Os obstáculos para o desenvolvimento de indústrias de futebol

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Introdução

Ao mesmo tempo em que há crescentes níveis de interesse público, o profissionalismo busca novas formas de comunicação, e as características globais do futebol podem ter ajudado no desenvolvimento de indústrias de futebol pelo mundo. Outras ainda lutam para fazer uso desses elementos e conseguir níveis de desenvolvimento mais elevados.

Esse trabalho visa fazer uma contribuição para o entendimento dos principais obstáculos enfrentados pelo processo de desenvolvimento de indústrias de futebol no mundo. Será explorada a literatura acadêmica no assunto e fornecidos exemplos de países que apresentam ou apresentaram os obstáculos. O propósito dos exemplos e recomendações que possam surgir não é fornecer uma solução universal para superar os obstáculos considerados, mas sim, fornecer um melhor entendimento do cenário onde o fenômeno se apresenta. 

Cada uma das três sessões do volume se refere a uma atividade administrativa crucial para o desenvolvimento de uma indústria. Dentro de cada sessão existe um foco no maior obstáculo enfrentado por cada uma das atividades definidas.

Criando demanda

Uma das maiores razões pelo futebol ser único é a relação entre torcedor e clube. Para ser bem sucedido empresarialmente e estimular o desenvolvimento de sua indústria, o futebol precisa contar com essa conexão. Além disso, é a natureza de torcer, funcionando como um mercado cativo, que atrai patrocinadores e profissionais do marketing para o esporte. Se a conexão entre torcedor e clube não é forte o suficiente e falha em apresentar um mercado em massa para os produtos e serviços dos membros da indústria, ela se depara com recursos escassos para fundamentar o seu desenvolvimento.

Markovits e Hellerman (2001) descrevem a falta de interesse e conexão de um país com o futebol baseados no conceito de cultura esportiva, definida como:

“A intensa, frequente, e até constante, preocupação de um amplo público, em pelo menos um nível nacional, que vai além das atividades dos atores e espectadores envolvidos no jogo; consequentemente representando o ‘acompanhar’ como mais importante que o ‘fazer'”. 

Os Estados Unidos são um exemplo interessante de aparente falta de entusiasmo com o futebol. Apesar de muitas crianças americanas assumirem o futebol como parte de suas vidas, o futebol ainda não conseguiu ganhar mais do que uma existência marginal na cultura esportiva norte-americana. Markovits e Hellerman (2001) caracterizam a resistência cultural ao futebol nos Estados Unidos pela definição de uma cultura esportiva hegemônica. Tal cultura é representada pela cultura esportiva que domina as ligações emocionais de um país e não apenas suas atividades praticadas. Os norte-americanos preferem os esportes que eles mesmos criaram, como o beisebol, o basquete e o futebol-americano, e são esses esportes que dominam a cultura esportiva norte-americana e deixam apenas as margens para os novos entrantes, como o futebol. Tomlinson e Sugden (1996) sustentam esse argumento ao afirmar que um espaço esportivo não é simplesmente preenchido em ordem de chegada, mas sim disputado e contestado por grupos sociais e agentes com interesses próprios. 

Em uma cultura esportiva hegemônica se torna extremamente árduo para novos entrantes se desenvolverem, uma vez que a topografia do espaço esportivo de um país for estabelecida. De acordo com Stinchcombe (1968), uma vez que os ocupantes estiverem estabilizados, eles são virtualmente impossíveis de serem deslocados. As possibilidades de entrada e saída se tornam extremamente limitadas, os custos relativos aumentam consideravelmente, e o consumo esportivo é direcionado por lealdades que são constantemente reproduzidas e fortalecem a permanência do poder existente.    

Apesar de autores afirmarem que uma cultura esportiva hegemônica é praticamente impossível de ser superada, isso não se trata de uma verdade absoluta. O futebol no Japão sofreu com anos de baixa popularidade, alcançando apenas uma influência marginal na cultura esportiva do país, quando comparado com outros esportes. Apesar do futebol ser praticado no país desde 1873 e a Federação Japonesa de Futebol ter sido fundada em 1921, Dobson e Goddard (2007) afirmam que o crescimento da popularidade do futebol no Japão foi severamente restringido pela predominância do beisebol como esporte nacional. 

