Universidade do Futebol

Nupescec

16/08/2007

Os meios de comunicação no processo de ensino-aprendizagem do futebol

Introdução

Uma das áreas que tem sido muito pesquisada ultimamente é a que trata a questão do processo do ensino-aprendizagem-treinamento. Através deste trabalho, coloco minha preocupação sobre a questão da influência da mídia e globalização sobre a mudança de comportamento dos jovens aprendizes do futebol no processo da iniciação, ocorrendo ali uma profissionalização precoce.

Desenvolvimento

Como sabemos, os meios de comunicação têm grande poder sobre as decisões que tomamos no nosso dia-a-dia. Essa influência tem quebrado barreiras cada vez maiores, como podemos verificar no campeonato indígena que foi realizado nos dias de 18 a 21 de janeiro, no qual o núcleo de pesquisa em comunicação, esporte e cultura acompanhou e observou a competição “Taça das Nações Indígenas de futebol” realizada em Juiz de Fora.

Pudemos vivenciar muitas curiosidades dessa cultura, que possui muitos rituais e manias deferentes da nossa. Além disso, através de questionários aplicados nos participantes (jogadores e técnicos) pelo núcleo da UFJF, pudemos tirar conclusões sobre várias curiosidades sobre o mundo futebolístico.

O futebol está no sangue dos brasileiros, está incluído em nossa cultura, não possui limitadores de nenhum credo, cor, crença e social. A mídia, sabendo disso, investe nesse esporte, apostando que há um retorno financeiro certo. A gigantesca audiência que o futebol dá para os meios de comunicação atrai muitos patrocinadores.

A influência dos eventos esportivos divulgados nas emissoras de comunicação, a identificação com ídolos, a pressão de familiares e conhecidos, a esperança de obter sucesso e status e a falta de perspectiva na vida fazem com que um número crescente de crianças inicie sua prática cada vez mais cedo. Pudemos comprovar essa influência dos meios de comunicação quando foi questionado aos 154 participantes da taça indígena se eles têm contato com os meios de comunicação. Observou-se que 96% tinham contato e os outros 3,9% não.

Quando indagados sobre o ídolo no meio futebolístico, tivemos a comprovação de que eles acompanhavam os jogos pelas televisões porque responderam jogadores que atuam tanto no Brasil (como Marcos, Rogério Ceni e Juninho Paulista, entre outros), quanto no exterior (como Cristiano Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Kaká).

Outra curiosidade que tivemos foi se eles acompanharam a Copa do Mundo. Chegamos aos seguintes resultados: 94,2% dos 154 entrevistados acompanharam, 4,5% não acompanharam e 1,3% não souberam responder. Alguns autores são a favor da prática precoce, acreditando que isso contribui na formação: forma a personalidade das pessoas, além de ensinar valores morais, sociais e espirituais.

Essa questão do processo de iniciação precoce é um assunto que tem provocado muitas discussões. Vemos que os objetivos dessa iniciação nas tribos indígenas cada vez mais vêm sofrendo a influência dos meios de comunicação e da globalização. Até alguns anos, essas tribos não tinham acesso a esses meios de comunicação. Porém, com a globalização, a situação mudou drasticamente.

Muitos desses índios possuem o sonho de se tornarem jogadores de futebol e outros têm feito até cursos para serem treinadores. Porém, para se tornarem profissionais dessa área, têm de evoluir muito, pois eles estão num processo de aprendizado e evolução, embora alguns índios já tenham se tornado atletas e outros estão em alguns clubes tentando sucesso na profissão.

Podemos citar como exemplo o jogador Rubens Barbosa de Souza, também chamado de Índio, que passou por grandes clubes como: Santos, Flamengo, Palmeiras, Guarani, Goiás, Atlético-MG, entre outros. Tentamos comprovar qual a real intenção dos índios com essa prática de jogar futebol – se é algo para recreação ou se existe alguma pretensão de se tornarem jogadores. Perguntamos se eles já pensaram em jogar profissionalmente, e num total de 154 entrevistados, 84,4% (130 pessoas) responderam que sim.

