportamentos micro-táticos importantes.

Pontos-chaves para o treinador

  • Os jogos ao redor da bola são simulações de ações do centro de jogo (zona em vermelho).

  • Desenvolvem a atenção e tomada de decisão individual e o comportamento coletivo, em diferentes partes do campo.

  • Estimula a exercitação de um contexto micro-tático no qual a técnica, ou melhor, a fluidez do movimento e ajustes corporais eficientes são constantemente estimulados.

  • São fundamentais para a manutenção da bola em espaços curtos e sob pressão do adversário.

  • São possíveis de estimular e desenvolver as estruturas condicionais (físicas e fisiológicas), cognitivas, coordenativas, sócio-afetivas, criativo-expressivas e emotivo-volitivas.

 

 

Referências

Roca, A. (2008). El proceso de entrenamiento en el fútbol. Metodología de trabajo de un equipo profesional (FC Barcelona). Barcelona: MC Sport.

Barrero, A.B., Martínez, F.I. (2010). El juego del rondo y su aplicación práctica al entrenamiento de equipos de fútbol de alto rendimiento EFDeportes.com, Año 15, Nº 147.

DiBernardo, M. (2017). The Science of Rondo: Progressions,Variations & Transitions.

Genoud, J. (2017). Todo elfútbol está en los rondos – mi visión. https://rondos.futbol/2016/02/todo-el-futbol-esta-en-los-rondos-mi-vision/

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