O desenvolvimento mais acentuado da indústria japonesa de futebol nos anos 1990 foi fruto de uma estratégia intensa de marketing de massa, na qual todos os aspectos do projeto foram cuidadosamente planejados e coordenados. Desde esse período, o número de times na liga nacional aumentou e o futebol assumiu um importante papel no re-desenvolvimento urbano japonês. Apesar do público nos estádios enfrentar oscilações, já é possível afirmar que as bases da liga japonesa atualmente se apresentam seguras o suficiente para possibilitar a sobrevivência e o crescimento do futebol no país.

Fornecendo o produto/serviço

Mullin, Hardy e Sutton (2000) descrevem o produto esportivo como “uma combinação de aspectos tangíveis e intangíveis que vão muito além do jogo e da performance”. Primeiramente, apesar de toda a indústria girar ao redor da partida, o nível técnico dos jogadores de futebol não necessariamente apresenta um obstáculo para uma indústria de futebol, uma vez que diferentes consumidores podem ter diferentes expectativas e percepções de habilidade e performance. Em segundo lugar, enquanto Bale e Cronin (2003) descrevem o verdadeiro obstáculo para a indústria de futebol na África como sendo o fato que “a pobreza não permite o futebol ser financiado corretamente”, esse volume assume que a pobreza não apresenta um obstáculo para a indústria de futebol por si só, mas sim caracteriza um estágio de desenvolvimento da população em termos econômicos gerais e de bem-estar. 

Portanto, o que essa sessão enfatiza como principal obstáculo para o fornecimento dos produtos/serviços relacionados ao processo de desenvolvimento de uma indústria de futebol é o ciclo onde os produtos/serviços, sendo oferecidos pela indústria, não são capazes de atender às necessidades básicas dos consumidores e, consequentemente, são incapazes de fornecer co
ndições futuras, de gerar o capital necessário para realizar investimentos no aprimoramento do produto/serviço.

De acordo com Dobson e Goddard (2007), o público nos estádios pode possuir um grande impacto nas receitas de um clube, fornecendo não apenas a atmosfera para o espetáculo, mas representando uma medida de sucesso para a indústria. Para atrair o público para os estádios, segurança é a necessidade primária que precisa ser atendida. Apesar de Frosdick e Marsh (2005) afirmarem que “o comportamento de torcedores ter sido por muitos anos motivo de preocupação pela Europa, especialmente na Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália e Bélgica”, esse volume assume que o fator violência se insere no obstáculo de fornecer um produto/serviço seguro. Se o consumidor não se sente seguro, sua disposição para comparecer a partidas de futebol é consideravelmente reduzida, assim como o apelo do esporte para investidores e patrocinadores. 

Exemplos de insegurança em estádios podem ser encontradas em diversas partes do mundo. Em 2001, a África do Sul enfrentou uma das piores tragédias na história esportiva do país, quando 43 pessoas foram mortas em uma partida entre dois dos mais populares times do país. O motivo foi a superlotação de um estádio decadente onde, segundo jornalistas, além do estado do estádio, falsificadores de ingressos e uma força policial despreparada também tiveram culpa. Tal caso leva à consideração que, fornecer um serviço seguro e aprimorar a qualidade do produto oferecido por uma indústria de futebol depende não apenas de administradores de estádios, mas também de autoridades e suas políticas de gerenciamento de multidões. 

O futebol inglês demonstrou nos anos 1980, primeiramente, como a falta de segurança pode ser um sério problema para a indústria e, em segundo lugar, como iniciativas dos clubes, governo federal e autoridades locais podem trabalhar na superação desse obstáculo. Os estádios ingleses, que foram construídos para gerações passadas de torcedores, não haviam acompanhado a expansão de torcedores e, em alguns casos, foram deixados incapazes de fornecer um produto/serviço seguro para os consumidores do espetáculo. Casos dos anos 1980, como o incêndio de Bradford, quando apesar do fogo ter sido um trágico acidente, não restaram dúvidas de que o estado decadente do estádio foi um fator contribuinte, e o desastre de Hillsborough, quando a incompetência da polícia ficou clara, levaram a indústria de futebol inglesa a adotar novos procedimentos relacionados a segurança em estádios, incluindo as recomendações do relatório Taylor, direcionadas para o investimento em instalações e o estabelecimento de estádios com lugares marcados.  