Campeonatos indígenas estão sendo organizados como esse nacional, que possui 21 equipes, mas os organizadores já pensam em expandir para um nível mundial. Os comandantes dos times cada vez mais têm se preocupado com a escolha da equipe, estão fazendo até “peneiras” na tribo e dividindo os times por categorias. Foi realizada a seguinte pergunta aos comandantes das equipes:

A) Quais as faixas etárias? Existem escolinhas de futebol ou divisões de base?

Varias foram as respostas obtidas. Observamos que não há uma divisão de faixas etárias como modelo, mas há uma preocupação na questão da formação do time. Alguns técnicos responderam o seguinte: de 13 a 20 anos; de 14 a 20 e 8 a 10 anos; até 12 anos, de 14 a 18 e acima de 18; de 13 a 20 anos.

Algumas respostas chamaram muita atenção, como: dividimos em crianças até 9 anos, adultos e mulheres, destacamos o interesse do futebol feminino. Um comandante respondeu que tinha um projeto de montar equipe de base. Houve respostas diferentes e engraçadas como: grandes e pequenos; mais novos e mais velhos; titulares menores de 25 anos e juvenil menores de 20; todos juntos, sem divisão. Três pessoas não responderam num total de 12 técnicos pesquisados.

A base desse trabalho é a preocupação com a profissionalização precoce dos índios e seus efeitos colaterais, o quanto ela poderá ser benéfica ou maléfica para as tribos, podendo até mudar hábitos e valores inseridos nessa cultura. Sobre a iniciação esportiva, o que tem nos preocupado mais é ela cair na mesma vertente do processo de iniciação nas cidades onde em sua maioria são prematuras, sistematizadas e profissionalizadas.

Embora o processo da profissionalização nas tribos seja muito precário se comparado aos grandes centros futebolísticos, isso poderá ocorrer num futuro próximo. A especialização esportiva precoce nos cidades pressupõe a prática sistemática de um único tipo de esporte antes da puberdade, predominantemente competitiva, com elevada dedicação aos treinamentos e com o objetivo de se alcançar resultados em curto prazo (PERSONNE, 1983; COELHO, 1988; MARQUES, 1991; BOMPA, 2002. As crianças, em alguns casos, se iniciam nesse a partir dos cinco ou seis anos de idade (ARENA & BOHME, 2004), são vinculadas a federações esportivas, competem formalmente antes do tempo e, por isso, entre outros fatores, o ensino tende à especialização técnico-tática precoce.

Tivemos a curiosidade de saber com quantos anos os índios começaram a jogar futebol e observamos que 108 ou 71,52% dos 151 jogadores entrevistados aprendem antes dos 12 anos e os outros 43 ou 28,48% depois dessa idade, comprovamos que o interesse a essa prática tem com o passar dos anos atingido as crianças menores.

Essa prática precoce traz diversos problemas para essas crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo em que a criança começa cedo demais essa prática sistematizada, pode também ter uma saturação precoce do esporte. Isso pode ser observado quando a criança apresenta sinais de desânimo (enjôo) e desinteresse em continuar a prática do esporte. Sente-se assim porque o praticou em excesso e quer abandoná-lo.

Muitas etapas da vida dessas crianças são queimadas, como é o caso de participação em jogos e brincadeiras infantis, haja vista que o método de ensino (parcial) acaba, de certa forma, furtando o lúdico (o tempo de brincar!). Longe de jogos e de brincadeiras, a criança prescinde do símbolo, do faz de conta, elementos fundamentais para que ela crie e improvise; e também de uma formação escolar deficiente de tanto que o garoto se entrega ao treinamento.

Esses treinamentos, se mal ensinados, podem ainda fazer com a criança se desenvolva somente unilateralmente por causa da especialização técnica de determinadas habilidades específicas (fundamentos) em detrimento de um desenvolvimento plural, que privilegie a diversidade de movimentos. Podem ainda prejudicar o crescimento em estatura, visto que as crianças, principalmente durante a aceleração de seu crescimento na puberdade, apresentam ossos frágeis e mais propensos a lesões por sobrecarga, como também lesionar se praticado em excesso, inadequadamente e por longo período de tempo, pode ocasionar fraturas, lesões epifisárias e tendinites.