Administrando o negócio

Para desenvolver uma indústria de futebol não é suficiente ter apenas o mercado consumidor necessário e fornecer um produto/serviço que satisfaça a demanda desse mercado. É importante adotar uma estrutura administrativa que permita um comportamento administrativo profissional no futebol e sustente as operações. O maior obstáculo para o adoção de tal comportamento é caracterizado pela busca por interesses próprios em detrimento dos interesses do futebol, como um todo.

Ao romper as barreiras da ética e fazer uso do poder e capital oriundo da indústria de futebol para benefícios próprios, administradores podem não apenas afetar a incerteza de resultado descrita como “a essência de qualquer evento esportivo” (Dobson and Goddard, 2007), mas também prejudicar a saúde financeira da indústria. Assim é apontado por Jim Andrews, vice-presidente da gerenciadora de patrocínios IEG:

“Fraude, corrupção, apostas e casos de doping no esporte podem ter um sério impacto no desejo de patrocinadores se associarem ao esporte afetado, já que patrocinadores querem se envolver com esportes para usufruir da lealdade de torcedores e transferir a imagem dos atributos positivos do esporte para suas marcas”. 

Bale e Cronin (2003) descrevem que a corrupção pode estar enraizada em aspectos históricos e culturais de uma nação. Os autores argumentam que a corrupção no futebol africano esta ligada ao período pós-colonial, quando experimentos democráticos pereceram para dar lugar a governos autoritários. Tais governos, por meio do abuso de seu poder político, permitiram que a corrupção florescesse e se tornasse institucionalizada até certo nível. O fato levou a corrupção a ter forte presença na administração do futebol no continente. Darby (2002) afirma que “muitas vezes o dinheiro que deveria ser gasto com o desenvolvimento do futebol acaba nos bolsos de administradores corruptos e oficiais do governo”. 

A fim de superar o obstáculo da corrupção, alguns países africanos já começaram a tomar medidas para adotar um comportamento mais profissional dentro do futebol. É o caso da Liga Nigeriana de Futebol que, recentemente, anunciou planos para melhorar as condições profissionais de árbitros, a fim de superar práticas de corrupção e manipulação de resultados. De acordo com Oyuiki Obaseki, dirigente da liga nacional, “bom salários, segurança sólida, honestidade e comprometimento para os árbitros de futebol é a melhor maneira de garantir que o futebol se mantenha livre de corrupção”. 

Assim como a corrupção em governos e federações pode representar um obstáculo para o desenvolvimento de uma indústria de futebol, a corrupção em outros níveis da indústria, mais especificamente nos clubes de futebol, possui consequências semelhantes. O caso de corrupção no futebol italiano, em 2006, foi um claro exemplo do obstáculo que a corrupção pode apresentar para a indústria de futebol. Em 2006, a manipulação de resultados envolvendo diversos clubes da Itália como o Juventus, o Milan, a Lazio, a Fiorentina e o Reggina teve como resultado uma queda de público de 14,8% durante a temporada corrente, e 11,7% na temporada seguinte (Deloitte, 2008). A melhor maneira para evitar danos à indústria é punir severamente os envolvidos e adotar procedimentos para evitar futuras transgressões. As autoridades italianas, recentemente, demonstraram parcialmente essa atitude ao sentenciar Luciano Moggi, ex-gerente geral da Juventus, a 18 meses de cadeia pelas acusações de corrupção. 

O obstáculo apresentado pela corrupção pode se manifestar não necessariamente em processos internos antiéticos de governos, organizações ou clubes. A manifestação pode ocorrer dentro das relações entre os agentes da indústria. Alguns exemplos podem ser fornecidos pela indústria brasileira de futebol, na qual profissionais não remunerados são muitas vezes levados a usar suas posições de poder para realizar acordos pessoalmente lucrativos. De acordo com José Carlos Brunoro, presidente da Brunoro Marketing Esportivo, a cor
rupção no futebol brasileiro se concentra nas transferências de jogadores, especialmente em acordos entre dirigentes e empresários de jogadores. Tal fato pode ocorrer de diversas maneiras, como uma porcentagem do valor pago pelo atleta ser direcionada para o dirigente, uma parte do salário contratual do atleta retornar ao dirigente do clube e dirigentes forçando atletas a assinar com certos empresários. 

As práticas antiéticas descritas levam a um procedimento que favorece indivíduos e representam um obstáculo para a transparência, o profissionalismo e o desenvolvimento da indústria de futebol. O profissionalismo necessita prevalecer, a fim de abolir as estruturas que incitam a corrupção, e criar uma base de conhecimento que permita a efetivação de profissionais competentes, uma pressão para dirigentes atuarem de maneira ética e um ambiente que permita à indústria se desenvolver. 

Conclusão

Partindo dos aspectos históricos e culturais capazes de afetar a demanda pelo produto/serviço da indústria, passando pela dificuldade em atender às necessidades e aos desejos do mercado consumidor, causada por estádios inseguros, e chegando ao obstáculo apresentado por práticas administrativas que promovem a busca por interesses próprios, em detrimento ao desenvolvimento da indústria, esse trabalho buscou considerar os principais obstáculos deparados por indústrias de futebol no mundo. 

Uma conclusão importante derivada da análise construída é o reforço da noção de que cada região, nação ou cultura possui características particulares que podem representar obstáculos distintos para o desenvolvimento de suas respectivas indústrias de futebol, assim como diferentes níveis de dificuldade para superação de tais obstáculos. Apesar dos obstáculos apresentados em cada região, apoiados por exemplos oriundos de diferentes indústrias nacionais, para buscar fornecer um entendimento dos principais obstáculos enfrentados pelo processo de desenvolvimento de uma indústria de futebol e as maneiras como tais obstáculos podem ser superados, é necessário levar em consideração as peculiaridades de cada país e avaliar não apenas o obstáculo aparente na superfície, mas também suas raízes históricas, culturais e sociais.

O trabalho reconhece uma visão otimista para a superação dos obstáculos. Ao analisar e apresentar exemplos de casos em que tais obstáculos foram superados, o volume considera que, apesar de cada caso requerer uma solução particular, eles não são impossíveis de serem superados. Em conclusão, a solução de obstáculos não é fornecida por fórmulas ou soluções gerais, mas sim por uma prática administrativa e gerencial que envolve profissionalismo, ética, planejamento, marketing e, especialmente, cooperação entre os agentes da indústria, devendo ser aplicada de acordo com o macroambiente e visar o desenvolvimento da indústria como um todo.

Bibliografia

BALE, J.; CRONIN, M.; (2003). ‘Sport and Postcolonialism: Global Sports Cultures’. Oxford: Berg Publishers.

DARBY, P. (2002). ‘Africa Football and FIFA – Politics, colonialism and resistance’. New York: Frank Cass.

DELOITTE. (2008). ‘Annual Review of Football Finance’. Manchester: sport Business Group Deloitte.

DOBSON, J.; GODDARD, J. (2001). ‘Economics of Football’. Cambridge: Cambridge University Press.

FROSDICK, S.; MARSH, P.; ‘Football Hooliganism’. Devon: Willan Publishing.

MARKOVITS, A.; HELLERMAN, S. (2001). ‘Offside: Soccer and American Exceptionalism’. Oxfordshire: Princeton University Press.

TOMLISON, A.; SUGDEN, J. (1996). ‘What’s left when the circus leaves town? An evaluation of World Cup USA’. Sociology of Sport Journal. Vol.13. Iss.3 (p.238-258)

STINCHCOMBE, A. (1968). ‘Constructing Social Theories’. New York: Harcourt, Brace, and World.

MULLIN, B.; HARDY, S., SUTTON, W. (2000). ‘Sport marketing’.ed.2. Illinois: Human Kinetics Publisher

*Claudio Borges é pós-graduando do curso MBA Football Industry da Universidade de Liverpool

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