Um problema muito comum também é o objetivo nas competições realizadas com essas crianças, que é muito semelhante ao que ocorre nos clubes brasileiros. A preocupação com a vitória, talvez pela influência dos grandes campeonatos que são transmitidos na televisão, é totalmente diferente das preocupações que acontecem nos torneios indígenas embora esses também queiram vencer.

Nas disputas transmitidas pelos meios de comunicação o ganhar tem por trás muitos interesses políticos, econômicos e pressão dos patrocinadores que querem ver suas marcas estampadas para que todos possam ver. Com isso, todos os times jogam com uma pressão enorme e querem ganhar do seu adversário mesmo se for preciso trapacear e desrespeitar o profissional e ser humano do outro lado.

Ao contrário disso, os índios possuem uma característica nobre: respeito tanto ao adversário quanto ao árbitro. Isso pode ser observado no campeonato, já que não houve nenhum tipo de reclamação mais exaltada. Ao perguntarmos aos técnicos como eles tratam dessa disciplina com o time, a maioria disse palavras como: respeito, responsabilidade e rigidez. Essa exigência acima do tolerável faz com que gere um estresse nessas crianças acima do normal, que se caracteriza por um sentimento de medo e de insegurança, causado principalmente por conflitos oriundos de uma prática excessivamente competitiva. A criança, nesse caso, tem medo de errar, sente-se insegura e com a auto-estima ameaçada.

A prática da atividade física gera muitos benefícios quando bem realizada, ou poderá gerar malefícios que foram citados acima. Citarei alguns dos benefícios. É importante que a criança vivencie uma variedade de atividades motoras com o objetivo de desenvolver as suas capacidades singulares de movimento, para depois assim participar de programas esportivos em geral.

O exercício físico é capaz de auxiliar na perda de peso e na diminuição da percentagem de gordura corporal, tanto antes quanto durante a puberdade. Também ajuda no crescimento em estatura de um indivíduo reflete, na realidade, o crescimento longitudinal de seu osso. A atividade física é essencial para o crescimento normal da criança. Ele contribui para a formação da personalidade das crianças como regras de conduta, valores sociais, comportamentos, perseverança, disciplina e etc.

A atividade física bem realizada serve como prevenção e tratamento de doenças coronarianas, diabetes, osteoporose, hipertensão e obesidade. Aumentam a função cardiovascular, força, resistência e flexibilidade. Também controla o colesterol, ansiedade, estresse e auxílio no tratamento da depressão, e melhora função cognitiva, qualidade do sono, estado do humor, relações interpessoais e desempenho sexual.

Considerações finais

Através desse artigo, coloco minha preocupação com possível transformações da cultura indígena com o processo da globalização no que diz respeito ao ensino-aprendizagem-treinamento do futebol. O futebol, voltado para recreação, ludicidade, parece estar mudando para uma iniciação precoce das crianças, na qual ela desde cedo tem a preocupação com a vitória a qualquer custo, não respeitando os companheiros e adversários, com atividades voltadas para o treinamento.

Dessa forma, não é respeitado, portanto, o processo de desenvolvimentos motor, psicológico, maturacional e físico de cada indivíduo. Temos que saber que cada pessoa tem seu processo de prontidão esportiva individualizado.

É importante que exista um processo de transformação ou de reformulação sobre essa questão de conseguir resultados e ganhar competições a qualquer custo. Vem a pergunta: o que deveria ser feito para mudar o processo de iniciação precoce?

· As competições deveriam ser um processo gradativo quanto à exigência de resultados;
· Os dirigentes esportivos deveriam diminuir a preocupação com a imagem do clube, acabando por gerar uma mudança na atual situação da iniciação esportiva que possui como seu maior objetivo a vitória. Essa mudança também refletiria na preocupação mercadológica de se revelar talentos esportivos;
· Parte da mídia deveria se preocupar em diferenciar o esporte infantil do profissional, o que resultaria em ser mais crítica;
· Os pais e os professores deveriam se tornar educadores, e não tentar fazer da criança um objeto de realização pessoal.

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* Clayton Marcus Nogueira Vieira é membro do Núcleo de Pesquisa em Comunicação, Esporte e Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora.

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